Engenheiro chinês criou uma robô humanoide e se casou com ela

Engenheiro chinês criou uma robô humanoide e se casou com ela

Relações entre adultos de gerações diferentes levantam questões sobre autonomia, desejo e expectativas sociais.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine uma cerimônia com convidados, familiares e um tecido vermelho cobrindo a cabeça da noiva. À primeira vista, alguns elementos lembram um casamento tradicional. A surpresa aparece quando descobrimos que a figura ao lado do noivo é uma máquina construída por ele.

Foi essa cena que levou o engenheiro chinês Zheng Jiajia às manchetes internacionais em 2017. Aos 31 anos, ele realizou uma cerimônia simbólica com Yingying, um robô humanoide de aparência feminina que havia desenvolvido em Hangzhou, na província chinesa de Zhejiang.

A história parece saída de uma comédia de ficção científica, mas foi noticiada por diferentes veículos. O episódio, porém, precisa ser contado com duas distinções: não é um acontecimento recente e a celebração não correspondia a um casamento oficialmente reconhecido.

Uma máquina pode ocupar um lugar afetivo na vida de alguém sem que isso comprove que ela sente afeto de volta.

Uma máquina pode ocupar um lugar afetivo na vida de alguém sem que isso comprove que ela sente afeto de volta

Como aconteceu o casamento com o robô humanoide?

Segundo a reportagem publicada pelo South China Morning Post em abril de 2017, baseada em informações do jornal local Qianjiang Evening News, Zheng havia construído Yingying no final de 2016.

Na cerimônia, o robô usava uma roupa preta e tinha a cabeça coberta por um tecido vermelho, elemento associado a tradições matrimoniais chinesas. A mãe do engenheiro e amigos acompanharam a celebração. As imagens de Zheng carregando sua criação ajudaram a tornar o caso conhecido fora da China.

Relatos da época relacionaram a decisão à dificuldade de encontrar uma parceira e à pressão para se casar. Parte dessa explicação veio de declarações atribuídas a um amigo. Portanto, ela deve ser entendida como a versão apresentada pela cobertura jornalística, sem pretender resumir todas as motivações do engenheiro.

Também não é possível concluir, a partir de um episódio individual, que relacionamentos com máquinas fossem uma tendência consolidada. O que os registros mostram é uma cerimônia incomum, com forte repercussão e um personagem real por trás dela.

O que Yingying conseguia fazer?

As habilidades atribuídas ao robô humanoide eram bem mais limitadas do que a expressão “esposa robótica” pode sugerir. De acordo com as notícias de 2017, Yingying reconhecia caracteres chineses e imagens, além de pronunciar algumas palavras simples.

Zheng pretendia aprimorar a criação para que ela pudesse caminhar e ajudar em tarefas domésticas. Essas funções apareciam como planos futuros, não como capacidades já demonstradas durante a cerimônia. Essa diferença é importante para não transformar uma intenção do desenvolvedor em uma conquista tecnológica.

Ter uma aparência humana também não informa, por si só, o grau de autonomia de uma máquina. Um rosto, roupas e uma voz podem transmitir familiaridade, mas são insuficientes para demonstrar compreensão emocional ou uma personalidade comparável à de uma pessoa.

No caso de Yingying, os relatos disponíveis não demonstravam sentimentos recíprocos, vontade própria ou entendimento do significado do casamento. A celebração expressava uma decisão humana e o papel que seu criador havia atribuído ao robô.

Uma máquina pode ocupar um lugar afetivo na vida de alguém sem que isso comprove que ela sente afeto de volta.

Por que podemos atribuir sentimentos às máquinas?

A história chama atenção para um fenômeno conhecido como antropomorfismo: atribuir características humanas a seres ou objetos não humanos. Isso acontece, por exemplo, quando alguém diz que o computador “resolveu implicar” ou que o carro “não quer colaborar”.

Um artigo publicado em 2007 na revista Psychological Review, de Nicholas Epley, Adam Waytz e John Cacioppo, propôs uma teoria para explicar essa tendência. Os autores discutem fatores como a busca de conexão social e a necessidade de compreender o comportamento de agentes não humanos.

Esse conceito oferece uma forma de pensar sobre o episódio, mas não permite diagnosticar Zheng nem afirmar o que ele sentia. Para isso, seriam necessárias informações que uma reportagem sobre uma cerimônia não fornece.

Na robótica social, a aproximação com características humanas pode ser uma escolha de design. Uma análise publicada na Frontiers in Psychology em 2018 discute como o antropomorfismo pode facilitar interações entre pessoas e robôs. A familiaridade ajuda a tornar a máquina mais compreensível, embora não elimine a diferença entre comportamento produzido pelo sistema e experiência humana.

Isso torna a pergunta mais interessante do que simplesmente classificar a história como estranha. Quando damos nome, rosto e papel social a uma tecnologia, também moldamos nossas expectativas sobre ela. Podemos começar a interpretar suas respostas como atenção, companhia ou intenção.

Também não é possível concluir, a partir de um episódio individual, que relacionamentos com máquinas fossem uma tendência consolidada

Também não é possível concluir, a partir de um episódio individual, que relacionamentos com máquinas fossem uma tendência consolidada

Companhia tecnológica é igual a uma relação humana?

A cerimônia de Zheng não resolve essa discussão, mas oferece um ponto de partida. Em um relacionamento entre pessoas, cada participante tem interesses próprios, pode discordar, estabelecer limites e mudar de ideia. O vínculo depende da negociação entre duas vidas que não foram projetadas uma para a outra.

Uma máquina construída para desempenhar determinado papel apresenta outra dinâmica. No caso de Yingying, era o engenheiro quem definia o projeto e planejava suas melhorias. Chamar o robô de “noiva” descrevia o significado atribuído a ele, não uma escolha compartilhada comprovada.

O episódio também convida a refletir sobre a pressão para cumprir etapas sociais. Quando casar vira uma obrigação, a expectativa externa pode ganhar mais destaque do que a experiência individual. Ainda assim, não seria adequado usar esse caso para explicar toda a sociedade chinesa ou reduzir a decisão do engenheiro a uma única causa.

A curiosidade permanece justamente nesse encontro entre uma tradição reconhecível e uma criação tecnológica. A roupa, os convidados e o ritual pertenciam ao universo dos casamentos; a figura apresentada como noiva vinha de um projeto de robótica.

Mais do que anunciar um futuro inevitável, a história do robô humanoide Yingying deixa uma pergunta sobre o presente: quando enxergamos companhia em uma máquina, o que estamos descobrindo sobre a tecnologia e o que estamos revelando sobre nós mesmos?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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