Imagine passar as compras no caixa e lembrar de uma notícia dizendo que o imposto sobre consumo no Brasil pode ultrapassar 30%. A primeira reação provavelmente seria fazer uma conta rápida: tudo vai ficar quase um terço mais caro? A dúvida é compreensível, mas o número divulgado não permite chegar diretamente a essa conclusão.
A discussão ganhou força depois que o Tribunal de Contas da União aprovou, em 28 de outubro de 2026, o cálculo de referência da Contribuição sobre Bens e Serviços, a CBS. O resultado exato de 11,3468%, arredondado para 11,3%, será encaminhado ao Senado, responsável pela fixação da alíquota.
Somando o cálculo sem arredondamento à estimativa de 18,7% para o Imposto sobre Bens e Serviços, o IBS, chega-se a aproximadamente 30,05%. Esse é o cenário que alimentou as manchetes sobre um possível recorde brasileiro.
A soma reúne uma referência calculada para a CBS de 2027 e uma projeção para o IBS. Não é uma alíquota conjunta definitiva, nem uma cobrança integral que começará de uma só vez.

A soma reúne uma referência calculada para a CBS de 2027 e uma projeção para o IBS. Não é uma alíquota conjunta definitiva
Por que o imposto sobre consumo pode chegar a 30,05%?
A reforma organiza parte da tributação brasileira em um modelo conhecido como IVA, o Imposto sobre Valor Agregado. No Brasil, ele terá duas partes principais: a CBS, federal, e o IBS, compartilhado entre estados e municípios.
A proposta é substituir cobranças existentes e permitir o aproveitamento de créditos ao longo das operações, reduzindo a tributação em cascata. Em termos simples, o sistema procura evitar que o imposto pago em uma etapa seja novamente onerado nas seguintes sem a compensação adequada.
Conforme o comunicado do TCU sobre o cálculo da CBS, o percentual foi elaborado para preservar a arrecadação federal durante a transição. O Senado tem até 15 de dezembro para fixar a referência. Novos cálculos serão realizados nos próximos anos.
A composição da projeção pode ser resumida assim:
| Componente | Percentual considerado | Situação |
|---|---|---|
| CBS | 11,3468% | Cálculo para 2027, arredondado para 11,3% |
| IBS | 18,7% | Estimativa, ainda sujeita à definição |
| Soma ilustrativa | 30,0468% | Aproximadamente 30,05% |
A precisão das casas decimais não elimina a incerteza do cenário. Como os componentes ainda passam por definição e atualização, essa conta não deve ser tratada como uma previsão fechada da tributação ao fim da transição.
Seria mesmo o maior imposto do mundo?
O percentual projetado supera os 27% de IVA padrão da Hungria. No levantamento de 2026 da Tax Foundation, a média da OCDE é de 19,4%. Esses dados ajudam a dimensionar como uma taxa brasileira próxima de 30% seria elevada na comparação internacional.
Entretanto, a expressão “maior imposto do mundo” precisa de contexto. A comparação é entre alíquotas padrão de tributação do consumo. Ela não mede todos os impostos de um país, o peso sobre cada família ou a carga tributária total em relação à economia.
Além disso, um levantamento dos integrantes da OCDE não equivale, sozinho, a uma comparação completa de todos os países. A conclusão diretamente sustentada por esses números é que a projeção brasileira ultrapassaria a referência húngara, a mais alta do grupo.
A própria análise da Tax Foundation sobre tributação do consumo considera tanto a alíquota quanto a abrangência da cobrança. Dois países com percentuais semelhantes podem arrecadar de maneira diferente se um deles conceder mais isenções ou tributar uma parcela menor do consumo.

Uma alíquota padrão ajuda a comparar sistemas. Sozinha, ela não revela quanto cada pessoa pagará.

A soma reúne uma referência calculada para a CBS de 2027 e uma projeção para o IBS. Não é uma alíquota conjunta definitiva, nem uma cobrança integral que começará de uma só vez
Como as exceções afetam o imposto sobre consumo?
Imagine uma conta que precisa ser dividida entre várias pessoas. Se algumas recebem descontos e o total a pagar permanece igual, a parcela dos demais aumenta. A lógica das exceções tributárias tem uma semelhança com esse exemplo: quando a meta de arrecadação é mantida, benefícios concedidos a parte das operações podem pressionar a taxa aplicada às outras.
Isso não significa que toda redução seja injustificável. Desonerar alimentos essenciais ou serviços importantes pode atender a objetivos sociais. A questão é que essas escolhas têm efeitos sobre a distribuição da cobrança.
A regulamentação prevê alíquota zero para produtos da cesta básica nacional, reduções para determinados serviços e regras específicas para algumas atividades. A Lei Complementar 214/2025 também estabelece mecanismos de devolução de tributos a famílias de baixa renda, conhecidos como cashback.
Outro detalhe costuma causar confusão: redução de 60% não significa uma alíquota de 60%. Em um exemplo hipotético, uma taxa padrão de 30%, reduzida em 60%, resultaria em 12%. A operação beneficiada pagaria 40% da taxa original, observadas as condições legais.
Por isso, o debate envolve duas perguntas diferentes: qual será o percentual padrão e sobre quais produtos, serviços e contribuintes ele efetivamente incidirá?
Isso significa que tudo ficará 30% mais caro?
Não. A reforma substitui tributos que já participam dos custos e preços atuais. Seria incorreto pegar o preço de uma mercadoria na prateleira e simplesmente acrescentar 30,05% para prever quanto ela custará no novo sistema.
Também é necessário distinguir a alíquota calculada sobre uma base sem o tributo da parcela que ele representa no valor final. Em um exemplo puramente matemático, uma base de R$ 100 com cobrança de 30% resulta em R$ 130. Os R$ 30 representam aproximadamente 23,1% desse total. Isso não é uma previsão de preço, apenas uma demonstração de como a base da comparação importa.
O resultado para cada setor dependerá da tributação anterior, dos créditos disponíveis, das reduções previstas e das condições de mercado. Preservar a arrecadação total não significa manter exatamente a mesma carga para todas as atividades.
A mudança também será gradual. Em 2027, a CBS substituirá PIS e Cofins. Entre 2029 e 2032, ocorrerá a substituição progressiva de ICMS e ISS pelo IBS. A conclusão dessa transição está prevista para 2033. Ministério da Fazenda
Portanto, há motivo para acompanhar com atenção a projeção elevada, mas o número precisa vir acompanhado de suas condições. O cálculo da CBS, a definição do IBS, as exceções e a transição fazem parte da mesma história.
O imposto sobre consumo está presente em decisões cotidianas, do supermercado à contratação de um serviço. Entender essa conta permite ir além da manchete e perguntar o que realmente importa: quem pagará a taxa padrão, quem terá redução e como a mudança será sentida na prática?