Na costa noroeste da ilha de Java, na Indonésia, encontra-se a metrópole caótica e vibrante de Jacarta, uma cidade com uma população de mais de 10 milhões de habitantes, conforme o Censo de 2020 da Indonésia. Enquanto o mundo testemunha cidades como Veneza, Bangkok e Nova York enfrentando os desafios do aumento do nível do mar, o caso de Jacarta se destaca como uma emergência incomparável.
Jacarta, a segunda maior metrópole do mundo, está lutando contra um problema que remonta à sua história de exploração e urbanização desenfreada. A falta de acesso à água encanada é uma realidade para um em cada três residentes, com apenas 64% da população tendo esse privilégio básico. Como resultado, a cidade cresceu exponencialmente nas últimas décadas, dependendo cada vez mais de águas subterrâneas para sustentar sua economia em expansão.
Essa exploração desenfreada das águas subterrâneas tem um preço alto. Comunidades rurais e assentamentos informais, conhecidos como favelas, enfrentam a falta de infraestrutura básica, levando muitos a cavar poços ilegais para obter água. Esse excesso de extração de água não apenas esgota os aquíferos, mas também enfraquece o solo, contribuindo para o afundamento alarmante da cidade em direção ao mar de Java.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Tóquio revelou que a captação excessiva de água pelas comunidades vulneráveis levou à intrusão de água do mar em partes da cidade, tornando a água subterrânea imprópria para consumo devido à alta salinidade. Além disso, a contaminação por poluentes antrópicos torna ainda mais precária a situação da água potável em Jacarta, com apenas 4% da população tendo acesso a um sistema de esgoto adequado.
O tempo está se esgotando para Jacarta. Especialistas alertam que a cidade tem até 2030 para encontrar uma solução viável para o seu afundamento iminente. O governo está agindo, contratando empresas como a PT Air Bersih Jakarta (ABJ) para expandir o acesso à água encanada, um empreendimento estimado em US$ 1,7 bilhão. No entanto, se essas medidas não forem suficientes, os resultados podem ser catastróficos, com milhões de pessoas enfrentando a perspectiva de deslocamento devido ao afundamento contínuo da cidade e à ameaça crescente das mudanças climáticas.
Jacarta não está sozinha em seus desafios. Como uma das poucas cidades a envolver o setor privado em seu fornecimento de água, ela enfrenta dificuldades logísticas significativas. Com uma rede de distribuição de água obsoleta, estima-se que até 40% da água seja perdida devido a vazamentos e contaminação. Isso leva muitos residentes a recorrer a poços ilegais, exacerbando ainda mais a crise hídrica.
Enquanto Jacarta luta para encontrar uma solução, o governo indonésio está planejando uma medida radical: mudar a capital do país para uma nova cidade em Bornéu. Este projeto ambicioso, estimado em US$ 32,4 bilhões, visa aliviar a pressão sobre Jacarta e criar uma nova centralidade econômica. No entanto, essa mudança não está isenta de controvérsias, com preocupações sobre o impacto ambiental e social da expansão urbana em uma região rica em biodiversidade.
O que está em jogo em Jacarta vai muito além de uma simples crise hídrica. É um lembrete contundente dos desafios enfrentados pelas cidades em um mundo cada vez mais afetado pelas mudanças climáticas e pela rápida urbanização. Enquanto as autoridades buscam soluções de curto prazo, o futuro de Jacarta permanece incerto, lançando uma sombra sobre o destino das megacidades em um mundo em transformação.