Falar palavrões e dormir tarde pode estar ligado à inteligência superior

Falar palavrões e dormir tarde pode estar ligado à inteligência superior

Estudos sobre linguagem e sono desafiam estereótipos, mas não permitem medir a capacidade de alguém pelos seus hábitos. Entenda os resultados.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Você conhece alguém que solta um palavrão quando algo dá errado e parece ganhar disposição justamente quando todo mundo começa a sentir sono? Talvez essa pessoa já tenha ouvido que precisa melhorar o vocabulário ou abandonar a “preguiça” de manhã. Mas será que essas avaliações dizem alguma coisa sobre sua inteligência?

Pesquisas sobre linguagem e sono ajudam a questionar algumas dessas impressões. Elas investigaram relações entre a capacidade de produzir palavras, a preferência por determinados horários e o desempenho em testes cognitivos. Os resultados são curiosos, embora estejam longe de oferecer uma fórmula para identificar pessoas mais inteligentes.

O ponto de partida é separar aquilo que os cientistas mediram da interpretação que fazemos no cotidiano. Saber listar palavrões não equivale a usá-los constantemente. Preferir atividades noturnas também não significa passar a madrugada inteira acordado. Essas diferenças mudam bastante a história.

No cotidiano, um palavrão pode aparecer como reação à surpresa, à frustração ou a uma situação inesperada

No cotidiano, um palavrão pode aparecer como reação à surpresa, à frustração ou a uma situação inesperada

Palavrões e inteligência: o que foi realmente estudado?

Uma pesquisa de Kristin L. Jay e Timothy B. Jay, publicada em 2015 na revista Language Sciences, examinou uma ideia popular: a de que recorrer a palavrões revelaria pobreza de vocabulário. O trabalho comparou tarefas de fluência verbal, incluindo a produção de palavras iniciadas por determinadas letras, nomes de animais e expressões consideradas tabu.

No estudo sobre fluência verbal e palavras tabu, os participantes com maior facilidade para gerar palavrões também tenderam a apresentar melhor desempenho em outras tarefas de produção de palavras. O resultado contrariou a suposição de que conhecer essas expressões indica, necessariamente, um repertório linguístico limitado.

Essa é uma conclusão mais específica do que dizer que “quem xinga é mais inteligente”. O experimento avaliou a facilidade de recuperar palavras sob determinadas instruções. Não demonstrou que aumentar a quantidade de palavrões nas conversas melhora a inteligência ou transforma alguém em um comunicador mais competente.

Pense na diferença entre conhecer uma palavra e decidir utilizá-la. Uma pessoa pode reconhecer dezenas de expressões e evitar todas elas no trabalho. Outra pode repetir sempre o mesmo palavrão. Apenas ouvir uma conversa não permite reproduzir a avaliação feita no laboratório.

Conhecer expressões não é o mesmo que usá-las o tempo todo

Outro trabalho, publicado no Journal of Psycholinguistic Research, acrescenta uma peça importante. Em um de seus experimentos, os pesquisadores não encontraram associação significativa entre a fluência em palavrões e a medida de inteligência utilizada, nem entre essa fluência e a frequência de xingamentos relatada pelos participantes.

A pesquisa sobre ativação emocional e fluência em palavrões também observou que um estado de maior ativação emocional podia aumentar a produção dessas palavras. Isso mostra por que contexto e emoção precisam entrar na conversa sobre linguagem.

No cotidiano, um palavrão pode aparecer como reação à surpresa, à frustração ou a uma situação inesperada. Seu significado social depende de para quem foi dirigido, do ambiente e da intenção percebida. Conhecer pesquisas sobre vocabulário não transforma uma ofensa em algo aceitável, assim como evitar palavrões não revela menor capacidade intelectual.

Um hábito isolado não funciona como um teste de inteligência.

Dormir tarde está relacionado a um desempenho cognitivo melhor?

O sono oferece outra descoberta que chama atenção. Pesquisadores do Imperial College London analisaram dados de mais de 26 mil participantes do UK Biobank para investigar relações entre características do sono e resultados em testes cognitivos.

Segundo a divulgação oficial da pesquisa pelo Imperial College London, pessoas que se identificavam como mais ativas à noite apresentaram, em média, resultados superiores aos participantes de perfil matutino. Os testes incluíam habilidades como memória, raciocínio e velocidade de processamento.

A preferência por certos horários recebe o nome de cronotipo. Na pesquisa, ela estava relacionada ao período em que a pessoa dizia se sentir mais alerta e produtiva. Portanto, o resultado não autoriza concluir que atrasar deliberadamente o horário de dormir aumentará sua inteligência.

A própria equipe destacou que a tendência observada entre os grupos não significa que todas as pessoas matutinas tenham desempenho inferior. O estudo também encontrou associação entre dormir de sete a nove horas e melhores resultados cognitivos. Preferência pela noite e duração do descanso são aspectos diferentes.

Imagine duas pessoas que dormem tarde: uma consegue descansar pelo tempo de que precisa; a outra precisa levantar poucas horas depois. Colocá-las na mesma categoria apenas pelo horário de dormir apagaria uma diferença importante. Uma manchete sobre “pessoas noturnas” pode esconder justamente esse tipo de detalhe.

Pessoas que se identificavam como mais ativas à noite apresentaram, em média, resultados superiores aos participantes de perfil matutino

Pessoas que se identificavam como mais ativas à noite apresentaram, em média, resultados superiores aos participantes de perfil matutino

Por que associação não significa causa?

Quando duas características aparecem relacionadas em um levantamento, ainda é necessário investigar como essa relação se forma. Elas podem compartilhar outros fatores, influenciar uma à outra ou refletir particularidades das pessoas estudadas. Observar uma diferença entre grupos não demonstra, por si só, qual mecanismo a produziu.

Por isso, vale fazer três perguntas diante de uma notícia sobre inteligência: o que foi medido, quem participou e qual conclusão o método permite? Um teste de produção de palavras responde a uma pergunta diferente de uma avaliação de memória. Nenhum comportamento cotidiano resume automaticamente todos esses resultados.

Também é preciso evitar a troca de um estereótipo por outro. Questionar a ideia de que pessoas noturnas são preguiçosas não exige classificá-las como intelectualmente superiores. Mostrar que palavrões não revelam necessariamente vocabulário pobre não significa tratar a grosseria como qualidade.

O interesse dessas pesquisas está justamente em complicar julgamentos que pareciam óbvios. Elas convidam a observar melhor, perguntar mais e desconfiar de explicações que transformam um detalhe da rotina em uma definição completa de alguém.

Da próxima vez que uma manchete prometer revelar sua inteligência pelo horário em que você dorme ou pelas palavras que usa, vale olhar além do título. Talvez a descoberta mais útil esteja na distância entre aquilo que imaginamos sobre as pessoas e aquilo que realmente conseguimos demonstrar.

Reportar um erro

Encontrou um erro neste conteúdo? Descreva o problema abaixo e nossa equipe verificará.

Reportar-erro

Compartilhar

Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

Saiba mais

Veja também