Imagine segurar um fragmento de rocha menor que um grão de areia e descobrir, ali dentro, o rastro do sangue de dinossauro que circulou há 115 milhões de anos. Foi mais ou menos isso que aconteceu com um fóssil encontrado no interior do Ceará e analisado por uma equipe internacional de cientistas. O material pertence ao Aratasaurus museunacionali, um carnívoro de porte médio que andava sobre duas patas onde hoje fica a Chapada do Araripe, e acaba de ganhar espaço em uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo.
O estudo foi publicado nesta segunda-feira (2) na Proceedings of the National Academy of Sciences, a PNAS, e é apontado pelos autores como a evidência mais sólida já reunida de células sanguíneas preservadas em um dinossauro. A pesquisa foi liderada pela geoquímica australiana Kliti Grice, da Universidade Curtin, em Perth, e contou com quatro brasileiros: Renan Bantim e Antônio Saraiva, da Universidade Regional do Cariri, e Juliana Sayão e Alexander Kellner, do Museu Nacional, ligado à UFRJ. Cientistas da Alemanha, do Japão e dos Estados Unidos também participaram.
Como o sangue de dinossauro resistiu a 115 milhões de anos?
Nos canais vasculares do osso da perna direita do animal, os pesquisadores identificaram numerosas estruturas microscópicas com aparência de glóbulos vermelhos fossilizados. Também encontraram sinais químicos da heme B, a molécula com ferro que faz parte da hemoglobina e permite o transporte de oxigênio pelo corpo, além de produtos da degradação dessa molécula e de aminoácidos ligados ao colágeno. Segundo Kellner, o detalhe mais revelador é a localização: as células não estavam espalhadas ao acaso, e sim dentro dos vasos, exatamente onde deveriam estar.
A raridade do achado explica o entusiasmo. Ossos e dentes resistem bem ao tempo, mas tecidos moles, como músculos e penas, quase nunca chegam até nós. Células de fluidos corporais são ainda mais difíceis de encontrar, porque a decomposição e a contaminação costumam apagar esses vestígios rapidamente. Trabalhos anteriores já tinham sugerido estruturas parecidas com hemácias em fósseis, mas esta é a primeira vez que a presença de moléculas derivadas da hemoglobina dentro das células é comprovada por análise química. Por isso, o sangue de dinossauro do Ceará já entrou para a história da paleontologia.
Para chegar a essa conclusão, a equipe extraiu a matéria orgânica de pequenas amostras do fóssil e comparou as moléculas com padrões modernos, observando o tempo de retenção, a absorção de luz ultravioleta e visível e o espectro de massa de cada uma. Depois, lâminas finíssimas do osso foram examinadas com técnicas não destrutivas em escala micrométrica, a microanatomia foi mapeada e, por fim, houve uma checagem rigorosa de contaminação. O objetivo era garantir que as biomoléculas fossem do próprio animal, e não resíduos recentes ou simples formações minerais.
Curiosamente, tudo isso foi feito com quase nada. Como a análise exige moer o material, sacrificar o fóssil estava fora de questão. A saída veio das sobras da preparação da peça, fragmentos milimétricos que estavam guardados no Museu Nacional quando Grice visitou a instituição. Para os espectrômetros de altíssima precisão do laboratório australiano, esse pó de fóssil foi suficiente.
Algumas migalhas de rocha, menores que grãos de areia, bastaram para revelar vestígios de sangue de dinossauro guardados por 115 milhões de anos.
Como o sangue de dinossauro sobreviveu 115 milhões de anos
Quem era o Aratasaurus, o lagarto nascido do fogo?
O fóssil foi encontrado em 2008 em uma mina de gesso na região de Santana do Cariri, na Formação Romualdo, camada geológica da Chapada do Araripe próxima à divisa entre Ceará, Pernambuco e Piauí. Primeiro, ficou no Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, na própria cidade. Em 2016, seguiu para o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e ainda estava em preparação quando o prédio foi consumido pelas chamas em 2018. Por sorte, a área onde ele estava não foi atingida.

Esse episódio inspirou o nome da espécie, descrita em 2020 pela equipe de Juliana Sayão. O Aratasaurus museunacionali combina as palavras tupis ara (nascido) e atá (fogo) com o grego saurus (lagarto), algo como lagarto nascido do fogo, além de homenagear o museu. Ele pertencia aos terópodes, grupo de dinossauros bípedes com ossos ocos e cheios de cavidades de ar. Media cerca de 3,1 metros de comprimento e 1,6 metro de altura, e pesava uns 35 quilos. As análises indicam que morreu jovem, com aproximadamente quatro anos, e que seu corpo acabou no fundo de um lago.
Do esqueleto restou pouco: partes do fêmur direito, da tíbia e do pé. Não é uma peça de encher os olhos numa vitrine, e o próprio Kellner admite isso. Mas foi justamente essa perna discreta que abriu uma nova frente de pesquisa sobre o passado profundo do planeta.
O que o sangue de dinossauro revela sobre esses animais?
Ao comparar o material com o de aves atuais, descendentes diretas dos dinossauros, os cientistas notaram diferenças marcantes. As hemácias das aves modernas são alongadas, enquanto as do Aratasaurus são quase esféricas. Também são bem maiores: em média, 22,97 micrômetros de comprimento por 19,54 micrômetros de largura, contra cerca de 7,5 a 13 micrômetros de largura nas aves de hoje.
A explicação provável está na história de cada linhagem. As aves vêm de ancestrais que passaram por um longo processo de redução do tamanho do corpo e de adaptação ao voo, o que favoreceu glóbulos vermelhos menores e mais eficientes no transporte de oxigênio. O Aratasaurus não descendia de animais voadores, o que permitia células maiores. É o tipo de pista que ajuda a reconstruir a trajetória dos terópodes, um grupo cheio de mistérios evolutivos, como o famoso segredo dos braços curtos do T. rex.
A descoberta também alimenta uma das grandes discussões da paleontologia: se os dinossauros tinham sangue quente, ou seja, se mantinham a temperatura do corpo constante. Na prática, essa capacidade separa um animal que corre, caça e migra em qualquer clima de outro que depende do calor do sol para se movimentar. Para os pesquisadores, estudar o sangue de dinossauro em nível molecular pode esclarecer como funcionavam o metabolismo e até os níveis de atividade desses animais, algo que o formato dos ossos sozinho não consegue mostrar.
Se moléculas do sangue sobreviveram a 115 milhões de anos, quantas outras pistas sobre a vida antiga ainda estão escondidas dentro das rochas?
Dá para recriar um dinossauro a partir desse achado?
A resposta curta é não. Kliti Grice faz questão de esclarecer que ninguém encontrou um tubo cheio de sangue de dinossauro, e sim um vestígio químico e mineral da biologia de um animal extinto. O estudo não identificou DNA, e os aminoácidos de colágeno não equivalem a uma proteína intacta nem a informação genética. Moléculas grandes e ricas em informação, como o DNA, se degradam de forma muito diferente das moléculas pequenas e quimicamente transformadas que foram detectadas. Para comparar, o DNA mais antigo já descrito tem cerca de 2 milhões de anos e veio de sedimentos da Groenlândia.
Mesmo assim, o impacto é enorme. Para a pesquisadora, o resultado derruba a velha suposição de que biomoléculas como a hemoglobina não resistiriam a intervalos geológicos tão longos e incentiva a ciência a testar os limites da preservação, em vez de considerar perdida toda informação biológica depois de certo tempo. Martin Van Kranendonk, diretor da Escola de Ciências da Terra e Planetárias da Curtin, vai além: entender como estruturas moleculares sobrevivem por tanto tempo, ou em ambientes hostis, pode ajudar até na busca por vida fora da Terra.
No fim das contas, o sangue de dinossauro preservado nesse fóssil cearense mostra que o Brasil guarda tesouros capazes de mudar o que sabemos sobre a vida antiga. Um animal que escapou do incêndio do Museu Nacional, e cuja perna passaria despercebida numa exposição, agora oferece uma janela direta para a fisiologia de criaturas desaparecidas há milhões de anos. E tudo indica que essa janela está apenas começando a se abrir.
