Durante alguns minutos, uma sala veterinária no estado do Kansas, nos Estados Unidos, concentrou uma mistura difícil de descrever. Havia equipamentos, mãos experientes, tensão, tristeza e uma esperança mínima. De um lado, uma girafa adulta chamada Virtue não tinha mais possibilidade de recuperação. Do outro, uma cria ainda dentro do útero talvez tivesse uma única chance de sobreviver.
Foi nesse cenário que nasceu Milani, uma filhote de girafa-reticulada que pode entrar para a história da medicina veterinária. Prematura e retirada por meio de uma cesariana terminal, ela começou a respirar depois que profissionais trabalharam rapidamente para substituir os estímulos que receberia em um parto natural.
O nascimento ocorreu em 11 de julho de 2026, no Tanganyika Wildlife Park, localizado na cidade de Goddard, perto de Wichita. Estima-se que Milani tenha nascido entre três e sete semanas antes do período esperado. Segundo o parque, nenhum filhote de girafa mantido sob cuidados humanos é conhecido por ter sobrevivido a uma cesariana semelhante. Por isso, a instituição evita tratar o resultado como definitivamente histórico enquanto a recuperação continua, mas reconhece que a pequena girafa pode estabelecer um precedente.
Milani continua recebendo cuidados intensivos e ainda enfrenta riscos. Apesar disso, já alcançou etapas importantes: consegue ficar em pé e deitar sozinha, controla melhor os movimentos e chegou a correr pelo recinto em um momento descrito pelos cuidadores como seus primeiros “zoomies”. Cada pequeno avanço representa algo que os especialistas consultados inicialmente consideravam extremamente improvável.

Para Milani, respirar, levantar o corpo e dar alguns passos não são gestos comuns. Cada movimento representa uma etapa que nenhum caso anterior conhecido conseguiu alcançar
Por que o filhote de girafa precisou nascer por cesariana?
O problema começou cerca de um mês antes do nascimento. Virtue, uma girafa-reticulada adulta que estava no final da gestação, começou a perder o apetite. A equipe do Tanganyika Wildlife Park realizou exames, administrou medicamentos, ofereceu fluidos e procurou especialistas de outras instituições, mas seu estado continuou piorando.
Os primeiros resultados mostraram um nível elevado de lactato, sinal de que o organismo estava enfrentando dificuldades graves. Em uma nova avaliação, feita aproximadamente 72 horas depois, os valores haviam subido ainda mais. O sangue também apresentava indícios de um distúrbio de coagulação, enquanto diferentes órgãos começavam a falhar.
Seis veterinários e especialistas de nove instituições participaram das discussões. Entre as organizações consultadas estavam a Universidade Estadual do Kansas, o Zoológico de Columbus, o Zoológico do Condado de Sedgwick e o Centro Internacional para Conservação de Girafas do Cheyenne Mountain Zoo. Mesmo com décadas de experiência e mais de 90 nascimentos de girafas registrados no parque, a situação exigia conhecimentos compartilhados.
Um segundo exame confirmou que o quadro de Virtue era irreversível. A necropsia realizada posteriormente encontrou doença avançada nos rins e no coração, além de um cisto uterino. Não havia um tratamento capaz de salvar a mãe, restando à equipe uma pergunta angustiante: ainda seria possível retirar a cria com vida?
A decisão não era escolher entre a mãe e a filhote. Virtue não poderia sobreviver, e existia apenas uma pequena janela para tentar salvar sua cria.
Os profissionais optaram por uma cesariana terminal. Nesse procedimento, a cirurgia é realizada quando já se sabe que a mãe não sobreviverá. Virtue foi completamente sedada, Milani foi retirada cirurgicamente e a girafa adulta passou por eutanásia humanitária ainda sob efeito da sedação.
Uma operação extrema para tentar salvar Milani
Realizar uma cesariana em uma girafa envolve desafios muito diferentes dos encontrados em animais menores. Uma girafa adulta possui grande peso, pescoço longo, anatomia circulatória particular e um risco elevado associado à sedação. Deitar, posicionar e monitorar um animal desse tamanho exige planejamento, equipamentos e uma equipe numerosa.
Além disso, o parto natural das girafas possui características que ajudam o filhote a iniciar a vida fora do útero. A mãe normalmente dá à luz em pé, fazendo com que a cria caia de uma altura próxima a 1,5 ou 1,8 metro.
A queda parece assustadora, mas cumpre funções importantes. Ela ajuda a romper o cordão umbilical, retirar fluidos das vias respiratórias e estimular a primeira respiração. Depois disso, um filhote saudável geralmente tenta ficar em pé dentro de cinco a 20 minutos e começa a mamar durante a primeira hora.
Milani não passou pelo canal de parto nem sofreu o impacto da queda. Assim que foi retirada, a equipe precisou aspirar líquidos de sua boca e nariz, secar seu corpo, fornecer oxigênio e estimular manualmente sua respiração enquanto acompanhava coração e pulmões.
A prematuridade aumentava ainda mais o risco. Veterinários estimaram que seus pulmões não estavam completamente desenvolvidos, o que dificultava a respiração e a adaptação ao ambiente externo. Mesmo assim, a filhote respirou e continuou reagindo ao tratamento.
Como o filhote de girafa está vencendo os desafios?
Sobreviver à operação foi apenas o primeiro obstáculo. Como Milani não teve contato com a mãe depois do nascimento, ela também não recebeu o colostro, primeiro leite produzido após o parto.
O colostro contém anticorpos fundamentais para a proteção dos recém-nascidos. Filhotes de girafa dependem dessa transferência de imunidade materna porque chegam ao mundo sem defesas plenamente funcionais contra infecções. Sem o primeiro leite, Milani ficou extremamente vulnerável a microrganismos que normalmente poderiam ser combatidos pelo sistema imunológico.
A equipe utilizou plasma de girafa armazenado havia mais de seis anos em um banco compartilhado por instituições zoológicas. O material veio do Dickerson Park Zoo e havia sido doado por uma girafa chamada Mili. A filhote também recebeu um suplemento de colostro bovino para substituir parte da proteção que não pôde obter de Virtue.
O nome Milani, anunciado pelo parque em 25 de julho, pode ser interpretado como “novo nascimento” ou “nova era”. A escolha também homenageia Mili, cuja doação de plasma contribuiu para a sobrevivência da recém-nascida.
A rotina montada para a filhote inclui monitoramento durante as 24 horas do dia, sempre com pelo menos duas pessoas presentes. Os profissionais acompanham sua temperatura, hidratação, glicose, respiração e resultados de exames de sangue. A alimentação também precisa ser calculada cuidadosamente, pois oferecer leite em excesso pode causar problemas graves em girafas criadas sem a mãe.
Nos primeiros dias, os cuidadores precisaram auxiliar Milani a ficar em pé várias vezes. Sustentar um animal com cerca de 45 quilos, quatro pernas ainda descoordenadas e um pescoço comprido exige grande esforço físico. Aos poucos, porém, ela passou a realizar uma parcela maior dos movimentos sozinha.
Reportagens publicadas no fim de julho mostraram que Milani já conseguia levantar e deitar sem ajuda. O parque também divulgou imagens da filhote correndo brevemente pelo recinto, um comportamento animador para um animal que havia nascido prematuro e com dificuldades respiratórias. Mesmo com esses avanços, ela ainda permanece sob observação constante.
Para Milani, respirar, levantar o corpo e dar alguns passos não são gestos comuns. Cada movimento representa uma etapa que nenhum caso anterior conhecido conseguiu alcançar.

A decisão não era escolher entre a mãe e a filhote. Virtue não poderia sobreviver, e existia apenas uma pequena janela para tentar salvar sua cria
Por que o caso pode entrar para a história veterinária?
O próprio Tanganyika Wildlife Park ressalta que não existe uma grande base de dados sobre complicações no fim da gestação de girafas. Esses casos são raros, e muitos foram pouco documentados. Por isso, não há uma taxa confiável de sobrevivência para filhotes retirados por cesariana.
De acordo com o parque, especialistas em neonatologia de girafas e veterinários consultados não conheciam um caso anterior no qual uma cria prematura tivesse sobrevivido a esse tipo de nascimento. Caso Milani supere completamente o período crítico, ela poderá se tornar o primeiro filhote conhecido a sobreviver a uma cesariana em ambiente de manejo humano.
A expressão “primeiro caso conhecido” é importante. Ela indica que não há registro encontrado pelas instituições e pelos profissionais consultados, mas não permite afirmar com certeza absoluta que uma situação semelhante jamais tenha ocorrido em algum lugar sem documentação adequada.
O episódio também pode oferecer informações valiosas para futuras emergências. Os protocolos de ventilação, alimentação, transferência de anticorpos, controle da temperatura e auxílio para ficar em pé poderão ajudar outros profissionais a lidar com casos envolvendo girafas ou grandes mamíferos recém-nascidos.
A sobrevivência de Milani também chama atenção para a conservação das girafas-reticuladas. Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza reconheceu oficialmente a girafa-reticulada como uma das quatro espécies distintas de girafa. A mudança busca permitir avaliações e estratégias de proteção mais específicas para cada grupo.
Esses animais habitam principalmente regiões do Quênia, da Etiópia e da Somália e enfrentam ameaças como perda e fragmentação de habitat, caça ilegal, conflitos com seres humanos e períodos de seca. A avaliação anterior da Lista Vermelha classificava a população reticulada como ameaçada, com redução expressiva ao longo das décadas.
O nascimento de um único animal sob cuidados humanos não resolve os problemas enfrentados pelas populações selvagens. Ainda assim, experiências veterinárias bem documentadas podem aumentar o conhecimento sobre reprodução, gestação, atendimento neonatal e conservação genética.
Milani ainda não deixou completamente a zona de perigo. Sua recuperação exige monitoramento contínuo, alimentação controlada e atenção a possíveis infecções ou complicações relacionadas à prematuridade.
Mesmo assim, a história já carrega um significado especial. Em uma mesma sala, a equipe precisou se despedir de Virtue e lutar para que sua cria respirasse. A tristeza pela perda da mãe não desapareceu, mas passou a conviver com a esperança representada por uma filhote de girafa que continua fazendo algo considerado quase impossível: sobreviver.