Imagine atravessar um mercado na Amazônia e encontrar o tambaqui, um dos peixes mais conhecidos e consumidos da região, exposto nas bancas como sempre. A cena parece absolutamente normal. Mas, por trás dessa presença tão comum, existe um alerta que pode mudar a maneira como enxergamos esse peixe.
O tambaqui está ameaçado de extinção? Sim, a espécie passou a ser classificada como Vulnerável, uma categoria que indica risco alto de extinção na natureza.
O alerta aparece na avaliação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, que analisa o risco de desaparecimento de espécies brasileiras. O tambaqui, cujo nome científico é Colossoma macropomum, está classificado como Vulnerável desde 4 de setembro de 2023.
Em 2026, a espécie também passou a integrar oficialmente a Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, reconhecida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
A informação chama atenção porque o tambaqui está longe de ser um peixe desconhecido. Pelo contrário. Ele possui enorme importância econômica, cultural e alimentar para a Amazônia, além de ser criado em larga escala pela piscicultura.
A questão, portanto, não é simplesmente imaginar que o tambaqui esteja desaparecendo das feiras e mercados. O problema apontado pelos estudos está relacionado principalmente às populações que vivem na natureza.

O tambaqui ainda está presente, mas a pergunta agora é se estamos fazendo o suficiente para garantir que continue presente nos rios amazônicos no futuro
Por que o tambaqui foi classificado como vulnerável?
A classificação do ICMBio não significa que o tambaqui esteja prestes a desaparecer completamente. A categoria Vulnerável indica que existe risco alto de extinção na natureza, e funciona justamente como um alerta para que medidas de conservação sejam adotadas antes que a situação se torne ainda mais grave.
O tambaqui ocorre naturalmente nas bacias dos rios Amazonas e Orinoco, passando por países como Brasil, Bolívia, Colômbia, Peru e Venezuela. No território brasileiro, a espécie é encontrada principalmente em ambientes associados à bacia amazônica, incluindo áreas de várzea.
Segundo a avaliação citada na ficha da espécie, existe uma tendência de declínio populacional. Uma das análises utilizadas pelo ICMBio projeta uma redução global de 43,4% da população em três tempos geracionais. Para o tambaqui, o tempo geracional estimado é de 22 anos.
Isso significa que a projeção considera um período bastante longo. Não se trata, portanto, de uma previsão de que quase metade dos tambaquis desaparecerá nos próximos anos, mas de uma estimativa utilizada para avaliar o risco da espécie ao longo de gerações.
A pesca aparece entre os principais fatores relacionados à pressão sobre o tambaqui. O peixe é utilizado tanto na pesca comercial quanto na pesca de subsistência e também possui grande importância na piscicultura.
O tambaqui já esteve em uma categoria menos preocupante
Essa não é a primeira vez que o tambaqui recebe uma classificação de risco. Na avaliação nacional realizada em 2014, a espécie era considerada Quase Ameaçada.
Naquele momento, fatores como a presença do peixe em áreas protegidas e a grande oferta de exemplares provenientes da piscicultura foram considerados capazes de reduzir o risco de extinção no curto prazo.
A avaliação mais recente chegou a uma conclusão diferente. Embora esses fatores continuem sendo considerados, eles não foram suficientes para afastar a classificação de Vulnerável.
Existe uma diferença importante entre a criação de tambaqui e a conservação das populações selvagens. Um peixe produzido em viveiro pode chegar normalmente aos mercados, enquanto as populações naturais continuam submetidas às pressões existentes nos rios e ambientes amazônicos.
É justamente essa distinção que ajuda a explicar por que ainda podemos encontrar tambaqui com facilidade e, ao mesmo tempo, falar em risco de extinção da espécie na natureza.
Ter tambaqui disponível no mercado não significa necessariamente que as populações selvagens estejam seguras.
Outro dado ajuda a dimensionar essa realidade. De acordo com a ficha do ICMBio citada na reportagem, quase todo o abastecimento de tambaquis comercializados em feiras, mercados e frigoríficos de Manaus é formado por exemplares provenientes da piscicultura.
Isso mostra como a criação em cativeiro ganhou importância para atender à demanda pelo peixe.

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O que ameaça o tambaqui na Amazônia?
A pressão sobre os recursos naturais é um dos pontos centrais da avaliação. O tambaqui é uma espécie amplamente explorada e já esteve entre os dez peixes mais capturados na região amazônica.
Mas a situação não pode ser resumida apenas à pesca.
O ambiente em que o tambaqui vive também passa por transformações. Alterações nos rios, períodos de seca mais severos e mudanças nas condições ambientais podem afetar os ecossistemas dos quais a espécie depende.
Para o professor e biólogo Edinbergh Caldas de Oliveira, ainda existem lacunas importantes de informação. Segundo ele, não há dados estatísticos suficientes capazes de mostrar com precisão como está a população de tambaqui em toda a bacia ou qual é o volume real de desembarque de exemplares provenientes dos rios.
Essa falta de dados também exige cautela na interpretação da classificação.
O alerta significa que existe um risco identificado e que medidas de conservação são necessárias. Não significa, por si só, que toda pesca do tambaqui esteja automaticamente proibida.
O que pode acontecer com a pesca do tambaqui?
Uma das recomendações registradas na avaliação do ICMBio é a suspensão temporária da pesca comercial do tambaqui por cinco anos na Amazônia brasileira, acompanhada de medidas complementares de manejo.
O documento também menciona a manutenção de regras relacionadas ao tamanho mínimo de captura e aos períodos de defeso.
A situação, porém, ainda envolve ajustes e planejamento. Existe um prazo de 180 dias para adequação dos planos de manejo relacionados à exploração da pesca nas áreas mencionadas.
O próprio especialista ouvido na reportagem destaca que ainda não existem informações suficientes para defender simplesmente uma proibição total ou, no extremo oposto, uma liberação irrestrita da pesca.
A questão é mais complexa porque a Amazônia é enorme e apresenta realidades diferentes entre seus rios, comunidades e áreas de pesca. Uma medida eficiente precisa considerar essas diferenças e ser acompanhada por pesquisas que permitam entender melhor a situação das populações naturais.
Além disso, a conservação do tambaqui não depende apenas de uma única regra. Fiscalização, manejo pesqueiro, proteção de habitats, monitoramento populacional e fortalecimento de alternativas como a piscicultura podem fazer parte desse processo.
O objetivo é evitar que uma espécie tão importante para a região precise chegar a categorias de risco ainda mais graves para que medidas sejam tomadas.
A classificação como Vulnerável pode ser entendida justamente como um sinal de alerta.
O tambaqui ainda está presente, mas a pergunta agora é se estamos fazendo o suficiente para garantir que continue presente nos rios amazônicos no futuro.
Por enquanto, portanto, não é correto dizer que o tambaqui está à beira da extinção. A classificação indica um risco alto de extinção na natureza, e os dados apontam para uma tendência de declínio populacional que merece atenção.
O peixe que há décadas ocupa espaço nas mesas, mercados e tradições da Amazônia agora também ocupa uma lista que ninguém gostaria de vê-lo integrar.
E talvez essa seja a parte mais curiosa dessa história: o fato de ainda ser fácil encontrar tambaqui não significa que o problema não exista. Em conservação, muitas vezes o alerta precisa chegar justamente enquanto uma espécie ainda pode ser protegida.