2003, 2009, 2014, 2020 e 2026. Colocados lado a lado, esses números parecem esconder uma mensagem. Ao associá-los a SARS, gripe H1N1, Ebola, Covid-19 e uma suspeita de peste na Rússia, um gráfico que circula nas redes sugere que pandemias e grandes crises sanitárias obedeceriam a um intervalo de seis anos.
Depois da experiência da Covid-19, é compreensível que uma imagem assim desperte inquietação. Uma sequência aparentemente organizada oferece uma explicação simples para acontecimentos complexos e provoca uma pergunta imediata: estaríamos diante de outra pandemia com data marcada?
O gráfico não demonstra a existência desse ciclo. A sequência mistura datas de início de surtos com anos de reconhecimento internacional, reúne acontecimentos de escalas diferentes e ignora outros episódios relevantes. Até a conta apresenta uma falha: entre 2009 e 2014 existem cinco anos, não seis.
Isso não elimina a possibilidade de futuras pandemias. Significa que a imagem não permite prever quando uma delas acontecerá. Para entender a diferença, vale investigar o que está por trás de cada número.

Existe ainda um erro básico na expressão “um novo vírus a cada seis anos”, usada na imagem: a peste é causada pela bactéria Yersinia pestis. Ela não é um vírus novo
O suposto ciclo de pandemias resiste à conferência das datas?
Uma doença pode começar a circular antes de ser identificada, receber um nome ou provocar um alerta internacional. Esses momentos fazem parte da mesma história, mas representam acontecimentos distintos. Escolher um deles para cada doença, sem manter um critério consistente, pode criar uma regularidade artificial.
A SARS, por exemplo, ganhou projeção mundial em 2003, mas os primeiros casos conhecidos remontam a novembro de 2002. Já o grande surto de Ebola na África Ocidental foi identificado oficialmente em 2014, embora investigações posteriores tenham situado seu início em dezembro de 2013. Os registros históricos da OMS sobre o Ebola explicam essa diferença.
Com a Covid-19 acontece algo semelhante. Os primeiros casos reconhecidos pertencem a dezembro de 2019. A caracterização da situação como pandemia pela OMS ocorreu em 11 de março de 2020. A pandemia de influenza A(H1N1), por sua vez, começou em 2009, quando o novo vírus foi identificado.
| Evento | Ano destacado no gráfico | O que a cronologia mostra |
|---|---|---|
| SARS | 2003 | Primeiros casos conhecidos em novembro de 2002 |
| Influenza A(H1N1) | 2009 | Novo vírus identificado em 2009 |
| Ebola na África Ocidental | 2014 | Início retrospectivamente situado em dezembro de 2013 |
| Covid-19 | 2020 | Casos reconhecidos em dezembro de 2019; pandemia caracterizada em março de 2020 |
A comparação não produz um intervalo fixo. Também mostra por que é necessário definir previamente o que está sendo contado: primeiros sintomas, identificação do agente, declaração de emergência ou reconhecimento de disseminação global.
Os acontecimentos que ficaram fora da sequência
Outro problema aparece quando ampliamos a linha do tempo. O MERS teve casos registrados em 2012. Em 2016, a associação entre o vírus Zika, casos de microcefalia e outros distúrbios neurológicos motivou uma emergência internacional. Em 2022, a disseminação de mpox por vários países também levou a uma declaração desse tipo.
Esses eventos não precisam ser chamados de pandemias para revelar a inconsistência da imagem. O próprio gráfico já reúne acontecimentos diferentes. Se o objetivo fosse listar grandes emergências infecciosas, seria necessário explicar por que algumas entraram e outras foram excluídas.
Esse tipo de seleção é conhecido como cherry-picking: destacar dados que favorecem uma interpretação e deixar de lado os que a enfraquecem. Não é possível concluir, apenas olhando a imagem, se houve intenção de enganar. Mas o efeito da seleção é produzir uma aparência de ordem que a cronologia mais completa não sustenta.
Uma sequência de datas pode formar um padrão visual sem revelar uma regra da natureza.
Há ainda uma distinção de escala. Uma epidemia regional, uma emergência internacional e uma pandemia não são expressões equivalentes. Uma emergência pode exigir cooperação entre países sem que exista disseminação pandêmica. Misturar essas categorias dificulta qualquer conclusão sobre frequência.
A OMS realmente afirma que haverá outras pandemias?
Sim. Em um discurso publicado em fevereiro de 2024, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que a próxima pandemia é uma questão de quando, não de se. A declaração foi um chamado à preparação, sem estabelecer um ano para o próximo evento.
Reconhecer uma ameaça futura é diferente de prever sua data. A história das doenças infecciosas oferece razões para preparar sistemas de saúde, desenvolver pesquisas e fortalecer a vigilância. Nada disso exige acreditar em um intervalo fixo de seis anos.
Nesse contexto aparece a expressão Doença X, utilizada pela OMS desde 2018. Ela representa a possibilidade de um patógeno ainda desconhecido causar uma emergência grave. Não é o nome de um vírus secreto nem uma confirmação de que alguém sabe qual será a próxima pandemia.
A lógica é semelhante à preparação para outros riscos: organizar uma resposta antes do problema não significa conhecer antecipadamente todos os detalhes dele. Significa reduzir a vulnerabilidade caso aconteça.

Uma sequência aparentemente organizada oferece uma explicação simples para acontecimentos complexos
E a suspeita de peste na Rússia em 2026?
O episódio na Sibéria foi incluído nessa narrativa como se completasse a sequência. Entretanto, até a atualização de 6 de outubro de 2026, a morte de uma funcionária de um instituto de pesquisa em Irkutsk não constituía confirmação de uma nova pandemia.
Em um pronunciamento registrado pela ONU em Genebra, a OMS informou que buscava esclarecer a causa da morte e as circunstâncias do caso junto às autoridades russas. Segundo informações transmitidas por essas autoridades, os exames dos contatos não detectaram patógenos de doenças infecciosas perigosas.
A avaliação inicial apresentada pela organização classificava o risco como moderado a baixo em Irkutsk, baixo para a Rússia e muito baixo para a região europeia da OMS. A própria agência destacou que atualizaria a análise conforme surgissem novas informações. Portanto, acompanhar o episódio é adequado; apresentá-lo como uma pandemia prevista pelo gráfico não é.
Existe ainda um erro básico na expressão “um novo vírus a cada seis anos”, usada na imagem: a peste é causada pela bactéria Yersinia pestis. Ela não é um vírus novo.
O gráfico, portanto, não oferece motivo para concluir que uma crise mundial esteja marcada no calendário. Isso não equivale a prometer ausência de riscos, mas a reconhecer que uma previsão precisa de evidências melhores do que algumas datas escolhidas.
A curiosidade pode ser uma excelente porta de entrada para a ciência quando vem acompanhada de perguntas: quais acontecimentos ficaram de fora? As datas seguem o mesmo critério? Os eventos são comparáveis? Neste caso, investigar essas questões transforma uma imagem inquietante em uma oportunidade de compreender melhor como surgem interpretações enganosas.
Futuras pandemias justificam preparação contínua. O suposto ciclo de seis anos não justifica uma contagem regressiva.
Estamos em 2026, e a suspeita de peste pneumônica na Rússia pode parecer uma peça que faltava nesse suposto ciclo. Mas as informações disponíveis não sustentam essa associação: o episódio segue sob investigação, com medidas de vigilância adotadas e risco de disseminação internacional avaliado como muito baixo. Até o momento, não há evidências de que estejamos diante do início de uma nova pandemia. Isso não significa prometer risco zero, mas entender que acompanhar uma investigação é diferente de esperar uma catástrofe. O cenário pede informação confiável e atenção às atualizações das autoridades, não alarde ou pânico.