Mbappé abre mão de receber pela seleção e doa premiações para caridade

Mbappé abre mão de receber pela seleção e doa premiações para caridade

Mbappé une futebol, caridade e responsabilidade social. Jogador criou projetos sociais voltados a jovens e oportunidades.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine vestir a camisa do seu país em uma Copa do Mundo, marcar gols decisivos, levantar uma taça histórica e, depois de tudo isso, decidir que o dinheiro recebido por aquela campanha deveria ir para crianças hospitalizadas. Para muita gente, seria apenas mais uma premiação em uma carreira milionária. Para Kylian Mbappé, virou uma forma de transformar prestígio em responsabilidade.

Desde que explodiu para o mundo com a seleção francesa, Mbappé passou a ser visto não apenas como um atacante veloz, frio diante do gol e decisivo em grandes jogos. Fora de campo, ele também construiu uma imagem ligada a causas sociais, principalmente projetos voltados a crianças, jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade.

A atitude que mais chamou atenção aconteceu na Copa do Mundo de 2018, na Rússia. Na época, Mbappé tinha apenas 19 anos e já era uma das estrelas da França campeã mundial. Segundo reportagens publicadas naquele período, o jogador decidiu doar os valores recebidos pela participação no torneio, incluindo premiações por partidas e bônus pelo título, para a associação Premiers de Cordée.

A entidade francesa promove atividades esportivas gratuitas para crianças hospitalizadas e crianças com deficiência. Mbappé já tinha ligação com a organização antes mesmo da Copa, pois se tornou padrinho da associação em 2017. Isso ajuda a explicar por que a doação não pareceu apenas um gesto de ocasião, mas parte de uma relação mais profunda com a causa.

Para Mbappé, defender a seleção francesa parece ocupar um lugar que vai além do dinheiro: o da honra, da identidade e da responsabilidade pública.

Quando um craque como Mbappé escolhe o que aceita representar, ele mostra que influência também pode ter limite, critério e responsabilidade.

Quando um craque como Mbappé escolhe o que aceita representar, ele mostra que influência também pode ter limite, critério e responsabilidade

Mbappé e a decisão de doar pela seleção francesa

A decisão de Mbappé chamou atenção porque aconteceu dentro de um ambiente em que o futebol movimenta cifras gigantescas. Salários, patrocínios, direitos de imagem, premiações e contratos milionários fazem parte da rotina dos grandes craques. Justamente por isso, abrir mão de valores recebidos pela seleção francesa ganhou peso simbólico.

Reportagens internacionais indicaram que, durante a Copa de 2018, o atacante receberia valores por partida disputada e uma premiação maior pelo título mundial. As estimativas variaram conforme as fontes, mas algumas publicações falaram em algo próximo de 17 mil euros por jogo e um bônus de centenas de milhares de euros pela conquista da taça.

O destino principal foi a Premiers de Cordée, organização que usa o esporte como ferramenta de inclusão, alegria e acolhimento para crianças em tratamento hospitalar ou com deficiência. A lógica é simples e bonita: levar movimento, brincadeira, convivência e autoestima para quem enfrenta uma rotina marcada por cuidados médicos.

Mbappé não escolheu uma instituição aleatória. Ele já participava de ações com a Premiers de Cordée e mantinha proximidade com crianças atendidas pelo projeto. Em visitas anteriores, chegou a participar de atividades esportivas e encontros com jovens, reforçando uma presença que vai além de um cheque assinado.

O gesto que ganhou força na Copa de 2018

A Copa de 2018 foi um divisor de águas na carreira de Mbappé. Ele se tornou campeão mundial, marcou quatro gols no torneio e brilhou na final contra a Croácia. Aos 19 anos, entrou no imaginário do futebol como um dos grandes nomes da nova geração.

Mas, junto com os gols, veio também a repercussão de sua postura fora de campo. A imagem do jovem craque que doa premiações para crianças hospitalizadas contrastava com a visão mais fria e comercial do futebol de elite. Era como se, no auge da celebração, ele lembrasse que a vitória também poderia alcançar quem estava longe dos estádios.

Esse contraste explica por que a história viralizou. O gesto tinha todos os elementos que emocionam o público: juventude, talento, conquista, generosidade e uma causa sensível. Em um esporte frequentemente associado ao luxo, Mbappé apareceu como alguém disposto a direcionar parte do que recebia para quem precisava de apoio.

Isso não significa que o jogador viva fora do mercado. Mbappé tem contratos milionários, patrocínios importantes e uma carreira construída também dentro da lógica comercial do futebol moderno. A diferença está em separar o que considera remuneração profissional daquilo que vê como representação nacional e compromisso social.

Por que a postura de Mbappé vai além do dinheiro?

A história de Mbappé não se resume à doação de 2018. Nos anos seguintes, ele ampliou sua atuação social com a criação da Inspired by KM, associação lançada em 2020 com foco em acompanhar jovens em áreas como educação, esporte, cultura e desenvolvimento pessoal.

O projeto nasceu com uma proposta ambiciosa: ajudar crianças e adolescentes a construir caminhos para o futuro. A ideia não é apenas inspirar pelo exemplo de um jogador famoso, mas oferecer apoio prático, experiências e oportunidades. Mbappé cresceu em Bondy, na periferia de Paris, uma região marcada por diversidade, talento e também desafios sociais. Sua própria trajetória ajuda a explicar por que ele se conecta com esse tipo de iniciativa.

Ao se tornar um dos atletas mais conhecidos do planeta, Mbappé passou a carregar uma influência que ultrapassa o futebol. Para muitos jovens, ele representa possibilidade. Mostra que alguém vindo de uma comunidade distante dos centros tradicionais de poder pode chegar ao topo do esporte mundial.

Essa posição também aumenta o peso de suas escolhas. Quando Mbappé doa, recusa determinadas campanhas ou questiona o uso de sua imagem, ele não está apenas tomando decisões pessoais. Ele está comunicando valores para milhões de pessoas que acompanham sua carreira.

Para Mbappé, defender a seleção francesa parece ocupar um lugar que vai além do dinheiro: o da honra, da identidade e da responsabilidade pública.

Para Mbappé, defender a seleção francesa parece ocupar um lugar que vai além do dinheiro: o da honra, da identidade e da responsabilidade pública

A imagem de Mbappé também virou posicionamento

Outro aspecto importante é a relação de Mbappé com patrocinadores e direitos de imagem. Em 2022, o jogador se recusou a participar de ações comerciais da seleção francesa em meio a uma disputa sobre o uso da imagem dos atletas. A Federação Francesa de Futebol depois informou que revisaria o acordo de direitos de imagem dos jogadores.

O incômodo de Mbappé estava ligado, segundo reportagens da época, à associação de sua imagem a marcas e segmentos com os quais ele não queria se vincular, como casas de apostas e redes de fast-food. Para um jogador acompanhado por crianças e adolescentes no mundo inteiro, esse tipo de decisão passa a ter uma camada moral.

No futebol atual, a imagem de um atleta é um ativo valioso. Ela vende chuteira, relógio, bebida, aplicativo, aposta, camisa, videogame e uma infinidade de produtos. Por isso, controlar onde essa imagem aparece também é controlar a mensagem que ela transmite.

Quando um craque como Mbappé escolhe o que aceita representar, ele mostra que influência também pode ter limite, critério e responsabilidade.

Essa postura não elimina contradições. O futebol de elite continua sendo um ambiente de grandes interesses econômicos. Mbappé também faz parte desse sistema, ganha valores altíssimos e tem uma carreira extremamente lucrativa. Mas talvez seja justamente por estar dentro desse universo que suas decisões chamem tanta atenção.

O que se destaca é a tentativa de usar parte da própria visibilidade para causas que não dependem apenas de performance esportiva. Ajudar crianças hospitalizadas, apoiar jovens de comunidades vulneráveis, discutir publicidade e defender maior controle sobre a imagem são gestos diferentes, mas conectados por uma mesma ideia: o atleta não precisa ser apenas produto.

No fim, a história de Mbappé mostra uma faceta interessante do futebol moderno. Em campo, ele é velocidade, gol e competição. Fora dele, tenta construir uma narrativa de responsabilidade, influência e impacto social. A doação das premiações pela seleção francesa se tornou o símbolo mais conhecido dessa trajetória, mas não é o único.

Para os fãs, talvez o detalhe mais forte seja perceber que uma conquista esportiva pode continuar fazendo efeito depois do apito final. O dinheiro de uma Copa pode virar atividade para crianças hospitalizadas. A fama de um craque pode abrir portas para jovens. Uma recusa publicitária pode iniciar um debate sobre influência.

Mbappé ainda será lembrado por gols, títulos, recordes e decisões. Mas sua história fora de campo também ajuda a explicar por que ele se tornou mais do que um jogador. Em uma era em que o futebol parece cada vez mais dominado por cifras, sua escolha mostra que a grandeza também pode aparecer naquilo que se decide dividir.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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