O celular toca e, por alguns segundos, uma pessoa imagina que aquela pode ser a ligação mais importante de sua vida. Do outro lado, talvez esteja a notícia de que surgiu um órgão compatível para um transplante. Para quem aguarda essa oportunidade, planos aparentemente simples, como trabalhar, viajar ou acompanhar o crescimento dos filhos, podem depender desse telefonema.
A doação de órgãos conecta histórias de pessoas que, muitas vezes, nunca se conhecerão. De um lado, existe uma família atravessando uma perda. Do outro, alguém que pode receber uma nova possibilidade de tratamento. Entre essas duas realidades, profissionais de saúde organizam um processo que exige cuidado, critérios técnicos e respeito.
No Brasil, quem deseja doar após a morte pode começar com uma atitude acessível: contar essa vontade à família. É uma conversa que costuma ser adiada, mas que ajuda os familiares a compreender uma decisão importante antes de um momento de sofrimento.

Dizer à família que você deseja doar órgãos é permitir que uma decisão importante seja conhecida antes que alguém precise tomá-la em seu nome
Como funciona a doação de órgãos no Brasil?
O desejo de ser doador deve ser comunicado com clareza. Não é obrigatório incluir essa informação nos documentos pessoais nem registrar uma declaração em cartório. Conforme as orientações do Ministério da Saúde sobre como ser doador, a doação após a morte depende de autorização familiar, mesmo quando a pessoa manifestou sua intenção em vida.
Uma frase simples pode abrir o assunto: “Se houver possibilidade de doar meus órgãos depois da minha morte, quero que vocês saibam que essa é a minha vontade”. A conversa também permite ouvir receios e esclarecer dúvidas, sem deixar tudo para uma situação de emergência.
A autorização, porém, é uma parte do processo. A equipe precisa avaliar as condições clínicas do potencial doador, realizar exames e verificar quais órgãos ou tecidos podem ser utilizados. Portanto, manifestar o desejo de doar não significa que a doação será possível em qualquer circunstância.
Órgãos como rins, fígado, coração, pulmões e pâncreas podem beneficiar pessoas com doenças graves. Também existem transplantes de tecidos, como córneas, pele, ossos e válvulas cardíacas. Cada modalidade tem suas próprias exigências, e a avaliação médica determina as possibilidades de aproveitamento.
Morte encefálica é a mesma coisa que coma?
Essa é uma das dúvidas mais importantes. Morte encefálica não é coma. Ela corresponde à perda completa e irreversível das funções do encéfalo e significa que a pessoa morreu. No coma, a pessoa continua viva, e a possibilidade de recuperação depende da causa e da gravidade do quadro.
O diagnóstico exige procedimentos rigorosos. No Brasil, o protocolo inclui dois exames clínicos realizados por médicos diferentes e capacitados, teste de apneia e exame complementar. Também é necessário excluir condições tratáveis que possam interferir na avaliação. Os médicos responsáveis pela determinação da morte não podem integrar as equipes de remoção e transplante.
A presença de batimentos cardíacos mantidos com suporte hospitalar pode tornar a notícia especialmente difícil de compreender. Por isso, explicar os exames, acolher perguntas e respeitar o tempo de entendimento dos familiares são partes fundamentais do atendimento.
Na situação habitual de doação de órgãos sólidos após a morte, a circulação é mantida artificialmente após o diagnóstico de morte encefálica, preservando temporariamente os órgãos. Quando a morte ocorre por parada cardiorrespiratória, pode haver possibilidade de doar tecidos, conforme a avaliação e os critérios aplicáveis.
Dizer à família que você deseja doar órgãos é permitir que uma decisão importante seja conhecida antes que alguém precise tomá-la em seu nome.
Por que a doação de órgãos faz tanta diferença?
Um transplante pode prolongar a vida, recuperar funções comprometidas e devolver autonomia. Para uma pessoa com doença renal avançada, por exemplo, um transplante bem-sucedido pode representar a possibilidade de deixar a rotina de diálise. Para outras, pode ser a alternativa de tratamento diante da falência de um órgão.
Os números ajudam a dimensionar essa necessidade. Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes de 2025, da ABTO, o país registrou 4.335 doadores efetivos naquele ano, ante 4.088 em 2024. A taxa nacional chegou a 20,3 doadores por milhão de habitantes.
No fechamento de dezembro de 2025, o levantamento apresentava o seguinte quadro:
| Transplante aguardado | Pacientes ativos em lista |
|---|---|
| Rim | 38.925 |
| Córnea | 32.639 |
| Fígado | 1.458 |
| Coração | 372 |
| Pulmão | 245 |
| Pâncreas | 17 |
| Pâncreas e rim | 221 |
| Total | 73.877 |
Esses dados retratam dezembro de 2025, não uma contagem em tempo real. Também incluem córneas, que são tecidos. Assim, o total não corresponde exclusivamente à espera por órgãos sólidos. site.abto.org.br
A chamada fila de transplantes também não funciona simplesmente por ordem de chegada. Conforme o órgão, entram critérios como compatibilidade, gravidade clínica, tempo de espera e localização. Isso explica por que uma pessoa inscrita mais recentemente pode receber um órgão antes de outra, seguindo as regras técnicas do sistema.
Depois da autorização familiar e das avaliações necessárias, começa uma operação que envolve equipes cirúrgicas, centrais de transplantes e transporte. O tempo entre a retirada e o transplante precisa ser controlado, porque cada órgão suporta um período limitado sem circulação sanguínea.

No Brasil, quem deseja doar após a morte pode começar com uma atitude acessível: contar essa vontade à família. É uma conversa que costuma ser adiada
Quais mitos ainda dificultam essa decisão?
Um dos receios mais conhecidos é o de que os profissionais desistam de salvar alguém por saberem que essa pessoa deseja ser doadora. A manifestação dessa vontade não autoriza interromper tratamentos para obter órgãos. O atendimento busca preservar a vida, e o diagnóstico de morte segue critérios próprios, com separação das equipes envolvidas.
Outro mito é acreditar que idade avançada ou uma doença anterior tornam qualquer doação impossível. A pessoa não precisa se excluir por conta própria: cabe à equipe avaliar o histórico e as condições dos órgãos e tecidos. Pode haver contraindicações, mas elas dependem de análise médica.
Também é comum temer que a retirada impeça a despedida da família. O procedimento é cirúrgico, e a legislação brasileira sobre transplantes determina que o corpo seja recomposto e entregue aos familiares. A doação, por si só, não impede a realização do velório.
A família não paga pelos procedimentos de doação. Isso não significa, porém, que todas as despesas funerárias sejam automaticamente gratuitas. São questões diferentes, que não devem ser confundidas.
A ideia de que uma pessoa pode comprar um órgão ou pagar para passar à frente também precisa ser esclarecida: a compra e a venda de órgãos são crimes, e a distribuição deve obedecer aos critérios do sistema de transplantes.
Existe, ainda, a doação em vida, como a de um rim ou de parte do fígado. Ela exige avaliação cuidadosa da saúde do voluntário, dos riscos e das condições legais. Em regra, a doação para pessoa que não seja cônjuge ou parente consanguíneo até o quarto grau depende de autorização judicial. A medula óssea possui exceção legal a essa exigência.
Falar de solidariedade não dispensa falar de proteção: uma cirurgia de doação em vida tem riscos, e a decisão precisa ser livre e informada. Da mesma forma, quem recebe um órgão continua precisando de acompanhamento e, geralmente, de medicamentos para evitar a rejeição.
O registro da ABTO mostra que a recusa familiar ocorreu em 45% das entrevistas registradas em 2025. Esse dado reforça a importância da informação, mas não autoriza culpabilizar famílias enlutadas. Contraindicações médicas, dificuldades de identificação e outros obstáculos também interferem na concretização das doações.
A doação de órgãos não apaga uma perda nem obriga ninguém a encontrar consolo nela. Seu valor está na possibilidade de ajudar outra pessoa. Para quem deseja fazer essa escolha, o primeiro passo pode acontecer longe de um hospital: em uma conversa tranquila, em casa, deixando claro o que gostaria que fosse feito.