Imagine trabalhar durante todo o ano, guardar absolutamente tudo o que recebeu e, mesmo assim, descobrir que ainda estaria muito longe de alcançar o valor necessário para comprar um carro novo e bancar seus principais custos.
Agora multiplique essa renda anual por mais de quatro.
Essa é a dimensão apresentada por um levantamento internacional que colocou o Brasil entre os países onde ter um automóvel pesa mais no bolso quando o custo é comparado à renda da população.
Segundo o estudo divulgado pela empresa britânica Scrap Car Comparison, o custo calculado para comprar e manter um carro novo no Brasil equivale a 461,9% da renda média anual. Entre os 98 países analisados, apenas Filipinas, com 470,7%, e Colômbia, com 466,1%, apresentaram situação pior.
Em outras palavras, o valor do carro no Brasil aparece como um dos menos acessíveis do planeta quando colocado em perspectiva com aquilo que uma pessoa recebe ao longo do ano.
Mas existe uma observação essencial antes de transformar esse percentual em algo como “o brasileiro gasta quatro salários anuais por ano com carro”.
Não é isso que o levantamento calcula.
Os pesquisadores combinaram o preço médio de compra de dois modelos de referência, Volkswagen Golf e Toyota Corolla, com despesas como combustível, seguro, assistência e reparos. Depois, compararam esse conjunto de custos com a renda média anual de cada país. Os dados utilizados no levantamento estavam atualizados até junho de 2025.
Portanto, o estudo funciona principalmente como um indicador de acessibilidade econômica, e não como uma conta de quanto todo proprietário brasileiro desembolsa anualmente.
O resultado não significa que todo brasileiro gaste 461,9% do salário anual todos os anos com um carro. Ele mostra o tamanho da barreira financeira entre a renda média e o custo de comprar e manter um veículo novo.

O problema não é apenas quanto custa o carro. A pergunta mais importante é: quantos meses ou anos de trabalho são necessários para conseguir pagar por ele?
Por que o valor do carro no Brasil pesa tanto na renda?
O primeiro elemento parece óbvio: carros são caros.
Mas apenas olhar para a etiqueta na concessionária não explica todo o problema.
Um veículo de preço semelhante pode ser relativamente acessível em um país e praticamente inalcançável em outro dependendo da renda média da população.
É justamente essa comparação que torna o ranking interessante.
Os Estados Unidos ficaram em primeiro lugar entre os países mais acessíveis do levantamento. Ali, comprar os veículos utilizados como referência e arcar com os custos considerados pelo estudo correspondeu a 56,4% da renda média anual. A Austrália apareceu na sequência, com 61,8%, e o Canadá ficou em terceiro lugar, com 69,9%.
No Brasil, o indicador chegou a 461,9%.
Isso significa que a diferença entre Brasil e Estados Unidos não pode ser explicada apenas dizendo que “o carro brasileiro custa oito vezes mais”.
O ponto central é a relação entre preço e renda.
Imagine dois consumidores diante de um carro que custa uma quantidade semelhante de dinheiro após conversões e ajustes. Se um deles possui uma renda anual muito maior, aquele automóvel ocupa uma parcela menor de sua capacidade de compra.
É por isso que estudos de acessibilidade precisam considerar salários, e não somente preços absolutos.
A própria metodologia da Scrap Car Comparison destaca esse aspecto. Na edição anterior do levantamento, que utilizava dados de 2021, a empresa já explicava que os custos eram ponderados pela renda média anual justamente para comparar quanto o automóvel comprometia economicamente os moradores de cada país.
Os números mudaram bastante entre os levantamentos.
Em 2021, por exemplo, o Brasil aparecia com 441,89% e ocupava a quinta posição entre os países mais caros daquela amostra, que naquela época reunia apenas 40 mercados. Austrália liderava entre os mais acessíveis com 49,48%.
No levantamento mais recente, a comparação foi ampliada para 98 países e o Brasil passou à terceira colocação entre os menos acessíveis.

No levantamento mais recente, a comparação foi ampliada para 98 países e o Brasil passou à terceira colocação entre os menos acessíveis
Comprar o carro é apenas o começo da conta
Existe ainda outro detalhe que qualquer motorista conhece bem.
O preço pago na concessionária é apenas o começo.
Um veículo precisa de combustível, revisões, pneus, peças, seguro e reparos. Dependendo do caso, entram ainda estacionamento, impostos, pedágios e financiamento.
Nem todas essas despesas estão incluídas exatamente da mesma forma no ranking, mas a pesquisa considerou combustível, seguro, assistência para panes e reparos, além da aquisição do veículo.
Isso ajuda a explicar por que comparar apenas o preço de lançamento de um automóvel pode produzir uma visão incompleta.
Um carro relativamente barato para comprar pode ser caro para utilizar.
O contrário também pode acontecer.
E há outra variável especialmente importante no Brasil: o acesso ao crédito.
Poucos consumidores chegam a uma concessionária com todo o dinheiro necessário para pagar um automóvel novo à vista. Quando existe financiamento, a taxa de juros e o prazo passam a interferir diretamente no valor efetivamente desembolsado.
O levantamento internacional, porém, não deve ser interpretado como uma simulação completa de financiamento de cada brasileiro. A metodologia publicada trabalha com médias nacionais e categorias gerais de custos.
Essa limitação é importante.
O percentual de 461,9% é útil para comparar países, mas não deve ser tratado como uma fotografia exata da situação financeira de cada família brasileira.

O valor do carro no Brasil também interfere no próprio mercado de seminovos, porque um veículo novo mais caro tende a aumentar a procura por alternativas usadas
Valor do carro no Brasil é realmente o 3º pior do mundo?
Dentro da metodologia utilizada pelo estudo, sim.
Entre os 98 países analisados, as Filipinas ficaram na pior posição, com custo equivalente a 470,7% da renda anual média.
Em seguida veio a Colômbia, com 466,1%.
O Brasil aparece praticamente encostado nos dois primeiros colocados, com 461,9%. Depois vêm Turquia, com 444,3%, Equador, com 412,1%, Peru, com 373,5%, Argentina, com 363%, Uruguai, com 338,9%, Costa Rica, com 304,1%, e Índia, com 289%.
A presença latino-americana chama atenção.
Sete dos dez países menos acessíveis do levantamento ficam na América Latina.
Na outra ponta estão principalmente economias de renda mais elevada.
Estados Unidos, Austrália e Canadá ocupam as três primeiras posições. Países europeus como Holanda, Noruega, Alemanha, Suécia e Finlândia também aparecem entre os dez mercados considerados mais acessíveis.
Existe aqui uma diferença que parece paradoxal.
O carro pode custar muitos milhares de dólares em países ricos e ainda assim ocupar uma parcela menor da renda de seus moradores.
Já em países de renda média ou baixa, mesmo um automóvel que pareça mais barato em valores absolutos pode representar vários anos de rendimento.
O problema não é apenas quanto custa o carro. A pergunta mais importante é: quantos meses ou anos de trabalho são necessários para conseguir pagar por ele?
Ranking precisa ser interpretado com algumas ressalvas
Apesar do resultado impressionante, o levantamento não deve ser confundido com uma pesquisa acadêmica definitiva sobre o custo do transporte no mundo.
A Scrap Car Comparison é uma empresa britânica ligada ao setor automotivo, e seu ranking funciona como um estudo comparativo produzido pela própria companhia.
A metodologia utiliza dois automóveis como referência, Volkswagen Golf e Toyota Corolla, e adiciona médias de despesas relacionadas à utilização do veículo.
Isso cria algumas limitações.
Os modelos podem ocupar posições diferentes dentro do mercado de cada país. Um Corolla pode ser considerado um automóvel relativamente comum em determinado lugar e um produto muito caro em outro.
Também existem enormes diferenças internas de renda.
A expressão “salário médio” pode esconder desigualdades importantes. Pessoas que recebem muito acima da média elevam o valor estatístico, enquanto grande parte da população pode viver com rendimentos menores.
Além disso, o comportamento dos consumidores varia.
No Brasil, alguém pode optar por carro usado, motocicleta, transporte público ou manter um veículo antigo por muitos anos. O ranking trabalha com um cenário padronizado para tornar os países comparáveis, e não com todas as formas possíveis de mobilidade.
Ainda assim, a diferença é grande demais para ser ignorada.
Um indicador de 461,9% ajuda a mostrar por que o automóvel novo se tornou uma aquisição tão difícil para uma parcela significativa da população brasileira.
Durante décadas, a ideia do “carro popular” fez parte do imaginário econômico do país. O automóvel significava independência, mobilidade e ascensão social.
Hoje, entrar em uma concessionária e encontrar veículos básicos custando dezenas de milhares de reais faz muita gente questionar até onde aquele conceito ainda existe.
E o impacto vai além da compra.
Quando carros novos ficam menos acessíveis, consumidores permanecem mais tempo com veículos antigos. Outros migram para o mercado de usados. Famílias adiam a troca e passam a gastar mais com manutenção.
É criada uma espécie de efeito cascata.
O valor do carro no Brasil também interfere no próprio mercado de seminovos, porque um veículo novo mais caro tende a aumentar a procura por alternativas usadas.
Ao mesmo tempo, o Brasil possui características que tornam o automóvel especialmente relevante.
Grandes cidades se espalham por áreas extensas, muitas regiões possuem transporte público limitado e determinadas atividades profissionais praticamente exigem deslocamento individual.
Isso cria uma contradição.
O carro pode ser economicamente difícil de comprar justamente em um país onde muitas pessoas sentem que precisam dele.
O levantamento internacional transforma essa sensação cotidiana em uma comparação global.
Um brasileiro pode olhar para uma concessionária e pensar que os preços parecem incompatíveis com sua renda. Quando o mesmo cálculo é aplicado a dezenas de países, percebe-se que essa distância realmente está entre as maiores da amostra analisada.
Mas talvez a melhor maneira de interpretar os 461,9% não seja imaginar literalmente quatro anos e meio sem gastar um centavo.
O número funciona como um termômetro.
E o termômetro está apontando para uma situação bastante desconfortável: quando comparado à renda média, comprar e manter um automóvel novo no Brasil exige um esforço financeiro muito maior do que em grande parte dos países avaliados.
O problema, portanto, não está apenas no preço pendurado no para-brisa.
Está na distância entre aquele preço e o dinheiro que entra todos os meses na conta.