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historia e origem do halloween

Qual é a origem do Dia das Bruxas? Conheça mitos e verdades da data

Entre festivais celtas, celebrações cristãs e costumes de imigrantes, o Halloween ganhou novas formas ao longo dos séculos.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Uma abóbora iluminada na janela, alguém vestido de fantasma e crianças esperando que a porta se abra. A cena parece resumir o Dia das Bruxas. Mas, se pudéssemos voltar alguns séculos, encontraríamos uma celebração bastante diferente, ligada ao fim das colheitas, à chegada do inverno e às histórias que as pessoas contavam sobre os mortos.

Antes de aparecer nas vitrines e nos filmes de terror, a data atravessou mudanças religiosas, viagens entre continentes e adaptações familiares. Seus costumes não nasceram todos juntos, nem permaneceram iguais desde a Antiguidade. O Halloween que conhecemos é resultado dessa longa mistura.

E algumas das maiores surpresas estão justamente nos detalhes: o nome tem uma ligação cristã, as famosas lanternas nem sempre foram feitas de abóbora e a brincadeira de pedir doces possui antecedentes muito anteriores às embalagens de chocolate.

O Dia das Bruxas carrega marcas de diferentes épocas, como uma história que cada geração conta de um jeito novo.

O Dia das Bruxas carrega marcas de diferentes épocas, como uma história que cada geração conta de um jeito novo

Qual é a origem do Dia das Bruxas?

Uma das principais raízes associadas ao Dia das Bruxas é o Samhain, festival da tradição celta especialmente ligado à Irlanda. Celebrado na passagem de outubro para novembro, marcava o encerramento da temporada de colheitas e a entrada na parte mais escura do ano, com a aproximação do inverno.

Para comunidades que dependiam diretamente da agricultura, essa mudança tinha um peso difícil de comparar com a simples troca de estação no calendário. A disponibilidade de alimentos, o cuidado com os animais e a sobrevivência durante os meses frios faziam parte desse horizonte.

Nas tradições relacionadas ao festival, aquele período também era associado à presença de espíritos e ao encontro entre o cotidiano e o sobrenatural. Fogueiras, reuniões e narrativas sobre seres de outro mundo ajudavam a dar significado à passagem. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos apresenta o Halloween como uma celebração formada por diferentes contribuições culturais, incluindo o Samhain e o calendário cristão.

Isso não significa que as crianças de hoje estejam repetindo exatamente um ritual de dois mil anos. A ligação histórica existe, mas as práticas mudaram. Também é prudente desconfiar de explicações que atribuem uma origem única e perfeitamente documentada a cada máscara, doce ou decoração.

O Dia das Bruxas carrega marcas de diferentes épocas, como uma história que cada geração conta de um jeito novo.

O que o cristianismo tem a ver com o Halloween?

A própria palavra Halloween oferece uma pista. Ela deriva de All Hallows’ Eve, expressão em inglês que significa “véspera de Todos os Santos”. Como o Dia de Todos os Santos é celebrado em 1º de novembro na tradição cristã ocidental, sua véspera corresponde a 31 de outubro.

Aqui cabe corrigir uma confusão frequente: o papa Bonifácio IV não estabeleceu essa celebração em novembro no século XVII. Ele viveu no século VII e esteve ligado à dedicação do Panteão de Roma à Virgem Maria e aos mártires, comemorada em maio.

A associação da festa com 1º de novembro aparece posteriormente, no pontificado de Gregório III, no século VIII. Sua ampliação no calendário ocidental ocorreu no século seguinte, com Gregório IV. A cronologia é descrita em registros históricos reunidos pela Diocese de Scranton.

Ao longo do tempo, celebrações religiosas e costumes populares passaram a compartilhar esse período do ano. Por isso, reduzir o Halloween a uma festa exclusivamente pagã, ou tratá-lo apenas como uma invenção comercial americana, deixa de fora partes importantes de sua formação.

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Nas tradições relacionadas ao festival, aquele período também era associado à presença de espíritos e ao encontro entre o cotidiano e o sobrenatural

Nas tradições relacionadas ao festival, aquele período também era associado à presença de espíritos e ao encontro entre o cotidiano e o sobrenatural

Como o Dia das Bruxas ganhou fantasias, abóboras e doces?

A imagem contemporânea da festa deve muito à circulação de tradições europeias nos Estados Unidos, especialmente com a imigração irlandesa do século XIX. Os costumes atravessaram o Atlântico junto com famílias, histórias e maneiras de celebrar.

Em território americano, essas práticas ganharam novas proporções. Festas comunitárias, desfiles e atividades infantis ajudaram a moldar uma comemoração que, com o tempo, também se tornou atraente para o comércio e para a indústria do entretenimento.

Mas a famosa lanterna com rosto assustador guarda uma surpresa. Antes de as abóboras dominarem a decoração, nabos eram usados para produzir lanternas em tradições das Ilhas Britânicas. O Commonwealth Museum de Massachusetts registra esse costume e sua ligação com histórias sobre a proteção contra espíritos.

Imagine o trabalho de escavar um nabo, desenhar um rosto e iluminar seu interior. A aparência podia ser bem diferente da abóbora sorridente vendida como enfeite. A transformação do material mostra como uma tradição pode conservar uma ideia e, ao mesmo tempo, mudar sua forma.

A brincadeira de pedir alimentos também tem antecedentes diversos. No costume conhecido como souling, pessoas percorriam casas na época das celebrações dos mortos, recebendo alimentos associados a orações pelas almas. O English Heritage registra essa prática e os chamados soul cakes, pequenos bolos distribuídos nessas ocasiões.

Esses antecedentes ajudam a compreender o atual “gostosuras ou travessuras”, mas não devem ser confundidos com uma versão idêntica da brincadeira moderna. O pedido de doces, as fantasias e a participação das crianças foram ganhando suas formas atuais ao longo de diferentes contextos.

E os doces envenenados que aparecem nas histórias?

Nem todos os medos do Dia das Bruxas envolvem fantasmas. Algumas das narrativas mais persistentes falam de desconhecidos que distribuiriam doces envenenados para crianças. A história é assustadora justamente porque transforma um gesto de gentileza em ameaça.

O sociólogo Joel Best, da Universidade de Delaware, investigou relatos desse tipo. Em um texto sobre sua pesquisa, explicou que não havia encontrado, no material analisado, um caso documentado de criança morta ou gravemente ferida por uma guloseima contaminada recebida durante a brincadeira de pedir doces.

Best também distinguiu essa narrativa de um crime real em que um pai envenenou o próprio filho. Um episódio familiar desse tipo não comprova a ideia de uma ameaça disseminada de estranhos distribuindo veneno. O pesquisador foi cuidadoso: seus resultados não demonstram que algo seja impossível, mas contestam a percepção de que seria comum.

Essa diferença revela algo curioso sobre a festa. Enquanto algumas histórias antigas falavam de espíritos à espreita, narrativas modernas passaram a refletir o medo de pessoas desconhecidas. Os personagens mudam, mas o impulso de contar histórias assustadoras continua.

Talvez esteja aí uma das razões pelas quais o Dia das Bruxas permanece tão reconhecível. Ele permite transformar inquietações em personagens, lembranças em rituais e o susto em brincadeira. Atrás de uma máscara comprada às pressas, existe uma história muito maior do que parece.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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