Carne de laboratório pode ser considerada vegana? O que diz a ciência?

Carne de laboratório pode ser considerada vegana? O que diz a ciência?

Se nenhum animal precisar morrer para produzir um hambúrguer, o que realmente determina se aquele alimento é vegano?


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine entrar em um restaurante daqui a alguns anos e pedir um hambúrguer. Ele tem aparência de carne, cheiro de carne, sabor de carne e, quando analisado biologicamente, também é carne. Há músculos, gordura e proteínas de origem animal. A diferença é que nenhum boi precisou ser criado durante anos e depois enviado para um frigorífico para que aquele hambúrguer chegasse ao prato.

Ele nasceu dentro de um recipiente industrial, a partir da multiplicação de células.

É justamente aí que começa uma das discussões mais interessantes trazidas pela chamada carne de laboratório: se nenhum animal precisou morrer, esse alimento poderia ser considerado vegano?

A resposta mais direta, pelo menos segundo a definição tradicional do veganismo, é não. Mas basta avançar um pouco na discussão para perceber que a questão é muito mais complicada do que parece.

A carne de laboratório, também chamada de carne cultivada ou carne celular, não é um hambúrguer vegetal tentando imitar carne. Ela é produzida a partir de células animais reais, multiplicadas em ambientes controlados até formar tecidos que podem ser utilizados como alimento.

Ou seja, estamos diante de algo que parece quase contraditório: carne animal sem necessariamente criar e abater animais em escala industrial.

E isso pode obrigar a sociedade a discutir não apenas o futuro da alimentação, mas também o próprio significado de palavras como “carne”, “cruelty-free” e “vegano”.

A Vegan Society já se posicionou sobre esse tema e considera que carne cultivada não é vegana porque sua produção parte de células animais

A Vegan Society já se posicionou sobre esse tema e considera que carne cultivada não é vegana porque sua produção parte de células animais

Como funciona a carne de laboratório?

Tudo começa com uma quantidade muito pequena de células retiradas de um animal.

Essas células podem ser selecionadas e armazenadas em bancos celulares. Em seguida, são colocadas em ambientes controlados, onde recebem nutrientes e condições apropriadas para se multiplicar. Com o tempo, podem se diferenciar e formar estruturas como músculo, gordura e tecido conjuntivo.

Em outras palavras, a carne de laboratório não tenta reproduzir a carne utilizando soja, ervilha, trigo ou outras fontes vegetais. Ela cultiva o próprio tecido animal.

Esse detalhe muda completamente a discussão.

Uma amostra celular pode, em determinados processos, ser obtida sem provocar a morte do animal. Depois disso, células capazes de continuar se multiplicando podem ser conservadas durante longos períodos e utilizadas como uma espécie de “semente biológica” para produzir grandes quantidades de tecido.

Imagine, por exemplo, que algumas células sejam retiradas de uma vaca. O animal continua vivo. A partir delas é criado um banco celular. Essas células são multiplicadas milhões, bilhões ou trilhões de vezes.

Em tese, uma quantidade relativamente pequena de material biológico poderia dar origem a uma enorme produção de carne sem que fosse necessário criar um novo animal para cada conjunto de bifes ou hambúrgueres.

Se nenhum animal precisou morrer para produzir um bife, o que realmente faz aquele alimento deixar de ser vegano: sua origem ou o sofrimento necessário para produzi-lo?

Carne de laboratório pode ser produzida sem abate?

Em princípio, sim.

Esse é justamente um dos maiores argumentos a favor da tecnologia. O cultivo celular pode permitir que carne seja produzida sem reproduzir o modelo tradicional de criação, transporte e abate de animais.

Mas existe um detalhe importante.

Durante muito tempo, culturas de células utilizaram substâncias de origem animal para permitir o crescimento celular. Um dos exemplos mais conhecidos é o soro fetal bovino, utilizado em diferentes tipos de cultivo celular.

Para uma tecnologia que pretende reduzir a utilização de animais, isso representa uma evidente contradição.

Porém, pesquisas vêm desenvolvendo alternativas. Meios de cultivo sem soro, compostos sintéticos e substâncias produzidas por diferentes processos biotecnológicos podem diminuir ou eliminar a necessidade desses ingredientes animais.

É aqui que o cenário se torna especialmente curioso.

Pense em uma carne produzida a partir de uma linhagem celular antiga, mantida durante décadas. O animal que forneceu as células não morreu. Nenhum novo animal foi utilizado. O meio que alimenta essas células não possui componentes animais. Ainda assim, aquilo continua sendo tecido bovino.

Seria vegano?

Carne de laboratório é vegana ou apenas livre de abate?

Pela interpretação mais tradicional, a resposta continua sendo não.

O veganismo não se limita à ideia de impedir que animais sejam mortos. Sua definição também envolve evitar, dentro do possível e praticável, a exploração de animais e o consumo de produtos derivados deles.

Esse é exatamente o ponto em que a carne de laboratório encontra uma barreira conceitual.

Por mais que aquela célula tenha sido retirada de um animal décadas atrás, ela continua sendo uma célula de origem animal. Um pedaço de frango cultivado em laboratório continua sendo formado a partir de células originalmente provenientes de uma galinha. Um bife celular continua biologicamente ligado a uma linhagem bovina.

A Vegan Society já se posicionou sobre esse tema e considera que carne cultivada não é vegana porque sua produção parte de células animais, embora reconheça o potencial da tecnologia para reduzir sofrimento e mortes.

Portanto, uma embalagem do futuro poderá carregar expressões como “sem abate” ou eventualmente “produzido sem componentes animais no meio de cultivo”, mas isso não significa automaticamente que o produto possa ser chamado de vegano.

Essa diferença parece pequena, mas pode se tornar essencial no futuro.

E isso pode obrigar a sociedade a discutir não apenas o futuro da alimentação, mas também o próprio significado de palavras como "carne", "cruelty-free" e "vegano".

E isso pode obrigar a sociedade a discutir não apenas o futuro da alimentação, mas também o próprio significado de palavras como “carne”, “cruelty-free” e “vegano”

E se o mais importante for evitar sofrimento animal?

Aqui saímos da biologia e entramos definitivamente na filosofia.

Imagine dois hambúrgueres.

Para produzir o primeiro, um boi foi criado, alimentado, transportado e abatido. Todo esse processo foi realizado especificamente para produzir carne destinada ao consumo humano.

O segundo hambúrguer foi produzido em 2050 utilizando células retiradas de uma vaca em 2030. O animal que forneceu aquelas células continuou vivo, e nenhuma outra vaca precisou participar do processo nos vinte anos seguintes.

Qual dos dois estaria mais próximo daquilo que o veganismo tenta alcançar?

É aí que as respostas começam a divergir.

Uma visão baseada na origem afirma que o segundo hambúrguer continua não sendo vegano. Afinal, existe uma célula animal no início de todo o processo. Transformar aquela célula em alimento ainda significaria utilizar um animal como recurso.

Outra visão poderia olhar principalmente para as consequências. Se uma única coleta celular permitisse evitar a criação e o abate de milhões ou bilhões de animais, talvez essa tecnologia estivesse muito próxima de alcançar alguns dos principais objetivos éticos associados ao veganismo.

A carne cultivada pode criar um paradoxo: não ser tecnicamente vegana e, ao mesmo tempo, reduzir de forma enorme aquilo que muitos veganos mais querem combater, o sofrimento e o abate de animais.

Esse conflito fica ainda mais interessante quando imaginamos o longo prazo.

Suponha que, em 2030, algumas células sejam retiradas de uma vaca sem que ela seja morta. Essa linhagem celular continua existindo em laboratórios.

Chegamos ao ano de 2130.

A vaca original obviamente já morreu há muitas décadas, por causas naturais ou não relacionadas à produção daquele alimento. Nenhuma outra vaca foi utilizada desde então. Ao longo de cem anos, centenas de bilhões de hambúrgueres foram produzidos a partir daquela linhagem celular.

Ainda faria sentido dizer que cada um deles envolve exploração animal?

Algumas pessoas certamente diriam que sim. A origem continua animal, e isso bastaria para impedir sua classificação como vegana.

Outras poderiam responder que insistir nessa interpretação ignoraria o enorme impacto que a tecnologia teria na redução do confinamento, da criação industrial e do abate.

Essa é uma discussão que nenhuma análise laboratorial consegue resolver.

Um microscópio pode dizer que aquelas células são bovinas. Um exame químico pode revelar as proteínas presentes no alimento. Uma análise genética pode identificar sua origem.

Mas nenhuma máquina consegue definir sozinha o que deve ser considerado moralmente aceitável.

A tecnologia da carne de laboratório também poderá exigir novas palavras. “Vegano”, “vegetal”, “sem abate”, “cultivado”, “livre de crueldade” e “sem ingredientes de origem animal” podem representar conceitos diferentes, mesmo quando parecem semelhantes.

Há ainda uma possibilidade mais distante: produzir estruturas com características semelhantes às da carne sem utilizar sequer uma célula animal como origem. Técnicas de fermentação, engenharia biológica e produção de proteínas por microrganismos já abrem caminhos diferentes. Nesse caso, talvez nem estivéssemos mais falando propriamente de carne cultivada, cuja definição atual está associada ao cultivo de células animais.

Hoje, portanto, a resposta mais segura é que carne de laboratório não é considerada vegana pela definição tradicional, pois continua sendo originada de células animais.

Mas talvez essa resposta diga mais sobre as categorias que criamos até agora do que sobre os alimentos que existirão no futuro.

Durante milhares de anos, carne significou algo bastante simples: tecido retirado do corpo de um animal.

Agora podemos estar entrando em uma época em que será possível produzir esse mesmo tecido sem que o animal correspondente precise ser abatido.

E isso cria uma pergunta muito maior do que simplesmente “vegano ou não vegano?”.

Talvez, daqui a algumas décadas, a sociedade precise decidir se aquilo que define eticamente um alimento é sua composição biológica ou toda a história necessária para que ele chegasse ao prato.

A ciência provavelmente conseguirá produzir o hambúrguer.

Decidir o que ele significa será uma tarefa bem mais complicada.

Já imaginou isso?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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