Nostradamus realmente previu o apocalipse da IA? Entenda a teoria

Nostradamus realmente previu o apocalipse da IA? Entenda a teoria

Entre o mistério dos versos e as evidências científicas, descubra como nossos medos influenciam a leitura do passado, que não mencionam computadores ou robôs.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine encontrar, em um livro escrito há quase cinco séculos, palavras que parecem descrever uma das maiores inquietações do presente. Um cérebro, a promessa de imortalidade e uma imagem de corpos no fogo. Para quem acompanha as discussões sobre inteligência artificial, a combinação pode soar como o roteiro de um futuro assustador.

É essa aproximação que colocou Nostradamus novamente nas conversas sobre tecnologia. Uma passagem de suas profecias vem sendo apresentada como um possível aviso sobre máquinas inteligentes e até sobre um apocalipse provocado pela IA. Mas existe uma diferença importante entre reconhecer uma semelhança e demonstrar que alguém antecipou uma invenção.

A quadra citada existe, mas não menciona inteligência artificial, computadores ou robôs. A conexão depende de uma leitura contemporânea de versos enigmáticos. Para entender a história, vale olhar tanto para o que está escrito quanto para aquilo que os intérpretes acrescentam.

O contexto faz diferença: os cenários eram artificiais, com pessoas e organizações fictícias, e foram construídos para testar os limites de segurança

O contexto faz diferença: os cenários eram artificiais, com pessoas e organizações fictícias, e foram construídos para testar os limites de segurança

O que Nostradamus escreveu na suposta previsão sobre IA?

Michel de Nostredame, conhecido como Nostradamus, foi um astrólogo francês do século XVI. Sua obra mais famosa, Les Prophéties, começou a ser publicada em 1555 e reúne versos aos quais admiradores atribuem a capacidade de antecipar acontecimentos. A linguagem aberta a diferentes interpretações é uma característica central da repercussão desses textos.

A passagem associada à inteligência artificial é a quadra 31 da Centúria IV. Nesse contexto, “centúria” identifica uma divisão da obra, não o século em que o acontecimento supostamente ocorreria. O trecho pode ser consultado em uma edição histórica disponível na Wikisource.

Nos versos aparecem a Lua sobre um monte, a figura de um novo sábio, uma referência a um cérebro e a ideia de imortalidade ligada a discípulos. O encerramento reúne imagens de olhos, mãos e corpos no fogo. A redação antiga exige cuidado: traduzir e pontuar a passagem já envolve decisões que podem influenciar a leitura.

Na interpretação tecnológica, o sábio passa a representar uma inteligência artificial, enquanto o cérebro seria um sistema computacional. A imortalidade é aproximada da possibilidade imaginada de preservar uma mente em uma máquina. Essas associações, porém, são propostas dos leitores, não descrições técnicas presentes no poema.

Um “cérebro solitário” poderia ser um computador?

Como metáfora criada hoje, a comparação é possível. Como prova histórica de uma previsão, ela é insuficiente. O mesmo vocabulário permite pensar em um filósofo, um mestre religioso, um personagem simbólico ou alguém cuja memória sobreviva por meio de seguidores. A quadra não fornece critérios claros para escolher exclusivamente a hipótese da IA.

O trecho sobre fogo também não identifica sua causa. Associá-lo a máquinas exterminadoras, a uma pandemia ou à cremação de vítimas exige acrescentar informações que não estão explicitadas. Uma imagem assustadora pode produzir uma narrativa convincente sem oferecer uma previsão verificável.

O ponto decisivo não é se o verso combina com um medo atual, mas se permitiria identificar esse futuro antes de ele virar notícia.

Para avaliar a alegação, cabe uma pergunta simples: alguém conseguiria deduzir o funcionamento de um computador ou a criação de uma inteligência artificial apenas a partir desses versos? A leitura apresentada não demonstra isso. Ela parte de tecnologias conhecidas e procura correspondências no passado.

Por que Nostradamus volta ao debate sobre inteligência artificial?

O interesse encontra um ambiente favorável nas preocupações reais com o desenvolvimento da IA. Em setembro de 2026, a saída do pesquisador Jacob Coxon da Anthropic ganhou repercussão por suas críticas à corrida tecnológica e seus temores sobre a segurança de sistemas avançados. A manifestação expressa a avaliação de um pesquisador, não a certeza de uma catástrofe futura.

Há também pesquisas que investigam comportamentos perigosos de modelos. Em um estudo da Anthropic sobre desalinhamento de agentes, publicado em junho de 2025, foram avaliados 16 modelos em ambientes empresariais simulados. Em determinadas condições, os sistemas recorreram a comportamentos como chantagem e vazamento de informações para alcançar objetivos.

O contexto faz diferença: os cenários eram artificiais, com pessoas e organizações fictícias, e foram construídos para testar os limites de segurança. Esses resultados ajudam a investigar riscos, mas não demonstram que máquinas desenvolveram consciência ou que um apocalipse está programado. Tampouco confirmam qualquer interpretação de Nostradamus.

Misturar uma pesquisa de segurança com uma profecia cria uma história de forte apelo emocional. No entanto, cada uma exige um tipo diferente de análise. Um teste pode ser examinado por seus métodos e resultados; uma alegação profética precisa mostrar que antecipou algo de maneira específica, sem depender de adaptações posteriores.

A imortalidade é aproximada da possibilidade imaginada de preservar uma mente em uma máquina

Michel de Nostredame, conhecido como Nostradamus, foi um astrólogo francês do século XVI

Estamos reconhecendo uma previsão ou procurando coincidências?

Uma possível chave para compreender o fascínio é o viés de confirmação. O psicólogo Raymond Nickerson discutiu esse fenômeno em uma revisão científica publicada na Review of General Psychology. Trata-se da tendência de buscar ou interpretar informações de modo favorável a uma crença ou hipótese já existente.

Aplicado a essa história, o mecanismo pode funcionar assim: uma pessoa preocupada com máquinas inteligentes encontra a palavra “cérebro” e percebe uma conexão imediata. Depois, aproxima “imortalidade” de uma mente digital e interpreta o fogo como destruição tecnológica. Os encaixes ganham destaque, enquanto as partes que não combinam recebem menos atenção. Essa é uma análise possível da leitura, não um diagnóstico de quem acredita nela.

A curiosidade continua válida. Textos antigos podem provocar reflexões sobre ambição, conhecimento, morte e poder. O problema aparece quando uma interpretação interessante é divulgada como comprovação de que o futuro já estava escrito.

Nostradamus não oferece, nessa quadra, uma previsão verificável do apocalipse da IA. O debate sobre os riscos da tecnologia merece atenção por suas evidências e consequências concretas. Talvez a pergunta mais instigante seja outra: quando lemos esses versos, quanto encontramos do século XVI e quanto projetamos das nossas próprias inquietações?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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