Brasil é 87% cristão mas número de ateus triplica, revelam dados do IBGE

Brasil é 87% cristão mas número de ateus triplica, revelam dados do IBGE

Cristianismo reúne cerca de 87% dos brasileiros com 10 anos ou mais. Novos recortes revelam a pluralidade escondida nas estatísticas.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine caminhar por uma cidade brasileira em uma manhã de domingo. De uma esquina vem o som dos sinos de uma igreja católica. Poucos metros adiante, músicas evangélicas atravessam as paredes de um templo. Em outro bairro, um terreiro prepara suas atividades, enquanto milhões de pessoas simplesmente seguem o dia sem participar de nenhuma instituição religiosa.

Essas cenas diferentes ajudam a representar um país que continua profundamente ligado ao cristianismo, mas cuja relação com a fé está se tornando mais diversificada. Os novos dados do IBGE baseados no Censo 2022 revelam justamente esse contraste: aproximadamente 87% da população brasileira com 10 anos ou mais se identifica com alguma vertente cristã, enquanto cresce o número de pessoas que se declaram ateias, agnósticas ou sem religião.

O percentual mais preciso é de 86,9%, arredondado nas manchetes para 87%. O recorte considera 176,6 milhões de brasileiros que tinham pelo menos 10 anos na data de referência do levantamento. Embora os microdados tenham sido disponibilizados posteriormente, as respostas retratam a população em 2022. O questionário sobre religião foi aplicado à amostra do Censo, conforme explica a documentação metodológica do IBGE.

O Brasil permanece majoritariamente cristão, mas as formas de acreditar, participar de uma igreja e definir a própria identidade religiosa estão mudando.

Os ateus representam 1% da população pesquisada, aproximadamente 1,7 milhão de brasileiros. Os agnósticos correspondem a 0,5%, o equivalente a cerca de 881 mil pessoas

Os ateus representam 1% da população pesquisada, aproximadamente 1,7 milhão de brasileiros. Os agnósticos correspondem a 0,5%, o equivalente a cerca de 881 mil pessoas

O que os dados do IBGE revelam sobre os cristãos?

Os católicos ainda formam o maior grupo religioso do Brasil. Eles representam cerca de 57% da população com 10 anos ou mais, o equivalente a aproximadamente 100,6 milhões de pessoas. Quase todos se identificam como católicos apostólicos romanos, mas a classificação também inclui comunidades ortodoxas e denominações católicas independentes.

A presença católica continua expressiva, apesar da redução observada ao longo das últimas décadas. Em 2000, aproximadamente 74,4% dos brasileiros se declaravam católicos. O resultado de 2022 mostra que a religião permanece majoritária, porém divide um espaço cada vez maior com igrejas evangélicas, outras tradições cristãs e pessoas sem vínculo religioso.

Os evangélicos representam 26,9% da população pesquisada. Isso significa que mais de um em cada quatro brasileiros com 10 anos ou mais se identifica com alguma expressão evangélica. O número, no entanto, reúne igrejas, movimentos e formas de pertencimento muito diferentes.

O bloco das chamadas outras religiosidades cristãs corresponde a 2,2%, somando cerca de 3,9 milhões de pessoas. O cálculo geral também considera grupos como Testemunhas de Jeová, que representam 0,7%, e membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, conhecidos popularmente como mórmons, com participação inferior a 0,1%.

Somados esses segmentos e outras denominações menores, chega-se aos 86,9% de cristãos. Portanto, a expressão “Brasil 87% cristão” é uma forma arredondada de apresentar o resultado, não uma indicação de que todos esses brasileiros compartilhem as mesmas práticas, doutrinas ou formas de participação religiosa.

Evangélicos formam um universo difícil de classificar

Um dos pontos mais curiosos dos dados do IBGE aparece na divisão interna dos evangélicos. A maior categoria é a dos “evangélicos não determinados”, que representa 15,6% da população com 10 anos ou mais. Nela estão pessoas que responderam apenas “evangélica” ou “crente”, sem informar uma denominação específica.

Isso não significa necessariamente que sejam pessoas sem igreja. Muitas podem frequentar regularmente uma congregação, mas deram uma resposta genérica durante a entrevista. Por essa razão, a categoria não deve ser confundida automaticamente com o fenômeno dos chamados desigrejados.

Os pentecostais representam 8,1% da população analisada, aproximadamente 14,3 milhões de brasileiros. Na classificação censitária, esse conjunto engloba integrantes de diferentes denominações, das Assembleias de Deus à Igreja Universal do Reino de Deus. Já os evangélicos de missão ou de tradição histórica, como presbiterianos e metodistas, correspondem a 3,2%, cerca de 5,6 milhões de pessoas.

Uma mudança na orientação dada aos recenseadores pode ter influenciado esse retrato. Em 2010, respostas genéricas deveriam ser acompanhadas por uma pergunta adicional sobre a igreja frequentada. Essa instrução não apareceu da mesma maneira no material de 2022, favorecendo o crescimento da categoria não determinada. Por isso, especialistas alertam que os números não permitem medir com total precisão o tamanho de cada denominação.

Por que ateus e agnósticos cresceram segundo os dados do IBGE?

O avanço das pessoas que rejeitam uma definição religiosa tradicional chama atenção porque ocorreu a partir de uma base pequena. Os ateus representam 1% da população pesquisada, aproximadamente 1,7 milhão de brasileiros. Os agnósticos correspondem a 0,5%, o equivalente a cerca de 881 mil pessoas.

Entre 2010 e 2022, o número de ateus triplicou, enquanto o grupo dos agnósticos ficou aproximadamente sete vezes maior. Isso não significa que o Brasil esteja deixando rapidamente de ser cristão. Mostra, sobretudo, que mais pessoas passaram a usar essas identidades ao responder ao Censo.

O levantamento registra a forma como cada indivíduo se declara. Ele não explica sozinho as causas da mudança. Maior circulação de informações, redução do estigma social, transformações entre os jovens e afastamento de instituições religiosas são hipóteses discutidas por pesquisadores, mas não podem ser apresentadas como conclusões automáticas dos números.

Também é importante separar ateus e agnósticos dos brasileiros sem religião. Quem se declara ateu afirma não acreditar em divindades. O agnóstico considera que a existência de Deus ou de forças sobrenaturais não pode ser conhecida ou comprovada. Já uma pessoa sem religião pode acreditar em Deus, rezar, seguir práticas espirituais e até frequentar celebrações ocasionalmente, embora não mantenha vínculo com uma instituição.

Declarar-se sem religião não significa necessariamente viver sem fé, crenças espirituais ou experiências religiosas.

O Brasil permanece majoritariamente cristão, mas as formas de acreditar, participar de uma igreja e definir a própria identidade religiosa estão mudando.

O Brasil permanece majoritariamente cristão, mas as formas de acreditar, participar de uma igreja e definir a própria identidade religiosa estão mudando

Outras crenças completam o mapa religioso brasileiro

Os brasileiros sem religião somam aproximadamente 16,4 milhões de pessoas, um contingente muito superior ao total de ateus e agnósticos. A diferença mostra por que juntar essas três categorias pode produzir uma leitura enganosa da realidade. Ausência de filiação institucional e ausência de crença não são sinônimos.

Os dados do IBGE também permitem enxergar tradições religiosas que costumam receber menos espaço nas grandes estatísticas. A umbanda reúne cerca de 1,4 milhão de pessoas, ou 0,8% da população pesquisada. O candomblé aparece com aproximadamente 448,5 mil adeptos, correspondentes a 0,3%.

O espiritismo soma 3,2 milhões de seguidores, representando 1,8% dos brasileiros com 10 anos ou mais. O país ainda possui cerca de 197 mil budistas, 100 mil judeus, 41,2 mil muçulmanos, 14 mil praticantes de tradições ligadas à ayahuasca e 6,7 mil hindus.

Percentuais pequenos não significam pouca importância cultural. Muitas dessas comunidades ajudaram a construir costumes, festas, músicas, culinárias e formas de compreender o mundo presentes no cotidiano brasileiro. Além disso, religiões historicamente perseguidas podem ter sido subnotificadas em levantamentos anteriores, pois nem todos se sentiam seguros para declarar publicamente sua fé.

O retrato revelado pelos microdados do Censo 2022 do IBGE deve ser interpretado como uma fotografia de um momento específico. Identidades religiosas podem mudar ao longo da vida, e uma mesma pessoa pode combinar práticas herdadas de tradições diferentes.

No fim, a informação mais interessante talvez não esteja apenas no percentual de cristãos ou no crescimento dos ateus. Os dados do IBGE mostram que o Brasil continua religioso, mas que os rótulos amplos escondem uma rede complexa de crenças, dúvidas, vínculos e experiências pessoais. É um país no qual a fé permanece presente, ao mesmo tempo que novas maneiras de acreditar, não acreditar ou acreditar sem pertencer ganham visibilidade.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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