O que está por trás dos protestos na França?

O que está por trás dos protestos na França?

Prefeitura em chamas, comércio saqueado e um governo sem resposta: o que está em jogo?


Luigi Viana
Por Luigi Viana

Imagine acordar em um domingo e encontrar a prefeitura histórica da sua cidade, com 143 anos de existência, parcialmente destruída pelo fogo, o telhado desabado e a torre do relógio no chão. Foi esse o cenário que moradores de Limoges encontraram depois de uma noite de protestos. O prédio, que havia resistido a duas guerras mundiais, não sobreviveu ao fim de semana mais tenso que a França viveu em anos.

O episódio é apenas um retrato de algo maior. Os protestos na França reuniram mais de 500 mil pessoas em dezenas de cidades no sábado (17), segundo o Ministério do Interior, e terminaram com um morto, mais de 500 policiais feridos e prisões na casa dos milhares. Mas, por trás das imagens de fumaça e vitrines quebradas, existe uma pergunta incômoda: o que levou um país inteiro a esse ponto?

O que aconteceu nos protestos na França neste fim de semana?

A maior parte dos manifestantes saiu às ruas de forma pacífica, para reclamar do aumento do custo de vida e dos cortes em serviços públicos. Grupos radicais, porém, aproveitaram a multidão para enfrentar as forças de segurança. Em Paris, os atos começaram sem grandes incidentes e rapidamente se transformaram em confronto, deixando para trás bicicletas queimadas, pichações e comércio destruído. A única morte registrada, também na capital, foi causada por um ataque cardíaco.

Em Bordeaux, um grupo mascarado invadiu a residência do representante do governo local, e o prefeito Thomas Cazenave contou que cerca de cem lojas foram saqueadas. Lille, Marselha e Estrasburgo também amanheceram com operações de limpeza. Balanços posteriores, divulgados já nesta segunda-feira (19), elevaram o número de prisões para cerca de 2.400, e estimativas falam em prejuízos de centenas de milhões de dólares entre danos e furtos.

A prefeitura histórica da cidade foi parcialmente destruída pelo fogo

A prefeitura histórica da cidade foi parcialmente destruída pelo fogo

Como uma revolta de estudantes virou um movimento nacional?

Tudo começou no início do ano letivo de outono, quando estudantes foram às ruas para denunciar escolas precárias, falta de professores em bairros de periferia e perspectivas sombrias de emprego. Mais de 6.000 pessoas já haviam sido detidas nesses protestos e mais de 100 escolas sofreram danos antes mesmo do fim de semana de violência.

Com o passar das semanas, a pauta cresceu. A insatisfação com a inflação, com os preços da moradia e com o corte de gastos públicos se juntou ao movimento estudantil, e o que era um protesto setorial passou a falar por boa parte da população. Manifestações semelhantes por custo de vida e habitação também aconteceram em Portugal, Itália, Bélgica e Espanha, sinal de que o problema ultrapassa as fronteiras francesas.

Mais do que um fim de semana de fogo e saques, a França vive a soma de escolas precárias, bolsos apertados e uma política paralisada.

Por que os protestos na França revelam uma crise mais profunda?

A resposta do governo foi, no mínimo, fragmentada. O presidente Emmanuel Macron condenou a violência e prometeu punir os responsáveis, mas não apresentou medidas concretas em seu pronunciamento. Em seguida, viajou para uma visita de três dias aos países do Golfo. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu falou em “grande confusão” e culpou a extrema esquerda e criminosos comuns. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, chegou a oferecer sua renúncia pela incapacidade da polícia de conter os distúrbios.

A oposição, por sua vez, usou o caos como palanque. Marine Le Pen, que lidera as pesquisas para a eleição presidencial da próxima primavera, ligou a violência à imigração e disse que só uma “mão firme” restauraria a ordem. Jordan Bardella pediu que grupos como os Black Bloc fossem tratados como organizações terroristas. Jean-Luc Mélenchon acusou o governo de abrir as portas para o caos com suas táticas policiais. Cada lado aponta um culpado, e nenhum apresenta saída.

Dívida, declínio e política fragmentada: o que pesa sobre a França?

O pano de fundo é pesado. A economia está estagnada, o investimento caiu cerca de 1% no primeiro semestre e a dívida pública chegou a 119% do PIB, o dobro do limite previsto pela União Europeia. Nesta segunda-feira, investidores nervosos empurraram o rendimento dos títulos franceses de dez anos para 4,9%. Para completar, a França precisará emitir um volume recorde de 340 bilhões de euros em títulos no próximo ano, e as imagens de violência podem afastar turistas, uma de suas principais fontes de receita.

Há ainda o peso do que os franceses chamam de déclinisme, a sensação de que o país perdeu o rumo. Uma pesquisa do instituto Ipsos-BVA mostrou que 85% dos entrevistados acham que a França está em declínio.

Em uma única pesquisa, 98% dos franceses se declararam insatisfeitos com a situação do país.

O centro político, que um dia levou Macron ao poder com uma mensagem de esperança, encolheu. Hoje a aprovação do presidente oscila entre 15% e 17%, e o Parlamento vive paralisado desde as eleições antecipadas de 2024, enquanto Reunião Nacional e França Insubmissa crescem com o descontentamento. Novos atos estão marcados para o próximo fim de semana e sindicatos planejam greves em novembro. Se nada mudar, o inverno que se aproxima pode ser ainda mais longo do que o governo imagina.

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Sobre o autor

Luigi Viana

Luigi é criador de conteúdo e escreve sobre estética clássica, filosofia e o impacto da tecnologia digital na cultura contemporânea.

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