O movimento na entrada aumenta, os bancos recebem mais pessoas e a conversa depois da celebração ganha novas vozes. Para quem acompanha uma igreja há anos, mudanças assim podem transmitir uma sensação de recomeço. Nos Estados Unidos, um levantamento identificou sinais dessa recuperação depois das dificuldades impostas pela pandemia.
A pesquisa do Hartford Institute for Religion Research registrou a primeira alta da frequência presencial mediana nas congregações americanas em 25 anos de acompanhamento. Ao mesmo tempo, outro indicador chamou atenção: as vendas de Bíblias chegaram a 19 milhões de exemplares em 2025, o maior volume em 21 anos.
Seria o início de uma retomada da vida religiosa? Os resultados permitem observar mudanças importantes, mas exigem cuidado na interpretação. Uma igreja receber mais frequentadores e uma livraria vender mais Bíblias são acontecimentos diferentes, que não comprovam, isoladamente, um crescimento da religiosidade de toda a população.

Uma igreja pode ganhar frequentadores enquanto outra perde público. Para entender a mudança, é preciso olhar além dos bancos ocupados
Igreja mais cheia: o que a pesquisa realmente encontrou?
O levantamento faz parte do projeto Exploring the Pandemic Impact on Congregations, conhecido como EPIC, em colaboração com o Faith Communities Today. Segundo a divulgação oficial da pesquisa, os pesquisadores analisaram respostas de líderes de 7.453 congregações, coletadas entre setembro e dezembro de 2025. Os resultados foram apresentados em abril de 2026.
A frequência presencial semanal mediana chegou a 70 pessoas, acima das 65 registradas antes da pandemia. Embora a notícia seja frequentemente resumida como uma recuperação da igreja nos Estados Unidos, a pesquisa abrange diferentes denominações e tradições religiosas, incluindo comunidades não cristãs.
Também houve uma avaliação positiva sobre a situação das instituições: 58% dos líderes consideraram suas congregações mais fortes do que antes da pandemia. Esse percentual expressa a percepção dos responsáveis pelas comunidades. Ele não significa que 58% dos americanos passaram a frequentar uma igreja ou mudaram suas crenças.
Por que o número 70 não representa uma média?
A palavra usada no relatório é mediana, e essa diferença importa. A média resulta da soma de todos os valores dividida pela quantidade de observações. A mediana, por sua vez, corresponde ao ponto central de uma sequência organizada do menor para o maior.
Imagine cinco congregações com 20, 40, 70, 100 e 1.000 participantes. Nesse exemplo hipotético, a mediana é 70, enquanto a média chega a 246. A comunidade com mil frequentadores eleva bastante a média, mas não muda o valor que ocupa o centro da sequência.
Assim, dizer que a frequência mediana passou de 65 para 70 não significa que cada igreja ganhou cinco participantes. Algumas podem ter crescido muito, outras permanecido estáveis e outras perdido público. O indicador resume uma característica do conjunto, sem descrever individualmente todas as instituições.
Essa distinção também ajuda a compreender o marco dos 25 anos. Trata-se da primeira alta desse indicador na série acompanhada pelos pesquisadores. Não significa que nenhuma comunidade religiosa americana tenha crescido durante todo esse período.
Uma igreja pode ganhar frequentadores enquanto outra perde público. Para entender a mudança, é preciso olhar além dos bancos ocupados.
O crescimento acontece em toda igreja dos Estados Unidos?
A recuperação é desigual. Na síntese publicada pela Hartford International University, o instituto destaca que pequenas congregações continuam enfrentando dificuldades e que comunidades protestantes históricas registraram quedas importantes de frequência.
Os pesquisadores também ressaltam que parte significativa do crescimento observado está relacionada à redistribuição de participantes entre instituições. Isso significa que uma igreja pode receber pessoas que já frequentavam outra comunidade, sem que o movimento represente um aumento equivalente da participação religiosa nacional.
Pense em duas congregações de uma mesma cidade. Se dez pessoas deixam a primeira e passam a participar da segunda, uma delas apresenta crescimento, mas a quantidade total de frequentadores permanece igual. O exemplo é simples, porém mostra por que expansão de uma instituição e aumento da religiosidade são questões distintas.
Para a comunidade que recebe novos participantes, a mudança pode ser importante. Entretanto, compreender o cenário do país exige investigar também quem deixou de participar, quem mudou de instituição e quem começou a frequentar atividades religiosas pela primeira vez.

De acordo com a Publishers Weekly, com dados da Circana BookScan, foram vendidos 19 milhões de exemplares de Bíblias nos Estados Unidos em 2025
As vendas de Bíblias confirmam uma volta à fé?
O mercado editorial oferece outra peça desse cenário. De acordo com a Publishers Weekly, com dados da Circana BookScan, foram vendidos 19 milhões de exemplares de Bíblias nos Estados Unidos em 2025. O resultado ficou 12% acima de 2024 e correspondeu ao dobro do volume registrado em 2019.
É um avanço expressivo, mas o termo “recorde” precisa vir acompanhado de seu contexto: foi o maior patamar em 21 anos. A informação não equivale a uma comparação com toda a história das vendas de Bíblias no país.
Além disso, exemplares vendidos não são o mesmo que compradores únicos. Uma pessoa pode comprar diferentes edições, substituir um livro antigo ou presentear familiares. Essas possibilidades ajudam a entender por que o volume comercializado não pode ser convertido diretamente em número de novos fiéis.
Também seria precipitado concluir que quem comprou uma Bíblia começou a frequentar uma igreja. Para estabelecer essa relação, seria necessário conhecer os compradores, suas motivações e seus hábitos. Os dois levantamentos apresentados não acompanham necessariamente as mesmas pessoas.
O que aparece, portanto, é um cenário com sinais de recuperação e diferenças importantes. Parte das comunidades se fortalece, outras enfrentam perdas, e o interesse comercial pelas Bíblias cresce. A pergunta sobre uma retomada mais ampla da fé continua aberta e dependerá de novos dados. Afinal, a relação de uma sociedade com a religião envolve tanto a presença nas celebrações quanto experiências, escolhas e crenças que uma contagem de público não consegue revelar sozinha.