Você já reparou como, em muitas casas brasileiras, o cachorro ou o gato deixou de ser apenas “o bichinho da família” e passou a ocupar um lugar quase oficial na rotina da casa? Ele tem ração específica, caminha própria, brinquedos, banho marcado, consulta veterinária, remédio, plano de saúde e, em alguns casos, até aniversário com bolo temático. Parece exagero, mas os números mostram que essa mudança já aparece diretamente no bolso.
Uma pesquisa da consultoria CVA Solutions revelou que os brasileiros destinam, em média, 8% do orçamento familiar com animais de estimação. Na prática, isso significa um gasto médio de R$ 690 por mês com cães e R$ 574 por mês com gatos, considerando despesas como alimentação, higiene, saúde e serviços especializados. O dado ajuda a explicar por que o mercado pet segue crescendo no Brasil mesmo em períodos de aperto econômico.
A frase “pai e mãe de pet” já não é apenas uma brincadeira de internet. Ela traduz uma transformação real no comportamento das famílias. Cães e gatos passaram a ser vistos como membros da casa, companheiros emocionais e parte importante da vida doméstica. E, quando um animal passa a ser tratado como família, ele também passa a entrar na planilha de gastos.
O dado chama atenção porque mostra uma mudança silenciosa: para muitas famílias, o pet deixou de ser despesa secundária e passou a ser prioridade no orçamento.

Uma pesquisa da consultoria CVA Solutions revelou que os brasileiros destinam, em média, 8% do orçamento familiar com animais de estimação
Por que 8% do orçamento familiar com animais de estimação chama atenção?
O impacto de 8% do orçamento familiar com animais de estimação fica ainda mais evidente quando pensamos na quantidade de despesas que já disputam espaço dentro de uma casa. Aluguel, supermercado, transporte, escola, energia, internet, saúde e lazer costumam consumir boa parte da renda mensal. Mesmo assim, os gastos com pets ganharam uma fatia significativa e, em muitos lares, são tratados como praticamente indispensáveis.
Esse comportamento tem relação direta com a forma como os brasileiros passaram a enxergar seus animais. Durante muito tempo, cães ficavam mais restritos aos quintais e gatos circulavam pela casa sem tantos produtos específicos. Hoje, muitos pets dormem no quarto, viajam com os tutores, frequentam creches, usam acessórios personalizados e recebem cuidados preventivos parecidos com os de um integrante humano da família.
A pandemia acelerou esse processo. Com o isolamento social, muita gente passou mais tempo em casa e criou vínculos ainda mais fortes com seus animais. Ao mesmo tempo, muitas famílias adotaram um pet pela primeira vez, buscando companhia em um período marcado por medo, solidão e mudanças bruscas na rotina. Segundo dados citados no levantamento, a busca por adoções chegou a crescer 400% nos primeiros meses de 2020, enquanto o estudo Radar Pet 2021 indicou que cerca de 30% dos animais presentes nos lares brasileiros chegaram durante a pandemia.
Esse novo vínculo emocional também mudou a disposição para gastar. Quando o animal é visto como companhia diária, fonte de afeto e parte da identidade familiar, cortar despesas com ele se torna mais difícil. Por isso, mesmo em momentos de crise, o setor pet costuma demonstrar resistência. O tutor pode reduzir compras pessoais, adiar uma viagem ou economizar em lazer, mas tende a manter a ração, o banho, a vacina e o atendimento veterinário.
Quanto os brasileiros gastam com cães e gatos?
De acordo com a pesquisa da CVA Solutions, os gastos variam conforme o tipo de animal. Os tutores de cães desembolsam, em média, R$ 690 por mês, enquanto os tutores de gatos gastam cerca de R$ 574 mensais. A diferença pode estar ligada a fatores como porte, necessidade de banho e tosa, consumo de ração e frequência de serviços externos.
Entre os donos de cães, a alimentação aparece como uma das principais despesas. O gasto médio mensal com ração chega a R$ 202. Banho e tosa também pesam bastante, com média de R$ 174 por mês. Já entre os tutores de gatos, a ração representa cerca de R$ 158 mensais, sem contar itens como areia higiênica, brinquedos, arranhadores e consultas veterinárias.
Outro ponto importante é o avanço dos planos de saúde pet. A pesquisa aponta que os planos para cães custam, em média, R$ 135 por mês, enquanto os planos para gatos ficam em torno de R$ 125 mensais. Esse tipo de serviço cresceu nos últimos anos porque muitos tutores passaram a buscar previsibilidade financeira diante de emergências veterinárias, que podem custar caro e aparecer de surpresa.
Mesmo assim, o preço ainda é uma barreira. Cerca de 37% dos entrevistados consideram os planos de saúde pet caros demais. Outros 29% dizem não ver necessidade de contratar o serviço. Ao mesmo tempo, existe um dado curioso: entre os tutores que ainda não têm assistência veterinária, 67% afirmaram que adeririam caso a mensalidade girasse em torno de R$ 20. Ou seja, o interesse existe, mas o valor ainda limita a expansão.

Os tutores de cães desembolsam, em média, R$ 690 por mês, enquanto os tutores de gatos gastam cerca de R$ 574 mensais
Como os pets viraram prioridade financeira no Brasil?
A resposta passa por uma mistura de afeto, urbanização, mudança no estilo de vida e transformação do consumo. Em cidades cada vez mais verticais, com famílias menores e rotinas mais solitárias, os animais de estimação passaram a ocupar um espaço emocional muito forte. Para muitas pessoas, o pet é companhia constante, motivo para sair de casa, fonte de rotina e até apoio emocional.
Essa mudança criou um mercado muito mais sofisticado. Antes, o básico era ração, coleira e vacina. Hoje, o universo pet inclui alimentação premium, petiscos funcionais, suplementos, brinquedos inteligentes, roupas, acessórios, creches, hotéis, banho terapêutico, planos de saúde, atendimento especializado e até serviços de estética animal. O resultado é um setor que cresce não apenas em volume, mas também em diversidade.
Os petshops de bairro também ganharam força nesse cenário. Segundo o levantamento, muitos tutores preferem comprar perto de casa, valorizando praticidade, confiança e atendimento personalizado. Diferentemente de outros setores do varejo, em que o comércio digital avançou rapidamente, o mercado pet ainda mantém uma relação forte com a loja física. O tutor gosta de conversar, pedir indicação, escolher o produto na hora e, muitas vezes, ser reconhecido pelo nome do animal.
Essa proximidade ajuda a explicar por que pequenos estabelecimentos continuam relevantes mesmo diante de grandes redes e plataformas online. No mercado pet, a confiança pesa muito. Quem compra ração, medicamento ou produto de higiene para um animal querido quer sentir segurança na escolha.
O mercado pet cresce mesmo com crise?
Sim, e esse é um dos aspectos mais curiosos do setor. O mercado pet brasileiro tem demonstrado capacidade de resistir a períodos de instabilidade econômica porque os animais passaram a ocupar uma posição afetiva muito forte dentro das famílias. Em outras palavras, o gasto com pet não é percebido apenas como consumo. Muitas vezes, é visto como cuidado.
Isso não significa que as famílias não sintam o peso no bolso. Sentem, e bastante. O fato de 8% do orçamento familiar com animais de estimação ser uma média relevante mostra que os pets já competem com outras despesas importantes. Mas também revela que, para muitos tutores, esse gasto é justificado pela presença emocional que cães e gatos têm no cotidiano.
Quando um cachorro ou gato passa a ser tratado como família, o orçamento também muda de lugar. O pet entra na rotina, na casa e na conta do mês.
A tendência é que o setor continue crescendo, especialmente se conseguir oferecer opções mais acessíveis. Planos de saúde com mensalidades menores, serviços personalizados, produtos de custo intermediário e modelos de assinatura podem ampliar ainda mais o mercado. Ao mesmo tempo, a busca por qualidade deve continuar forte, principalmente entre tutores que enxergam o pet como parte essencial da família.
No fim, os números da pesquisa revelam mais do que uma estatística econômica. Eles mostram uma mudança cultural profunda. O Brasil sempre teve uma relação afetiva com animais, mas agora esse afeto ganhou estrutura de mercado, planejamento financeiro e prioridade doméstica.
Cães e gatos deixaram de ser apenas companhia. Viraram parte da rotina, da identidade familiar e do orçamento. E talvez seja justamente por isso que o setor pet segue crescendo mesmo quando a economia aperta. Porque, para milhões de brasileiros, cuidar de um animal não é luxo. É vínculo, responsabilidade e afeto colocado na ponta do lápis.