China está acabando com os jumentos do Brasil. População já caiu 94%

China está acabando com os jumentos do Brasil. População já caiu 94%

Jumentos do Brasil viram alvo de mercado bilionário. Senado, Justiça e especialistas tentam evitar uma crise ainda maior.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Durante décadas, eles fizeram parte da paisagem do sertão. Carregaram água, alimentos, materiais de construção e ajudaram milhares de famílias a sobreviverem em regiões onde carros e caminhões simplesmente não chegavam. Para muitos nordestinos, os jumentos eram tão importantes quanto qualquer outra ferramenta de trabalho. Agora, porém, os jumentos do Brasil enfrentam uma ameaça que poucos imaginavam.

A população desses animais despencou de forma impressionante nas últimas décadas, e especialistas alertam que a situação pode se tornar ainda mais grave caso medidas de proteção não sejam adotadas rapidamente.

Um animal que ajudou a construir a história do Nordeste brasileiro hoje corre o risco de desaparecer justamente por causa de uma demanda global crescente.

Um animal que ajudou a construir a história do Nordeste brasileiro hoje corre o risco de desaparecer justamente por causa de uma demanda global crescente

Por que os jumentos do Brasil estão desaparecendo?

Os números chamam atenção. Levantamentos de entidades de proteção animal indicam que os jumentos do Brasil passaram de cerca de 1,37 milhão de animais no fim da década de 1990 para aproximadamente 78 mil em 2025.

Isso representa uma redução superior a 94%.

Grande parte dessa pressão está relacionada ao comércio internacional de peles destinadas à produção do ejiao, um produto tradicional utilizado na Ásia e fabricado a partir do colágeno extraído da pele dos animais.

Em algumas regiões do Nordeste, especialmente no Ceará, jumentos abandonados podem ser negociados por valores extremamente baixos. Depois de entrarem na cadeia comercial, suas peles passam por processamento e alcançam valores muito superiores no mercado internacional.

Um animal que ajudou a construir a história do Nordeste brasileiro hoje corre o risco de desaparecer justamente por causa de uma demanda global crescente.

O problema preocupa não apenas defensores dos animais, mas também pesquisadores, órgãos públicos e parlamentares.

Um mercado que cresce mais rápido que a reposição da espécie

Ao contrário de outros animais criados comercialmente em larga escala, os jumentos possuem um ciclo reprodutivo lento.

A gestação dura entre 12 e 13 meses e normalmente resulta em apenas um filhote. Além disso, o animal leva vários anos para atingir maturidade reprodutiva plena.

Isso significa que a reposição natural da população acontece em um ritmo muito mais lento do que a demanda internacional.

Pesquisadores apontam que seria praticamente impossível sustentar uma indústria baseada no abate de milhões de animais sem comprometer seriamente a sobrevivência da espécie.

O abandono também contribui para a crise

Outro fator importante é a perda da função econômica tradicional do jumento.

Com a popularização de motocicletas, veículos utilitários e máquinas agrícolas, muitos proprietários deixaram de utilizar os animais no trabalho rural. Em consequência, o abandono aumentou significativamente.

Muitos desses animais acabam circulando por estradas, sendo recolhidos por órgãos públicos ou entrando em cadeias informais de comercialização.

A discussão vai além da proteção animal. Ela envolve biodiversidade, cultura, economia e a preservação de um dos símbolos mais marcantes do semiárido brasileiro.

A discussão vai além da proteção animal. Ela envolve biodiversidade, cultura, economia e a preservação de um dos símbolos mais marcantes do semiárido brasileiro

O futuro dos jumentos do Brasil está em debate

Diante do cenário preocupante, diversas iniciativas começaram a surgir.

Recentemente, a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado aprovou o avanço de uma proposta para proibir o abate de jumentos em todo o território nacional.

A medida busca preservar uma espécie considerada parte importante do patrimônio histórico, cultural e ambiental brasileiro.

Além disso, decisões judiciais também passaram a restringir o abate em alguns estados, especialmente na Bahia, onde frigoríficos ligados à exportação de derivados dos animais atuavam.

A discussão vai além da proteção animal. Ela envolve biodiversidade, cultura, economia e a preservação de um dos símbolos mais marcantes do semiárido brasileiro.

Os jumentos podem voltar a ser valorizados?

Especialistas acreditam que sim.

Uma das propostas discutidas é o reconhecimento formal do jumento nordestino como raça registrada, o que poderia aumentar seu valor genético e econômico, semelhante ao que acontece com outras linhagens de equídeos altamente valorizadas no país.

Também existem pesquisas que buscam desenvolver alternativas laboratoriais para a produção de colágeno, reduzindo a dependência do uso direto dos animais.

Essas iniciativas podem representar uma nova oportunidade para preservar a espécie sem abrir mão de avanços tecnológicos e econômicos.

Um símbolo do sertão que merece proteção

Poucos animais possuem uma ligação tão profunda com a história do Nordeste quanto o jumento.

Ele esteve presente no transporte de mercadorias, no abastecimento de comunidades isoladas e no cotidiano de gerações inteiras. Sua imagem faz parte da cultura popular, da literatura, da música e da memória afetiva de milhões de brasileiros.

Por isso, a discussão sobre os jumentos do Brasil ultrapassa os números e as estatísticas.

Ela levanta uma pergunta importante: estamos dispostos a perder um dos animais mais emblemáticos da história do país?

A resposta pode definir o futuro de uma espécie que ajudou a construir boa parte da trajetória do sertão brasileiro.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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