Elon Musk foca no Brasil e clientes da Vivo poderão ter Starlink no celular

Elon Musk foca no Brasil e clientes da Vivo poderão ter Starlink no celular

Vivo testa internet via satélite direto no celular. Tecnologia Direct-to-Device conecta celulares a satélites sem antena externa.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine estar em uma estrada sem sinal, em uma fazenda distante, em uma região de mata, em uma comunidade isolada ou em uma praia onde o 4G simplesmente desaparece. Você pega o celular, olha para a tela e, em vez daquela mensagem frustrante de “sem serviço”, o aparelho tenta se conectar diretamente a um satélite no espaço.

Essa é a promessa por trás da tecnologia Direct-to-Device, também chamada de D2D, que permite a comunicação direta entre celulares compatíveis e satélites de baixa órbita, sem a necessidade de uma antena externa instalada pelo usuário. No Brasil, o assunto ganhou força porque a Vivo negocia com a SpaceX uma possível oferta de conectividade baseada na Starlink para celulares.

A frase que chama atenção é simples e poderosa: clientes da Vivo poderão ter Starlink no celular. Mas é preciso entender o tamanho real da novidade. Por enquanto, não existe serviço comercial lançado, não há data confirmada, não há preço divulgado e nem planos anunciados para consumidores. O que existe é uma combinação de negociação empresarial, autorização de testes pela Anatel e avanço regulatório para avaliar se a tecnologia pode funcionar no país.

A Telefônica Brasil, dona da Vivo, recebeu autorização da Agência Nacional de Telecomunicações para realizar testes de conexão direta por satélite em todo o território nacional. O experimento poderá usar até 50 terminais móveis entre 19 de julho e 22 de outubro de 2026, dentro de um ambiente regulatório experimental supervisionado pela agência.

Isso significa que o Brasil entrou oficialmente no laboratório dessa nova fase da telefonia móvel. O celular conectado por satélite não é mais apenas uma ideia distante de ficção científica. Mas também ainda não é um serviço pronto para chegar automaticamente ao bolso de milhões de brasileiros.

A promessa é grande: levar sinal para onde as torres não chegam. Mas, antes disso, a tecnologia precisa provar que funciona bem, sem interferir nas redes já existentes.

O Starlink no celular não deve ser visto como substituto do 4G ou do 5G, mas como uma rede de apoio para quando o mapa fica sem sinal.

O Starlink no celular não deve ser visto como substituto do 4G ou do 5G, mas como uma rede de apoio para quando o mapa fica sem sinal

Clientes da Vivo poderão ter Starlink no celular: o que já se sabe?

A informação mais importante é que a Vivo negocia com a SpaceX, empresa de Elon Musk, uma possível oferta de conectividade Direct-to-Device no Brasil. Caso as conversas avancem e o modelo seja aprovado, a operadora poderia se tornar uma das primeiras do país a oferecer conexão direta entre celulares e satélites da Starlink.

Mas o verbo correto ainda é “poderão”, não “terão”. Clientes da Vivo poderão ter Starlink no celular se uma série de etapas for concluída: testes técnicos, acordo comercial, compatibilidade de aparelhos, autorização regulatória, definição de frequências, regras de convivência com outras redes e eventual construção de planos para o consumidor final.

O ato autorizado pela Anatel permite testes em frequências na faixa de 2,5 GHz, mais especificamente 2.567,5 MHz e 2.687,5 MHz, com largura de 5 MHz em cada canal. O uso será em caráter secundário, ou seja, a operadora não terá proteção contra interferências de sistemas primários e deverá interromper transmissões se causar problemas a serviços já autorizados.

Na prática, isso mostra que a agência está testando a convivência entre a rede móvel tradicional e os sistemas não terrestres. O objetivo não é apenas saber se o celular consegue se conectar ao satélite. É entender se essa conexão pode acontecer sem prejudicar redes terrestres, usuários, operadores e serviços que já usam o espectro de radiofrequências no Brasil.

Como funciona a conexão direta por satélite?

O Direct-to-Device transforma o satélite em uma espécie de torre de celular no espaço. Em vez de depender de uma antena terrestre próxima, o smartphone tenta se comunicar com um satélite de baixa órbita que passa sobre a região. Esse satélite, por sua vez, faz parte de uma rede capaz de encaminhar a comunicação para a infraestrutura da operadora.

A grande diferença em relação à internet via satélite tradicional é que, nesse modelo, o usuário não precisaria instalar uma antena externa, como aquelas usadas em serviços residenciais da Starlink. A ideia é usar o próprio celular compatível, em especial aparelhos LTE, para acessar mensagens, chamadas ou dados, conforme a capacidade da rede e a fase de implantação.

Isso não significa que o Starlink no celular vai substituir o 5G da cidade. Pelo contrário. A tecnologia foi pensada principalmente para áreas sem cobertura terrestre, como regiões remotas, zonas rurais, estradas, áreas de baixa densidade populacional, comunidades isoladas e situações emergenciais.

Também é importante ajustar expectativas. A transmissão direta entre celular e satélite enfrenta limitações físicas. O celular tem antena pequena, pouca potência e precisa alcançar um equipamento que está a centenas de quilômetros de altitude, movendo-se em alta velocidade. Por isso, a capacidade tende a ser menor do que a de uma rede 5G terrestre bem estruturada.

Por que isso pode mudar a cobertura no Brasil?

O Brasil é um país continental. Há áreas urbanas com 5G avançado, mas também há estradas, comunidades rurais, áreas de floresta, regiões ribeirinhas, fazendas, reservas, praias afastadas e localidades onde a cobertura móvel ainda é instável ou inexistente. Instalar torres em todos esses lugares pode ser caro, difícil e, em alguns casos, economicamente inviável.

É nesse vazio que a conexão direta por satélite pode fazer diferença. Se clientes da Vivo poderão ter Starlink no celular no futuro, o impacto mais relevante provavelmente aparecerá nos lugares onde o sinal convencional falha. Não seria uma internet para competir com fibra óptica em bairro central, mas uma camada extra de cobertura para quando não há antena por perto.

Em emergências, essa diferença pode ser enorme. Um motorista perdido em uma estrada, um produtor rural em uma área isolada, uma comunidade atingida por enchente, uma equipe de resgate ou um viajante fora de área poderiam ter uma forma mínima de comunicação quando a rede tradicional não existe ou foi derrubada.

A tecnologia também interessa às operadoras porque amplia cobertura sem exigir a instalação de torres em todos os pontos do mapa. Para empresas como Vivo, Claro e TIM, o D2D pode ser uma forma de complementar a rede terrestre, melhorar a percepção de cobertura e disputar consumidores que valorizam conectividade em deslocamento.

A promessa é grande: levar sinal para onde as torres não chegam. Mas, antes disso, a tecnologia precisa provar que funciona bem, sem interferir nas redes já existentes.

A promessa é grande: levar sinal para onde as torres não chegam. Mas, antes disso, a tecnologia precisa provar que funciona bem, sem interferir nas redes já existentes

O que ainda falta para virar serviço?

Falta bastante coisa. Primeiro, os testes precisam mostrar se a tecnologia funciona com estabilidade nas condições brasileiras. O país tem clima variado, áreas urbanas densas, regiões de floresta, litoral extenso, diferentes relevos e grande diversidade de uso do espectro. O que funciona bem em um laboratório ou em outro país precisa ser validado aqui.

Segundo, a Anatel precisa consolidar regras mais claras para convivência entre redes móveis e satélites. O sandbox regulatório serve justamente para permitir experimentos antes da criação definitiva de normas. Durante esse período, empresas testam, reportam interferências, entregam relatórios e ajudam a agência a entender riscos e possibilidades.

Terceiro, é preciso haver acordo comercial entre a Vivo e a SpaceX. As empresas não divulgaram detalhes sobre preço, modelo de parceria, abrangência, tipos de plano ou quais serviços seriam oferecidos inicialmente. Em outros mercados, soluções desse tipo começam muitas vezes por mensagens de texto ou comunicações básicas antes de avançar para chamadas e dados mais amplos.

Quarto, os celulares precisam ser compatíveis. A Starlink divulga que sua tecnologia Direct to Cell funciona com celulares LTE existentes, sem necessidade de hardware especial, mas a experiência final depende de rede, espectro, operadora, software, localização e condições de céu aberto. Prédios, montanhas, vegetação densa e ambientes internos podem dificultar a conexão.

O Starlink no celular não deve ser visto como substituto do 4G ou do 5G, mas como uma rede de apoio para quando o mapa fica sem sinal.

Essa distinção é essencial para não criar expectativa errada. Quem imagina baixar vídeos pesados em alta velocidade no meio de uma floresta pode se decepcionar, pelo menos nas primeiras fases. O benefício mais provável no início seria comunicação básica em locais sem cobertura, como mensagens, eventual chamada ou dados limitados, conforme o desenho comercial e técnico.

Mesmo assim, a mudança é histórica. Durante décadas, ficar sem sinal era algo natural em viagens, estradas e zonas rurais. A cobertura dependia exclusivamente da proximidade de antenas terrestres. Com satélites de baixa órbita atuando como extensão da rede móvel, a ideia de “área sem serviço” começa a ser repensada.

Há também um fator simbólico. A Starlink já é conhecida no Brasil por levar internet via satélite a casas, empresas, fazendas e regiões remotas usando antenas próprias. Agora, a possibilidade de conexão direta no celular cria outro nível de integração. O aparelho que já está no bolso poderia, em tese, buscar cobertura espacial quando a rede terrestre desaparece.

Para a Anatel, o desafio é equilibrar inovação e segurança regulatória. O espectro é um recurso limitado e precisa ser organizado para evitar interferências. Redes móveis, satélites, serviços públicos, aplicações críticas e equipamentos diversos disputam faixas de frequência. Por isso, liberar uma tecnologia nova exige cautela.

Para os consumidores, o mais prudente é acompanhar sem tratar a novidade como lançamento iminente. A frase “clientes da Vivo poderão ter Starlink no celular” é verdadeira como possibilidade em negociação e teste, mas ainda não como serviço disponível. Ainda falta transformar experimento em oferta comercial.

Se tudo avançar, a novidade pode redefinir a relação entre operadoras e cobertura no Brasil. Em vez de escolher uma empresa apenas pela qualidade do sinal na cidade, o usuário poderia considerar também a capacidade de manter comunicação em viagens, áreas remotas e emergências. Para quem trabalha no campo, dirige por longas estradas ou vive em regiões com sinal instável, isso pode pesar na decisão.

No fim, a conexão direta por satélite mostra como o celular está deixando de depender apenas do chão. As torres continuam fundamentais. A fibra continua essencial. O 4G e o 5G continuam sendo as redes principais para o dia a dia. Mas uma nova camada começa a surgir acima de tudo isso, literalmente no céu.

Talvez, em breve, a pergunta “tem sinal aí?” deixe de depender só da operadora mais próxima. Se a tecnologia passar nos testes, cumprir as regras e virar produto real, olhar para o céu pode fazer parte da resposta. E é por isso que a possibilidade de clientes da Vivo poderem ter Starlink no celular chama tanta atenção: ela aponta para um futuro em que o mapa da cobertura pode não terminar onde acabam as torres.

Reportar um erro

Encontrou um erro neste conteúdo? Descreva o problema abaixo e nossa equipe verificará.

Reportar-erro

Compartilhar

Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

Saiba mais

Veja também