Imagine abrir uma rede social e encontrar a fotografia de um peixe que parece ter saído de uma realidade paralela. O corpo apresenta escamas, nadadeiras e olhos aparentemente normais. No lugar da boca, porém, aparece uma estrutura repleta de dobras, semelhante às pétalas de uma flor e capaz de provocar outras associações bem mais maliciosas.
A imagem rapidamente passou a circular acompanhada de uma história intrigante. Segundo as publicações, biólogos marinhos teriam encontrado uma nova espécie nas águas da Venezuela. O animal ainda estaria sendo estudado e não teria recebido um nome científico oficial.
A aparência incomum fez o restante do trabalho. O suposto peixe com boca de flor acumulou comentários, piadas e compartilhamentos, especialmente pelo evidente duplo sentido provocado pelo formato de sua boca.
Mas a história não resiste a uma verificação mais cuidadosa.
Não existem evidências de que o animal mostrado na imagem seja uma espécie real encontrada na Venezuela. Uma checagem do Boatos.org concluiu que a narrativa sobre a descoberta é falsa e que a representação foi produzida com inteligência artificial. O site analisou uma versão na qual o animal recebeu o apelido de “Bonnie Blue”, uma referência criada justamente para reforçar o caráter provocativo da montagem.

Existe realmente no Brasil um animal conhecido regionalmente como boca-de-flor, mandi-boca-de-flor ou peixe-botinho
O peixe com boca de flor existe de verdade?
O veredito sobre a imagem viral é claro: o animal apresentado como uma nova espécie venezuelana não possui registro científico verificável. Não foram informados os nomes dos pesquisadores, a instituição responsável, o local exato da suposta descoberta, o projeto de pesquisa ou qualquer publicação acadêmica descrevendo a criatura.
Essas ausências são especialmente importantes porque uma descoberta biológica real deixa rastros. Mesmo antes da publicação definitiva, costuma haver informações sobre a expedição, o museu ou universidade envolvida, a região de coleta e os pesquisadores responsáveis.
Em outra checagem sobre um suposto peixe descoberto na Venezuela, o projeto Cazadores de Fake News encontrou um padrão semelhante. A imagem também não possuía respaldo acadêmico e havia surgido originalmente em uma conta que publicava criaturas marinhas imaginárias produzidas por inteligência artificial. O conteúdo original estava identificado como fictício, mas foi retirado de contexto e compartilhado posteriormente como uma descoberta verdadeira.
Esse caso não prova sozinho a origem de todas as imagens de peixes estranhos que circulam na internet. Ele mostra, porém, como uma criação digital pode abandonar rapidamente seu contexto artístico e receber uma falsa narrativa científica.
Uma imagem impressionante não se transforma em descoberta científica apenas porque uma legenda afirma que o animal foi encontrado recentemente.
A Comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica mantém as regras usadas para a atribuição formal de nomes aos animais. Uma nova espécie precisa ser apresentada em um trabalho que funcione como registro científico público e permanente. Para nomes publicados depois de 1999, os autores também precisam deixar explícita a intenção de estabelecer um novo táxon.
Normalmente, a descrição compara o novo organismo com espécies semelhantes, apresenta suas características diagnósticas e relaciona o nome a um material de referência. O holótipo, por exemplo, é o exemplar individual sobre o qual uma nova espécie nominal pode ser baseada na publicação original.
Uma postagem dizendo apenas que “biólogos encontraram um peixe misterioso, mas ainda não escolheram um nome” não oferece elementos suficientes para confirmar nada.
Os sinais que enfraquecem a história viral
Além da falta de fontes, a própria criatura apresenta uma anatomia difícil de explicar. A estrutura semelhante a uma flor parece fundida à parte frontal da cabeça, sem uma abertura oral claramente funcional. As dobras são excessivamente organizadas e parecem ter sido desenhadas para despertar uma associação visual específica.
Isso não significa que toda imagem criada por inteligência artificial possa ser identificada apenas com uma observação rápida. As ferramentas generativas conseguem reproduzir escamas, reflexos, água, olhos e texturas com um nível de realismo cada vez maior.
O problema aparece quando pequenos erros visuais se somam a uma história completamente vazia de informações verificáveis. Uma anatomia suspeita, combinada com a falta de nomes, instituições e artigos científicos, transforma a publicação em um caso típico de desinformação visual.
A natureza, evidentemente, possui peixes extraordinários. Existem espécies transparentes, animais bioluminescentes, peixes com estruturas semelhantes a pernas e criaturas com dentes que lembram os humanos. A existência de animais verdadeiramente incomuns faz com que montagens como essa pareçam mais plausíveis.
O fato de a natureza ser estranha, porém, não significa que toda criatura estranha da internet seja natural.
Existe um mandi-boca-de-flor no Brasil?
Aqui a história ganha uma camada curiosa. Embora o peixe venezuelano da imagem seja falso, existe realmente no Brasil um animal conhecido regionalmente como boca-de-flor, mandi-boca-de-flor ou peixe-botinho.
Um plano de manejo publicado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade registra “boca de flor” e “peixe botinho” como nomes populares da espécie Hassar wilderi. O peixe pertence à família Doradidae, formada por bagres de água doce encontrados na América do Sul.
Documentos oficiais do estado do Tocantins também relacionam Hassar wilderi aos nomes mandi-serra e mandi-boca-de-flor, demonstrando que a denominação realmente é utilizada no país.
A espécie vive em água doce e está associada à bacia do Rio Tocantins, no Brasil. Pode alcançar aproximadamente 25 centímetros de comprimento e apresenta a aparência típica de um bagre, com corpo alongado, placas laterais, nadadeiras e barbilhões próximos à boca.
Ela não possui uma estrutura formada por pétalas e não se parece com o suposto peixe com boca de flor mostrado nas redes sociais. O termo “boca-de-flor” funciona apenas como um nome popular, que pode ter origens regionais e não deve ser interpretado como uma descrição literal da anatomia do animal.
Também existe uma diferença geográfica fundamental. O Hassar wilderi registrado nessas fontes é um peixe brasileiro de água doce. A postagem viral fala em uma criatura marinha recém-descoberta na costa venezuelana.
O mandi-boca-de-flor existe, mas não é o peixe da imagem e não possui uma boca parecida com pétalas.
A coincidência entre os nomes pode ter aumentado a confusão. Ao pesquisar rapidamente por “peixe boca-de-flor”, uma pessoa encontra referências a uma espécie verdadeira e pode acreditar que isso confirma a montagem. Na realidade, as informações pertencem a animais completamente diferentes.
Nomes populares nem sempre seguem uma classificação rígida. Um mesmo peixe pode receber denominações distintas conforme o estado, a comunidade ribeirinha ou a região do país. Da mesma maneira, um nome semelhante pode ser aplicado informalmente a mais de uma espécie.
O nome científico existe justamente para diminuir esse tipo de ambiguidade.

existe realmente no Brasil um animal conhecido regionalmente como boca-de-flor, mandi-boca-de-flor ou peixe-botinho
Por que criaturas falsas viralizam tão facilmente?
O sucesso do peixe com boca de flor não depende apenas da qualidade da imagem. Ele foi construído para provocar três reações poderosas ao mesmo tempo: surpresa, curiosidade e humor.
A aparência sugestiva incentiva as pessoas a marcar amigos e compartilhar a publicação como brincadeira. A menção a uma descoberta científica acrescenta uma camada de mistério. Já a ausência de um nome oficial cria a sensação de que o público está acompanhando algo muito recente, antes mesmo de a ciência concluir sua análise.
Na prática, a falta de informações, apresentada como consequência da novidade, é um dos maiores sinais de alerta.
Criaturas produzidas por inteligência artificial também se beneficiam do funcionamento acelerado das redes sociais. Muitas pessoas reagem à imagem antes de ler a legenda completa. Outras compartilham sabendo que pode ser falsa, mas consideram o conteúdo engraçado. Depois de milhares de republicações, a origem se perde e a montagem passa a ser tratada como fotografia.
Há ainda uma espécie de vantagem narrativa. Desmentir exige explicar como novas espécies são catalogadas, procurar fontes acadêmicas e comparar características anatômicas. Inventar exige apenas uma imagem curiosa e uma frase dizendo que “cientistas estão intrigados”.
O resultado é que a mentira pode circular muito mais rapidamente do que a correção.
Para evitar cair nesse tipo de conteúdo, vale procurar informações básicas: quem encontrou o animal, qual instituição participou, onde ocorreu a coleta e em que publicação científica a descoberta foi apresentada. Também é importante realizar uma busca reversa da imagem e observar se o perfil original produz outras criaturas fantasiosas.
No caso do suposto peixe com boca de flor, o que é verdade e o que é mito pode ser resumido de maneira simples. É verdade que existe no Brasil um peixe conhecido como mandi-boca-de-flor. É mito que a criatura da imagem tenha sido descoberta no mar da Venezuela.
Ela não nasceu em um recife, em uma fossa oceânica ou em uma expedição científica. Nasceu no ambiente digital e recebeu uma história falsa capaz de explorar exatamente aquilo que mais desperta a curiosidade humana: a possibilidade de que a natureza ainda esconda criaturas quase impossíveis.