Cueca de renda masculina vira tendência e divide opiniões na internet

Cueca de renda masculina vira tendência e divide opiniões na internet

Modelos combinam transparência, desenhos e diferentes formatos. Preços variam conforme o tecido, a modelagem e a marca.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Uma peça íntima aparece discretamente acima de uma calça de cintura baixa. Bastam algumas fotografias, milhares de compartilhamentos e opiniões de todos os tipos para que algo antes restrito a lojas especializadas se transforme em assunto nacional. Foi assim que a cueca de renda ganhou destaque nas redes sociais brasileiras.

O modelo passou a despertar ainda mais curiosidade depois que o influenciador e dançarino Juliano Floss apareceu usando uma peça rendada em um visual apresentado durante a Semana de Moda de Paris. A combinação, formada por calça de cintura baixa, boina e roupa íntima aparente, dividiu opiniões e provocou comentários sobre estilo, liberdade e masculinidade.

A repercussão ajudou a ampliar as buscas pelo produto e mostrou que a moda íntima masculina está deixando de ser vista apenas como uma questão funcional. Cores neutras, elásticos discretos e tecidos básicos continuam dominando o mercado, mas agora dividem espaço com renda, tule, transparência, estampas e modelagens criadas para quem deseja experimentar algo diferente.

Uma peça de roupa não muda a identidade de quem a usa, mas pode revelar quanto a sociedade ainda tenta controlar a aparência das pessoas.

Se uma renda é suficiente para colocar a masculinidade de alguém em dúvida, talvez a discussão não esteja na cueca, mas na fragilidade das regras que cercam o modo de vestir.

Se uma renda é suficiente para colocar a masculinidade de alguém em dúvida, talvez a discussão não esteja na cueca, mas na fragilidade das regras que cercam o modo de vestir

Como a cueca de renda virou assunto nas redes?

A cueca de renda não surgiu agora. Modelos com transparências e tecidos rendados já eram vendidos havia anos por lojas de moda íntima, marcas independentes e estabelecimentos especializados. O que mudou foi a visibilidade conquistada depois que uma personalidade com milhões de seguidores apareceu usando a peça publicamente.

Em julho de 2026, Juliano Floss publicou fotografias nas quais a roupa íntima rendada ficava aparente acima da calça. O visual rapidamente se espalhou pela internet e recebeu elogios, críticas e comentários bem-humorados. Segundo uma reportagem publicada pelo Terra, a peça usada pelo influenciador chegou a se esgotar após a repercussão.

Parte das críticas não se concentrou na composição do visual, mas em questionamentos sobre a masculinidade e a sexualidade do dançarino. Juliano rebateu os comentários e defendeu que roupas não determinam a identidade de uma pessoa. A reação colocou a cueca de renda no centro de uma discussão que vai muito além do guarda-roupa.

Juliano Floss criou essa tendência?

Embora tenha ajudado a popularizar o assunto no Brasil, o influenciador não criou a roupa íntima masculina rendada. Marcas nacionais e internacionais já produziam cuecas, tangas, jockstraps e outras peças com materiais tradicionalmente associados à lingerie feminina.

Em 2022, por exemplo, a Exame já destacava o crescimento de marcas dedicadas a lingeries masculinas nos Estados Unidos. Essas empresas apostavam em tecidos leves, recortes ousados e propostas que ultrapassavam o universo dos sex shops para entrar no mercado de moda.

O papel de Juliano Floss foi funcionar como uma espécie de amplificador. Quando alguém conhecido utiliza uma peça diferente, o público passa a enxergá-la fora do contexto habitual. A roupa deixa de parecer um produto distante, reservado a um grupo específico, e começa a circular em conversas, vitrines e pesquisas na internet.

Esse processo é comum na moda. Celebridades raramente inventam uma tendência sozinhas, mas podem acelerar sua popularização. Uma fotografia viral também ajuda a transformar um item de nicho em símbolo de uma mudança cultural mais ampla.

Por que a cueca de renda provoca tanta reação?

Durante décadas, a moda íntima destinada aos homens foi apresentada como simples, resistente e prática. Já a lingerie feminina recebeu rendas, bordados, transparências e uma enorme variedade de cores e formatos. Essa divisão criou a impressão de que determinados tecidos possuem gênero, como se a renda fosse naturalmente feminina.

Na realidade, materiais não têm identidade sexual. Eles recebem significados culturais que mudam conforme a época e a sociedade. Até elementos hoje associados ao guarda-roupa feminino, como salto alto, maquiagem e roupas ornamentadas, já fizeram parte da indumentária masculina em diferentes momentos históricos.

O desconforto provocado pela cueca de renda revela, portanto, menos sobre a peça e mais sobre as expectativas aplicadas aos homens. Para algumas pessoas, utilizar algo delicado ou transparente ainda parece incompatível com a masculinidade. Para outras, a roupa representa apenas mais uma possibilidade de estilo.

Se uma renda é suficiente para colocar a masculinidade de alguém em dúvida, talvez a discussão não esteja na cueca, mas na fragilidade das regras que cercam o modo de vestir.

A tendência também acompanha uma transformação na moda masculina. Homens passaram a encontrar mais opções de cores, modelagens, tecidos e propostas visuais. O crescimento das redes sociais ampliou o contato com diferentes estéticas e permitiu que pequenas marcas alcançassem consumidores fora dos grandes centros.

Em Campo Grande, comerciantes ouvidos pelo Campo Grande News afirmaram que modelos transparentes, tangas e jockstraps já possuíam procura antes da repercussão envolvendo Juliano Floss. Na reportagem, as peças eram encontradas por valores entre R$ 70 e R$ 120. Em anúncios compartilhados nas redes, também apareceram opções a partir de R$ 35, embora os preços mudem conforme a loja, o tecido e a modelagem.

Uma peça de roupa não muda a identidade de quem a usa, mas pode revelar quanto a sociedade ainda tenta controlar a aparência das pessoas.

Uma peça de roupa não muda a identidade de quem a usa, mas pode revelar quanto a sociedade ainda tenta controlar a aparência das pessoas

Renda é confortável para usar no cotidiano?

A resposta depende da qualidade e da construção da peça. A renda pode ser macia e respirável, mas modelos produzidos com materiais rígidos, costuras grossas ou tamanhos inadequados podem provocar atrito e desconforto.

Quem deseja experimentar deve observar se a peça possui forro nas áreas de maior contato com a pele, elasticidade adequada e espaço suficiente para não causar compressão. Também é importante conferir as instruções de lavagem, pois tecidos delicados podem exigir sabão suave, água fria e secagem natural.

A aparência, portanto, não deve ser o único critério. Assim como acontece com uma cueca de algodão, o tamanho correto e a qualidade do material influenciam diretamente a experiência. Uma peça bonita, mas mal ajustada, dificilmente será confortável durante várias horas.

Também existem diferentes formatos de cueca de renda. Alguns modelos são semelhantes às cuecas boxer tradicionais e utilizam o tecido rendado apenas em partes da estrutura. Outros possuem transparência maior, cortes cavados ou detalhes decorativos. Isso permite que cada pessoa escolha entre uma proposta discreta ou um visual mais ousado.

A peça pode aparecer parcialmente acima da calça, como ocorreu no visual de Juliano Floss, ou permanecer restrita ao uso íntimo. Em ambos os casos, a decisão pertence a quem veste. Nem toda tendência precisa agradar a todos para conquistar espaço.

A cueca de renda talvez não substitua os modelos tradicionais nem se torne uma unanimidade. Ainda assim, sua popularização mostra que a moda masculina está se permitindo experimentar mais. Entre críticas, curiosidade e peças esgotadas, uma simples roupa íntima acabou revelando como ideias antigas sobre gênero e aparência continuam presentes.

No fim, a pergunta mais interessante não é apenas “você usaria?”. Talvez seja: por que a escolha de uma cueca ainda incomoda tanta gente?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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