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Geração Z prefere pagar alguém a trocar lâmpada ou calibrar pneu

Geração Z prefere pagar alguém a trocar lâmpada ou calibrar pneu

Pesquisa britânica aponta dificuldades com pequenos reparos, mas não permite generalizar o comportamento dos jovens.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

A lâmpada queima, o quarto fica escuro e surge uma decisão aparentemente simples: buscar uma substituta ou chamar alguém para resolver? Para parte dos jovens adultos ouvidos em uma pesquisa britânica, contratar um profissional seria uma opção. A resposta transformou uma situação doméstica comum em uma discussão sobre o que estamos aprendendo a fazer sozinhos.

O levantamento ganhou repercussão ao associar integrantes da geração Z à contratação de serviços para tarefas como trocar lâmpadas, calibrar pneus e instalar palhetas de limpadores. Mas existe uma distância importante entre identificar dificuldades em uma amostra e concluir que uma geração inteira perdeu suas habilidades práticas.

Antes de imaginar milhões de jovens derrotados por uma chave de fenda, vale observar quem respondeu às perguntas, onde a pesquisa aconteceu e o que os números realmente mostram. A história fica mais interessante quando deixa de ser uma disputa entre jovens e idosos e passa a investigar como a autonomia é construída.

A autonomia não vem com o ano de nascimento. Ela depende também das oportunidades de aprender e praticar.

A autonomia não vem com o ano de nascimento. Ela depende também das oportunidades de aprender e praticar

O que a pesquisa revelou sobre a geração Z?

O levantamento foi realizado pela Mortar Research em dezembro de 2024, com 2.012 adultos do Reino Unido, e divulgado pela Halfords em janeiro de 2025. A empresa atua no setor automotivo e de bicicletas, comercializando produtos e serviços relacionados ao tema pesquisado.

Na divulgação original da Halfords, o grupo identificado como geração Z tinha entre 18 e 27 anos. Entre esses entrevistados, 21% disseram que chamariam um profissional para trocar uma lâmpada de teto. Entre os millennials, o percentual foi semelhante: 22%.

Esse detalhe muda a leitura da manchete. A disposição para terceirizar a tarefa não apareceu exclusivamente entre os mais jovens. Além disso, declarar que contrataria alguém não é exatamente o mesmo que demonstrar incapacidade para realizar o serviço.

Outros resultados chamaram atenção: 30% dos participantes da geração Z não identificaram uma chave de fenda de ponta chata, e apenas 34% reconheceram a bateria em uma imagem do compartimento do motor. Sobre calibrar pneus, 57% afirmaram saber fazer a tarefa. Portanto, mesmo nesse exemplo, a maioria declarou possuir a habilidade.

Quanto custa pedir para outra pessoa resolver?

Os jovens estimaram gastar 1.300 libras por ano contratando profissionais para tarefas que consideravam poder realizar com mais conhecimento. Os valores divulgados foram de 386 libras para a geração X e 253 libras para os baby boomers. São estimativas declaradas pelos participantes, e não uma auditoria de suas despesas.

Converter esses valores diretamente em reais pode produzir uma manchete chamativa, mas não revela quanto um brasileiro gastaria com os mesmos serviços. Preços, salários, disponibilidade de profissionais e condições de moradia variam entre países. A conversão também depende da cotação e da data escolhidas.

O dado abre uma discussão sobre conveniência e autonomia financeira. Pagar para resolver um problema pode ser uma escolha consciente, motivada por falta de tempo ou preferência pessoal. Em outras situações, pode representar uma despesa que a pessoa gostaria de evitar, mas não consegue porque nunca aprendeu a executar a tarefa.

A autonomia não vem com o ano de nascimento. Ela depende também das oportunidades de aprender e praticar.

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A geração Z está mesmo perdendo habilidades manuais?

A pesquisa oferece um retrato de respostas em determinado momento. Ela não acompanhou as mesmas pessoas durante décadas e, por isso, não demonstra sozinha uma perda histórica de habilidades. Comparar alguém de 20 anos com alguém de 60 também significa comparar tempos muito diferentes de experiência.

Uma pessoa que já cuidou de várias casas, enfrentou problemas com diferentes veículos e repetiu pequenos consertos durante anos teve mais oportunidades de aprender. Para distinguir experiência acumulada de uma característica geracional, seria necessário investigar como grupos de épocas diferentes se comportavam quando tinham idades semelhantes.

O Pew Research Center ressalta que as fronteiras entre gerações não são uma ciência exata. Essas classificações ajudam a organizar análises, mas diferenças dentro de uma mesma geração podem ser tão relevantes quanto aquelas observadas entre grupos.

Isso significa que dois jovens da mesma idade podem ter relações completamente diferentes com ferramentas. Um pode ter crescido acompanhando reparos e manutenção; outro pode nunca ter participado dessas atividades. São exemplos de trajetórias possíveis, não explicações comprovadas pelo levantamento britânico.

Uma revisão científica publicada no Journal of Business Research também questiona a utilização de rótulos geracionais como explicações abrangentes do comportamento. Os autores destacam dificuldades para sustentar a ideia de grupos homogêneos definidos por características supostamente compartilhadas.

30% dos participantes da geração Z não identificaram uma chave de fenda de ponta chata, e apenas 34% reconheceram a bateria em uma imagem do compartimento do motor

30% dos participantes da geração Z não identificaram uma chave de fenda de ponta chata, e apenas 34% reconheceram a bateria em uma imagem do compartimento do motor

O “faça você mesmo” pode conviver com o “faça para mim”?

Existe uma diferença entre aprender a cuidar de objetos cotidianos e acreditar que toda manutenção deve ser feita sem ajuda. Uma tarefa familiar para alguém pode envolver dificuldades específicas para outra pessoa, dependendo das condições do local, de limitações físicas ou do equipamento.

Também não faz sentido colocar na mesma categoria reconhecer uma ferramenta, trocar uma palheta e executar reparos em uma instalação elétrica. O conhecimento necessário e as consequências de um erro são diferentes. Contratar um profissional pode demonstrar avaliação dos próprios limites.

Para entender a relação da geração Z com o “faça você mesmo”, seria útil investigar acesso a ferramentas, experiência anterior, condições de moradia e oportunidades de aprendizado. Esses fatores precisam ser medidos antes de serem apresentados como causas dos resultados.

No Brasil, os números britânicos não permitem afirmar que exista o mesmo padrão de gastos ou de habilidades. Uma conclusão desse tipo exigiria pesquisa local. Da mesma forma, o levantamento não comprova que o desaparecimento de oficinas escolares explique as respostas dos participantes.

A pergunta mais produtiva talvez seja outra: quais conhecimentos cotidianos estamos transmitindo às pessoas mais novas? A familiaridade com uma tarefa costuma esconder o processo que tornou sua execução possível. Quem hoje resolve um pequeno problema com facilidade também precisou observar, perguntar ou tentar pela primeira vez.

A lâmpada queimada funciona, então, como ponto de partida para uma conversa maior. Mais do que classificar a geração Z como habilidosa ou despreparada, os dados convidam a pensar sobre experiência, escolhas e oportunidades de aprender a lidar com o mundo material.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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