Dia da Cachaça: a bebida brasileira que enfrentou Portugal e ganhou o mundo

Dia da Cachaça: a bebida brasileira que enfrentou Portugal e ganhou o mundo

O que a Revolta da Cachaça tem a ver com 13 de setembro? A data relembra um conflito entre produtores e a Coroa portuguesa.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Já imaginou uma bebida incomodar tanto a Coroa portuguesa que sua produção fosse proibida? Antes de conquistar espaço nas caipirinhas e nas prateleiras de outros países, a cachaça esteve no centro de disputas comerciais, impostos e uma rebelião no Brasil colonial.

É por isso que o dia da cachaça, celebrado em 13 de setembro, conta uma história maior do que a de um destilado. A bebida acompanha a formação do país, do trabalho nos engenhos à criatividade dos alambiques atuais. Também carrega contradições: foi símbolo de resistência para alguns produtores, mas sua trajetória está ligada à escravidão e aos circuitos comerciais da época.

Hoje, chamar tudo isso simplesmente de “pinga” pode esconder um universo de técnicas e sabores. Existe uma distância enorme entre uma cachaça branca pensada para coquetéis e outra que passou tempo em contato com madeiras brasileiras. Entender essa diversidade é uma maneira de olhar com mais atenção para um produto genuinamente nacional.

Em um pequeno alambique, conhecer a cachaça pode ser também conhecer o território e as pessoas que a produziram.

Em um pequeno alambique, conhecer a cachaça pode ser também conhecer o território e as pessoas que a produziram

Por que 13 de setembro é o dia da cachaça?

A escolha da data remete a um episódio do século XVII. À medida que a aguardente produzida no Brasil ganhava mercado, ela passou a competir com bebidas comercializadas pelos portugueses, entre elas a bagaceira, destilada a partir do bagaço da uva. Restrições à fabricação e à venda da cachaça se somaram à cobrança de impostos e provocaram reação entre produtores coloniais.

A tensão ajudou a alimentar a Revolta da Cachaça, ocorrida no Rio de Janeiro entre 1660 e 1661. Segundo a explicação histórica do Instituto Brasileiro da Cachaça, o IBRAC, a Coroa portuguesa liberou a produção e a comercialização da bebida em 13 de setembro de 1661, após a pressão e a rebelião dos produtores.

Foi para recordar esse acontecimento que o IBRAC lançou, em 2009, a iniciativa de criar o Dia Nacional da Cachaça. Assim, quando alguém pergunta por que a celebração acontece justamente em 13 de setembro, a resposta passa por um conflito envolvendo interesses econômicos, controle colonial e a força que a bebida já tinha naquela sociedade.

Antes de virar ingrediente da caipirinha, a cachaça já era motivo de disputa por mercado e poder.

Uma história que começa nos engenhos, mas não termina neles

As raízes da cachaça estão ligadas à expansão da cana-de-açúcar no Brasil a partir do século XVI. Nos engenhos, havia matéria-prima para produzir líquidos fermentados e condições para desenvolver a destilação. Não existe, porém, uma certidão de nascimento consensual que identifique o primeiro alambique ou a pessoa que fez a primeira cachaça.

O processo ajuda a esclarecer outra curiosidade. Na fermentação, microrganismos transformam os açúcares do caldo de cana em álcool. Depois, a destilação separa e concentra componentes desse líquido. Portanto, deixar um caldo de cana fermentar não basta para produzir cachaça.

Também seria incompleto contar essa origem como uma sequência de descobertas pitorescas. Os engenhos funcionavam com trabalho escravizado, e a aguardente circulou em redes comerciais relacionadas ao tráfico de africanos. Reconhecer essa parte da história não diminui a importância cultural da bebida. Permite compreendê-la sem apagar as pessoas e as violências que marcaram o período colonial.

Com o passar dos séculos, a cachaça atravessou vendas, festas e cozinhas brasileiras. Ao mesmo tempo, sofreu o preconceito de quem a enxergava como bebida sem sofisticação. Os alambiques, os produtores e a diversidade de rótulos mostram como essa ideia é limitada.

O que faz da cachaça uma bebida tão brasileira?

Cachaça não é o nome dado a qualquer destilado de cana. A denominação está associada à bebida produzida no Brasil, a partir do caldo fermentado da cana-de-açúcar, dentro de características definidas pela legislação. Sua origem faz parte da própria identidade do produto.

Há diferentes caminhos de produção. Grandes fabricantes podem trabalhar com destilação em colunas, enquanto muitos produtores menores utilizam alambiques e elaboram lotes com características próprias. Nenhum equipamento, por si só, garante qualidade: o cuidado com a cana, a fermentação, a destilação e o controle do processo faz diferença no resultado.

Depois da destilação, entra em cena outra marca da diversidade brasileira: a madeira. Além do carvalho, conhecido no envelhecimento de vários destilados, produtores utilizam opções como amburana, bálsamo e jequitibá. Dependendo da madeira e do tempo de contato, uma cachaça pode ganhar novas cores, aromas e sabores.

Os números dão uma ideia do tamanho desse universo. De acordo com o Anuário da Cachaça 2026, do Ministério da Agricultura, o Brasil tinha, em 2025, 1.538 estabelecimentos elaboradores registrados, distribuídos por 844 municípios. Havia ainda 8.379 registros de cachaças. Minas Gerais liderava em número de estabelecimentos, seguido por São Paulo e Rio Grande do Sul.

As raízes da cachaça estão ligadas à expansão da cana-de-açúcar no Brasil a partir do século XVI

As raízes da cachaça estão ligadas à expansão da cana-de-açúcar no Brasil a partir do século XVI

Grandes marcas, pequenos alambiques e novos destinos

Nomes como 51, Pitú e Ypióca ajudam a mostrar a presença da cachaça no cotidiano brasileiro. Já regiões e produtores ligados aos alambiques revelam outras experiências, como a tradição de Salinas, em Minas Gerais, ou o trabalho de destilarias familiares em diferentes estados. Não existe uma única lista de “melhores cachaças” capaz de representar toda essa variedade.

Para pequenos produtores, a bebida pode ser mais do que o conteúdo de uma garrafa. Cultivar cana, acompanhar a fermentação, destilar, receber visitantes e explicar as escolhas de produção cria vínculos com a gastronomia e o turismo locais. Valorizar esse trabalho, contudo, não significa supor que todo produto artesanal seja automaticamente melhor. Técnica, segurança e regularização também importam.

Em um pequeno alambique, conhecer a cachaça pode ser também conhecer o território e as pessoas que a produziram.

Fora do Brasil, muita gente descobre a bebida por meio da caipirinha. O coquetel abre portas, mas não conta a história inteira. A cachaça também pode ser apresentada como um destilado com identidade própria, para ser conhecido pela origem, pelo modo de produção e pelos diferentes perfis sensoriais.

Essa presença internacional aparece nas exportações. Segundo o Ministério da Agricultura, o Brasil enviou 7,95 milhões de litros de cachaça para 76 destinos em 2025, movimentando US$ 17,07 milhões. O dado mostra que uma bebida nascida da história brasileira já encontrou consumidores muito além de nossas fronteiras.

No dia da cachaça, talvez a curiosidade mais interessante seja perceber quantas histórias cabem em uma garrafa. Há a disputa com Portugal, a realidade dos engenhos, o conhecimento dos produtores e a criatividade de quem experimenta diferentes madeiras e técnicas. Mesmo para quem não bebe, conhecer essa trajetória é descobrir mais uma maneira de contar a história do Brasil.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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