Imagine encontrar um documento antigo com o brasão brasileiro e uma inscrição aparentemente estranha: Estados Unidos do Brazil. A primeira reação poderia ser desconfiar de uma montagem. Afinal, “Estados Unidos” costuma remeter ao país da América do Norte, enquanto “Brazil” com Z parece uma palavra escrita em inglês.
Mas a inscrição faz parte da nossa história. O Brasil realmente adotou uma denominação com “Estados Unidos”, e a grafia com Z aparece em documentos oficiais do início da República. São duas características que hoje causam surpresa, embora tenham explicações diferentes.
O detalhe mais curioso é justamente esse: o país não abandonou o Z e a expressão “Estados Unidos” na mesma ocasião. Uma mudança pertence à história da ortografia; a outra, à organização política e à denominação do Estado brasileiro.

O Brasil realmente adotou uma denominação com “Estados Unidos”, e a grafia com Z aparece em documentos oficiais do início da República
Por que o nome era Estados Unidos do Brazil?
A história começa em 15 de novembro de 1889, com a Proclamação da República. Naquele mesmo dia, o governo provisório publicou um decreto que estabelecia a forma republicana e federativa de governo.
O Decreto nº 1 de 1889, preservado pela Câmara dos Deputados, traz a expressão “República dos Estados Unidos do Brazil” e determina que as antigas províncias, reunidas pela federação, constituiriam os Estados Unidos do Brazil. Portanto, a denominação já estava presente em 1889, antes da Constituição republicana de 1891.
A escolha tinha relação com a transformação pretendida para o país. Durante o Império, o território era dividido em províncias. Com a República, essas unidades passaram à condição de estados, dentro de uma estrutura federativa.
A inspiração norte-americana foi importante nesse processo. Conforme explica o Senado em seu material sobre as constituições brasileiras, a Carta de 1891 adotou o presidencialismo e valorizou o federalismo, ampliando a autonomia das antigas províncias em relação ao modelo imperial.
Isso não significava que o Brasil tivesse se tornado parte dos Estados Unidos da América. A expressão descrevia a ideia de estados unidos em uma federação. Era uma maneira de apresentar, no próprio nome do país, o arranjo político que a República buscava estabelecer.
O nome começou em 1889 ou em 1891?
As duas datas aparecem com frequência porque representam momentos diferentes. 1889 marca a adoção da denominação pelo governo provisório; 1891 marca sua consolidação na primeira Constituição republicana.
Promulgada em 24 de fevereiro de 1891, a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil reafirmou a união das antigas províncias e a organização federativa. Ela deu estrutura constitucional ao regime inaugurado com a queda da monarquia.
Uma comparação ajuda: anunciar uma nova organização e estabelecer detalhadamente suas regras não são necessariamente acontecimentos simultâneos. No caso brasileiro, o decreto veio primeiro e a Constituição, depois.
O nome também permite perceber como documentos oficiais carregam projetos políticos. “Império” remetia à monarquia. “República” anunciava outra forma de governo. “Estados Unidos” destacava a federação. Cada expressão dizia alguma coisa sobre como o poder deveria se organizar.
O antigo nome do Brasil registra uma mudança de regime e uma maneira de imaginar o país.
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O Decreto nº 1 de 1889, preservado pela Câmara dos Deputados, traz a expressão “República dos Estados Unidos do Brazil”
Quando Estados Unidos do Brazil deixou de ser usado?
Para responder com precisão, é necessário separar o nome político de sua grafia. O uso de “Brasil” com S foi fixado no acordo ortográfico de 1931, enquanto a denominação com “Estados Unidos” permaneceu até 1967.
O Decreto nº 20.108, de 15 de junho de 1931, admitiu nas repartições públicas e nos estabelecimentos de ensino a ortografia aprovada pelas academias brasileira e portuguesa, determinando sua adoção nas publicações oficiais. Entre as definições do acordo estava a preferência por “Brasil”, e não “Brazil”.
Isso não significa que ninguém escrevesse Brasil com S antes. As duas formas circulavam, e a padronização buscou resolver essa variação. Também não significa que todas as inscrições antigas tenham desaparecido imediatamente: documentos e objetos preservam a escrita da época em que foram produzidos.
Já a mudança para República Federativa do Brasil ocorreu com a Constituição de 1967, durante a ditadura militar. A publicação original da Constituição de 1967 estabelece, logo no primeiro artigo, que o Brasil é uma República Federativa. A Constituição de 1988 manteve a denominação utilizada atualmente.
Assim, dizer que fomos “Estados Unidos do Brazil” até 1967 pode esconder uma etapa importante: por décadas antes dessa mudança, a escrita oficial já utilizava o S.
Também é simplificador afirmar que o nome foi alterado apenas para evitar confusão com os Estados Unidos da América. Os documentos consultados permitem identificar a mudança constitucional, mas não sustentam essa explicação como sua causa.
Quais outros nomes fazem parte dessa história?
Antes da República, o país independente foi o Império do Brasil, de 1822 a 1889. A Constituição imperial é de 1824, mas a existência do Império não começou apenas com a publicação dessa Carta.
Voltando mais um pouco, em 1815 o Brasil foi elevado à condição de reino e passou a integrar o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Nesse caso, a expressão designava a monarquia composta da qual o território brasileiro fazia parte, antes da Independência.
Há ainda nomes encontrados em relatos e representações dos primeiros tempos da presença portuguesa, como Terra de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz e Terra dos Papagaios. Essas referências não devem ser tratadas automaticamente como nomes oficiais de um país organizado nos moldes atuais.
O mesmo cuidado vale para Pindorama. A expressão associada à “terra das palmeiras” tem presença importante no imaginário sobre o Brasil, mas não deve ser apresentada como um nome nacional único utilizado por todos os povos indígenas. Havia diferentes povos, línguas e formas de reconhecer os territórios.
Outra confusão comum envolve o Monte Pascoal: o nome foi atribuído à elevação avistada pela expedição de Cabral, não a um Estado brasileiro que já existisse naquele momento.
Essas distinções tornam a história mais interessante. Em vez de uma simples lista de trocas de nome, encontramos denominações políticas, referências geográficas, descrições de viajantes e mudanças na própria língua.
É por isso que a inscrição Estados Unidos do Brazil chama tanta atenção. Em poucas palavras, ela reúne o nascimento da República, a influência do federalismo e uma grafia que o português brasileiro deixou para trás. O que parece um erro em um brasão antigo pode ser, na verdade, uma pista sobre a época em que ele foi criado.
