Imagine poder guardar uma pequena parte do presente para tentar utilizá-la muitos anos depois. Não se trata de congelar o tempo por completo, mas de preservar células reprodutivas com as características biológicas que possuíam no momento da coleta. Essa é a proposta do congelamento de óvulos, procedimento que vem crescendo rapidamente no Brasil.
Dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões, o SisEmbrio, mantido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, indicam que foram realizados 18.631 ciclos de coleta destinados ao congelamento de óvulos em 2025. Em 2020, haviam sido registrados 7.872 ciclos. A diferença representa um crescimento aproximado de 136,7% em cinco anos.
É importante falar em ciclos, e não necessariamente em número de mulheres. Uma mesma paciente pode passar por mais de uma estimulação e coleta para conseguir a quantidade de óvulos considerada adequada ao seu caso. Ainda assim, os números mostram que a preservação da fertilidade deixou de ser um assunto restrito a poucas clínicas e passou a fazer parte do planejamento reprodutivo de milhares de brasileiras.
A procura pode acontecer por razões médicas. Mulheres que receberão quimioterapia, radioterapia ou outros tratamentos capazes de prejudicar os ovários podem congelar seus óvulos antes do início da terapia. O procedimento também pode ser considerado diante de algumas doenças, cirurgias ou condições associadas à redução da fertilidade.
Há ainda o congelamento eletivo, procurado por mulheres que desejam adiar a maternidade por motivos pessoais, profissionais, financeiros ou afetivos. Algumas ainda não encontraram um parceiro com quem desejam ter filhos. Outras querem concluir estudos, consolidar a carreira ou alcançar maior estabilidade antes de engravidar.
A técnica oferece novas possibilidades de escolha, mas também exige uma informação fundamental: congelar óvulos não é o mesmo que garantir um bebê no futuro.
O congelamento de óvulos preserva uma possibilidade reprodutiva, não uma promessa de gravidez.

Congelar mais cedo tende a preservar óvulos de melhor qualidade, mas a decisão precisa considerar saúde, planos pessoais, custos e probabilidade de utilização
Como funciona o congelamento de óvulos?
O processo começa com uma consulta especializada e uma avaliação da saúde reprodutiva. O médico analisa o histórico clínico, a idade, o ciclo menstrual, o uso de medicamentos e possíveis doenças. Exames de sangue e ultrassom ajudam a estimar a reserva ovariana, ou seja, o conjunto de folículos ainda disponível nos ovários.
Um dos exames mais conhecidos mede o hormônio anti-mülleriano, chamado de AMH. Ele pode ajudar a prever como os ovários responderão à estimulação, mas não funciona como um teste capaz de dizer com certeza se uma mulher conseguirá engravidar naturalmente. Quantidade e qualidade dos óvulos são aspectos diferentes, e a idade continua sendo um dos fatores mais importantes.
Normalmente, o corpo amadurece um folículo dominante a cada ciclo menstrual. Para o congelamento, a paciente utiliza medicamentos hormonais durante cerca de 10 a 15 dias. O objetivo é estimular vários folículos a crescerem ao mesmo tempo, aumentando o número de óvulos que poderão ser coletados.
Durante esse período, são realizados ultrassons e, em alguns casos, exames de sangue. O acompanhamento permite observar o crescimento dos folículos e ajustar as doses dos medicamentos. Quando eles atingem o estágio esperado, é aplicada uma medicação para completar a maturação dos óvulos.
A coleta acontece geralmente entre 34 e 36 horas depois. Com a paciente sedada, o médico introduz uma agulha guiada por ultrassom através da parede vaginal e aspira o líquido dos folículos. O material segue imediatamente para o laboratório, onde os embriologistas identificam quais óvulos estão maduros e podem ser preservados.
Embora seja chamada popularmente de cirurgia, a coleta costuma ser um procedimento breve e não exige cortes no abdômen. Muitas pacientes recebem alta no mesmo dia, mas precisam seguir as orientações médicas e contar com um acompanhante por causa da sedação.
O que acontece com os óvulos depois da coleta?
Os óvulos maduros passam por um processo chamado vitrificação. Diferentemente do congelamento lento usado no passado, a vitrificação reduz a temperatura com enorme velocidade e utiliza substâncias crioprotetoras para evitar a formação de cristais de gelo.
Esses cristais poderiam danificar a estrutura delicada do óvulo. Com a vitrificação, a célula entra em um estado semelhante ao de um vidro, sendo armazenada em nitrogênio líquido a temperaturas extremamente baixas.
Quando a paciente decide tentar uma gravidez, os óvulos são aquecidos e avaliados. Aqueles que sobrevivem precisam ser fertilizados em laboratório. Geralmente, utiliza-se a injeção intracitoplasmática de espermatozoide, técnica conhecida pela sigla ICSI, na qual um único espermatozoide é inserido diretamente no óvulo.
Os óvulos fertilizados podem se desenvolver em embriões. Depois de alguns dias de acompanhamento no laboratório, um embrião poderá ser transferido para o útero. Cada etapa funciona como um filtro, pois nem todos os óvulos sobrevivem ao aquecimento, nem todos são fertilizados e nem todos chegam ao estágio adequado para transferência.
É justamente por isso que o número de óvulos congelados importa. Dependendo da idade e da resposta ovariana, um único ciclo pode não produzir uma quantidade considerada suficiente. Algumas mulheres precisam repetir a estimulação, o que aumenta o custo, o tempo e o desgaste físico e emocional.
Qual é a melhor idade para o congelamento de óvulos?
Não existe uma idade perfeita que sirva para todas as mulheres, mas existe uma relação clara entre idade e qualidade dos óvulos. A fertilidade feminina diminui progressivamente ao longo do tempo, com uma queda mais perceptível depois dos 35 anos e mais acentuada a partir dos 38.
Isso acontece porque a mulher nasce com a reserva de óvulos que terá durante a vida. Com o passar dos anos, o número de células diminui e aumenta a proporção de óvulos com alterações cromossômicas. Essas alterações podem dificultar a fecundação, impedir o desenvolvimento do embrião ou elevar o risco de aborto espontâneo.
Ao realizar o congelamento de óvulos aos 30 anos, por exemplo, a mulher preserva células com as características biológicas daquela idade. Se decidir utilizá-las aos 40, os óvulos continuarão tendo a idade biológica aproximada do momento em que foram vitrificados.
O corpo da paciente, contudo, não fica congelado no tempo. A idade na qual a gravidez acontece continua influenciando riscos como hipertensão, diabetes gestacional, parto prematuro e outras complicações. Antes da transferência de um embrião, o médico precisa avaliar a saúde geral e as condições para a gestação.
Por isso, especialistas costumam explicar que realizar o procedimento mais cedo oferece melhores perspectivas, mas pode trazer outro dilema. Uma mulher jovem talvez nunca precise usar os óvulos armazenados, seja porque engravidou naturalmente, seja porque mudou seus planos sobre a maternidade.
Já quem procura a técnica em idade mais avançada pode ter uma resposta ovariana menor e precisar de vários ciclos. A Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia alerta que mulheres que congelam depois dos 35 anos não devem criar expectativas irreais, pois a qualidade dos óvulos diminui com o avanço da idade.
Congelar mais cedo tende a preservar óvulos de melhor qualidade, mas a decisão precisa considerar saúde, planos pessoais, custos e probabilidade de utilização.

O congelamento de óvulos preserva uma possibilidade reprodutiva, não uma promessa de gravidez
Quais são os riscos e as limitações?
A estimulação hormonal pode causar inchaço, desconforto abdominal, alterações de humor, dor de cabeça e sensibilidade nos seios. Em situações menos comuns, pode ocorrer a síndrome de hiperestimulação ovariana, na qual os ovários respondem de maneira exagerada aos medicamentos.
A coleta também envolve riscos relacionados à sedação, sangramento, infecção ou lesão de estruturas próximas, embora complicações graves sejam consideradas incomuns quando o procedimento é realizado por uma equipe especializada. Cada paciente deve receber explicações individualizadas antes de decidir.
Outro aspecto importante é o custo. Além dos exames, medicamentos, consultas e coleta, existe uma taxa periódica para manter os óvulos armazenados. Se eles forem utilizados, haverá ainda as despesas relacionadas à fertilização in vitro, ao desenvolvimento embrionário e à transferência para o útero.
A preservação também pode criar uma falsa sensação de segurança. Algumas mulheres acreditam que, depois de congelar óvulos, podem adiar indefinidamente a decisão sobre a maternidade. Na realidade, as chances futuras dependem da idade no momento da coleta, da quantidade de óvulos maduros, da qualidade do laboratório, do esperma utilizado e das condições do útero.
O Hospital Israelita Albert Einstein resume essa diferença ao explicar que o procedimento não funciona como um “seguro” de gravidez, mas como uma forma de ampliar possibilidades. Essa distinção é essencial para que a decisão seja tomada com expectativas realistas.
No Brasil, as clínicas e bancos de células reprodutivas são acompanhados pelo SisEmbrio da Anvisa. O sistema reúne informações sobre procedimentos de reprodução assistida e ajuda a monitorar a atividade dos centros especializados.
As normas éticas brasileiras também estabelecem critérios para a reprodução assistida. O Conselho Federal de Medicina mantém como referência a idade máxima de 50 anos para candidatas à gestação por essas técnicas, admitindo exceções fundamentadas pelo médico responsável após avaliação dos riscos.
O crescimento do congelamento de óvulos reflete avanços da medicina, mas também transformações sociais. A maternidade acontece mais tarde, os relacionamentos assumem novas formas e muitas mulheres buscam maior autonomia para decidir quando, como e se desejam ter filhos.
A tecnologia não elimina completamente o relógio biológico. Ela permite, porém, guardar óvulos de uma fase anterior da vida e ampliar os caminhos disponíveis no futuro. Entre a promessa exagerada e o medo de nunca engravidar, existe uma realidade mais equilibrada: o congelamento de óvulos pode ser uma ferramenta valiosa, desde que venha acompanhado de avaliação médica, informação transparente e expectativas possíveis.