Tratamento experimental de Harvard mira doença de Creutzfeldt-Jakob

Tratamento experimental de Harvard mira doença de Creutzfeldt-Jakob

Estratégia apresentou resultados promissores em animais, mas ainda não há comprovação de benefício em seres humanos.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Quando uma doença avança rapidamente e ainda não existe um tratamento aprovado capaz de interrompê-la, qualquer nova linha de pesquisa desperta esperança. Mas também exige cautela. É exatamente esse o cenário em torno do tratamento experimental de Harvard desenvolvido para doenças causadas por príons, grupo que inclui a doença de Creutzfeldt-Jakob.

O projeto ganhou ainda mais atenção no Brasil após o diagnóstico do influenciador Lito Sousa, conhecido pelo canal Aviões e Músicas. Diante da rápida progressão da doença, ele e sua família passaram a buscar possibilidades de participação em estudos clínicos no exterior.

Entre os estudos citados está o PRiSM, iniciativa ligada ao Broad Institute of MIT and Harvard. O ensaio começou em 2026 e representa a primeira vez que essa molécula experimental baseada em RNA interferente é testada em seres humanos. O objetivo principal neste momento não é provar que o medicamento cura a doença, mas avaliar sua segurança, sua tolerabilidade e verificar se ele realmente consegue reduzir a proteína que está no centro do processo patológico.

O tratamento experimental de Harvard parte de uma ideia simples e ambiciosa: se menos proteína príon for produzida pelo cérebro, talvez haja menos matéria-prima disponível para alimentar a doença.

Um resultado promissor em camundongos é motivo para realizar um ensaio clínico, não para concluir que um tratamento funciona em pessoas.

Um resultado promissor em camundongos é motivo para realizar um ensaio clínico, não para concluir que um tratamento funciona em pessoas

Como funciona o tratamento experimental de Harvard?

Para entender a estratégia, primeiro é preciso compreender o que torna as doenças priônicas tão incomuns.

O organismo humano produz naturalmente uma proteína chamada proteína príon, ou PrP. Em determinadas circunstâncias, algumas dessas proteínas assumem uma conformação anormal. O problema é que uma proteína mal dobrada pode induzir outras proteínas normais a também mudarem de forma.

Com o tempo, ocorre uma reação em cadeia. Proteínas anormais se acumulam no cérebro e estão associadas à destruição progressiva de neurônios.

É nesse ponto que entra o tratamento experimental de Harvard.

O candidato terapêutico utiliza uma molécula conhecida como small interfering RNA, ou siRNA. Em português, RNA de interferência pequeno. Ela foi projetada para reconhecer o RNA mensageiro que contém as instruções usadas pelas células para produzir a proteína PrP.

Em vez de atacar diretamente os depósitos de proteínas que já estão no cérebro, a estratégia tenta agir antes, reduzindo a fabricação de novas proteínas príon.

O Broad Institute explica que a molécula se liga ao RNA responsável pela produção da PrP e ajuda a cortá-lo, fazendo com que as células produzam menos dessa proteína. Em experimentos com animais, a redução da proteína príon atrasou a doença e prolongou a sobrevivência, mas resultados em animais não garantem que o mesmo ocorrerá em seres humanos.

O medicamento já funcionou contra Creutzfeldt-Jakob?

Ainda não é possível dizer isso.

Esse é provavelmente o ponto mais importante de toda a história.

O estudo PRiSM é um ensaio de fase 1, justamente uma das primeiras etapas do desenvolvimento clínico de um medicamento. O registro oficial informa que o estudo avalia segurança, tolerabilidade, farmacocinética e efeitos farmacodinâmicos em pacientes adultos com doença priônica sintomática.

Os participantes recebem uma única dose do PrP-siRNA diretamente no líquido cefalorraquidiano por meio de administração intratecal, procedimento realizado através de punção lombar. Depois, passam por acompanhamento durante 24 semanas.

O estudo testa doses progressivamente maiores. O desenho divulgado prevê um grupo que recebe a substância experimental e outro grupo observacional que não recebe o medicamento. O registro atualmente estima até 30 participantes no total.

Isso significa que os pesquisadores ainda estão tentando responder perguntas básicas: o medicamento é tolerável? Qual dose pode ser administrada? Ele chega ao sistema nervoso da maneira esperada? A quantidade de proteína príon realmente diminui?

Só depois dessas respostas será possível avaliar de maneira mais robusta se o tratamento pode alterar a evolução clínica da doença.

Portanto, chamar a estratégia de “cura de Harvard” seria incorreto.

Ela é uma possibilidade terapêutica experimental, ainda em uma fase muito inicial.

Por que essa pesquisa desperta tanta esperança?

A doença de Creutzfeldt-Jakob está entre as condições neurológicas mais desafiadoras conhecidas. Sua evolução pode ser extremamente rápida, e atualmente não existe terapia aprovada capaz de interromper ou reverter o processo neurodegenerativo.

Isso faz com que qualquer abordagem direcionada à origem molecular da doença tenha enorme importância científica.

O tratamento experimental de Harvard é especialmente interessante porque não depende necessariamente de atacar apenas uma mutação específica. O alvo é a produção da própria proteína PrP, comum às diferentes formas de doença priônica.

Em teoria, reduzir essa proteína poderia ser relevante tanto para formas genéticas quanto para formas esporádicas da doença. Mas essa possibilidade precisa ser demonstrada clinicamente.

Os pesquisadores Sonia Vallabh e Eric Minikel têm uma relação muito pessoal com essa busca. Vallabh descobriu que carrega uma mutação no gene PRNP depois que sua mãe morreu de uma doença priônica. Ela e Minikel, que são casados, redirecionaram suas carreiras para estudar essas enfermidades e hoje codirigem o programa de ciência terapêutica de príons do Broad Institute.

Em estudos pré-clínicos, uma versão divalente do siRNA conseguiu reduzir a proteína príon em camundongos em aproximadamente 49% e aumentar em 64% o tempo de sobrevivência dos animais tratados após o início dos sintomas. É justamente esse tipo de resultado que permitiu avançar para a investigação em humanos.

Mas novamente existe uma diferença enorme entre um modelo animal e um paciente.

Um resultado promissor em camundongos é motivo para realizar um ensaio clínico, não para concluir que um tratamento funciona em pessoas.

Entre os estudos citados está o PRiSM, iniciativa ligada ao Broad Institute of MIT and Harvard

Entre os estudos citados está o PRiSM, iniciativa ligada ao Broad Institute of MIT and Harvard

Existe outro tratamento experimental sendo testado?

Sim, e essa distinção é importante porque algumas reportagens acabam misturando os estudos.

Além do PRiSM, existe o ION717, desenvolvido pela Ionis Pharmaceuticals. Ele também tenta reduzir a produção da proteína príon, mas utiliza outra tecnologia de RNA, baseada em um oligonucleotídeo antissenso.

O estudo da Ionis tem o registro NCT06153966 e está em fase 1/2a. Já o estudo PRiSM, ligado ao Broad Institute of MIT and Harvard, possui o registro NCT07444580. São pesquisas diferentes.

O estudo da Ionis começou antes e atualmente testa administração intratecal de ION717 em pacientes com doenças priônicas. O ClinicalTrials.gov indica que diferentes esquemas de tratamento estão sendo avaliados e que alguns centros continuam recrutando participantes elegíveis.

Essa multiplicidade de projetos é relevante porque mostra que a ideia de reduzir PrP está deixando o campo puramente teórico e entrando, finalmente, na etapa clínica.

Ao mesmo tempo, nenhum desses medicamentos possui eficácia comprovada contra Creutzfeldt-Jakob.

A possibilidade de acesso também depende de critérios rígidos de inclusão, estágio da doença, condições clínicas, disponibilidade de vagas e decisões das equipes responsáveis pelos ensaios. Um paciente não pode simplesmente solicitar o medicamento como se ele já fosse um tratamento aprovado.

É justamente aí que aparece o dilema das doenças rapidamente progressivas. Os estudos precisam seguir regras rigorosas porque ainda não se conhece totalmente a segurança das substâncias. Mas os pacientes podem ter pouco tempo para esperar pelos anos normalmente necessários para comprovar eficácia.

O caso de Lito Sousa trouxe essa tensão para o debate público brasileiro.

Existe esperança real na ciência por trás dessas pesquisas. Mas existe também uma distância importante entre uma molécula promissora e um medicamento comprovadamente capaz de salvar pacientes.

A história do tratamento experimental de Harvard está justamente nesse ponto.

Não é uma cura.

Não é ainda um tratamento comprovado.

Mas é uma das tentativas mais avançadas de atacar diretamente o mecanismo molecular das doenças priônicas.

E, para uma enfermidade que durante décadas parecia praticamente intocável pela medicina, chegar ao primeiro teste dessa estratégia em seres humanos já representa um passo científico importante.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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