Câmara aprova fim da “taxa das blusinhas”. Como ficam as compras agora?

Câmara aprova fim da “taxa das blusinhas”. Como ficam as compras agora?

Câmara aprova medida, mas decisão final depende do Senado. Compras de até US$ 50 podem continuar livres do imposto federal.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine encontrar uma blusa por R$ 80 em uma plataforma internacional, colocá-la no carrinho e descobrir, segundos antes do pagamento, que o preço final ficou bem maior por causa dos impostos. Essa situação se tornou parte da rotina de muitos brasileiros e ajudou a popularizar uma expressão curiosa: taxa das blusinhas.

O apelido é informal, mas a cobrança é bastante concreta. A chamada taxa das blusinhas corresponde ao Imposto de Importação federal aplicado às compras internacionais de pequeno valor. Desde 2024, encomendas de até US$ 50 passaram a pagar uma alíquota federal de 20%, inclusive quando adquiridas em empresas participantes do programa Remessa Conforme.

Esse cenário começou a mudar em maio de 2026, quando o governo publicou a Medida Provisória 1.357. A norma permitiu reduzir a zero o Imposto de Importação sobre remessas de até US$ 50 e autorizou o Ministério da Fazenda a alterar as alíquotas de encomendas de até US$ 3 mil. Como toda medida provisória, porém, ela precisava ser aprovada pelo Congresso para não perder a validade.

Em 3 de setembro, a Câmara dos Deputados aprovou o texto que mantém o fim da cobrança federal sobre as compras de menor valor. A proposta seguiu para o Senado, que precisa concluir a análise antes do prazo de validade da medida provisória.

A Câmara aprovou o fim da taxa das blusinhas, mas isso não significa que todas as compras internacionais ficarão completamente livres de impostos.

O fim do imposto federal reduz o custo de muitas encomendas, mas não transforma as compras internacionais em operações totalmente isentas.

O fim do imposto federal reduz o custo de muitas encomendas, mas não transforma as compras internacionais em operações totalmente isentas

O que muda com o fim da taxa das blusinhas?

Na prática, o texto aprovado permite manter zerado o Imposto de Importação federal para encomendas internacionais de até US$ 50. Isso inclui produtos populares em plataformas estrangeiras, como roupas, acessórios, eletrônicos, utensílios domésticos e itens de beleza.

A mudança não significa a devolução automática de valores cobrados anteriormente. Ela também não cria uma isenção irrestrita para qualquer tipo de remessa. As compras continuam submetidas às regras aduaneiras, à fiscalização da Receita Federal e aos procedimentos exigidos para a entrada de mercadorias no Brasil.

A medida provisória também autoriza o governo a reduzir para até 30% a alíquota federal aplicada às remessas acima de US$ 50 e de até US$ 3 mil. Essa redução não deve ser interpretada como automática para todos os produtos. O Ministério da Fazenda poderá definir percentuais, critérios e condições dentro dos limites estabelecidos pelo texto.

Outro ponto incluído durante a tramitação trata da importação de medicamentos destinados ao tratamento de doenças raras. Produtos sem equivalente nacional poderão receber tratamento tributário específico, desde que sejam cumpridos os requisitos sanitários e regulatórios.

O texto aprovado ainda prevê mecanismos de rastreamento das encomendas. A intenção é dificultar práticas como o subfaturamento, que ocorre quando o valor declarado de um produto é artificialmente reduzido para diminuir a tributação. Plataformas e empresas que descumprirem as regras poderão sofrer advertências, multas, suspensão ou até proibição de participar do sistema simplificado de importação.

Esses detalhes mostram que o fim da taxa das blusinhas não representa o desaparecimento da fiscalização. Pelo contrário, a proposta combina uma redução do imposto federal sobre pequenas compras com maior controle sobre valores, quantidades e informações declaradas.

O ICMS continuará sendo cobrado

Este é um dos pontos que mais podem causar confusão. Mesmo com o Imposto de Importação federal zerado, as compras internacionais continuam sujeitas ao ICMS, tributo estadual cobrado sobre a circulação de mercadorias.

Isso acontece porque o Imposto de Importação e o ICMS são cobranças diferentes. O primeiro pertence à União e é aplicado na entrada de produtos estrangeiros no país. O segundo é administrado pelos estados e pelo Distrito Federal, conforme as alíquotas e regras válidas em cada localidade.

Portanto, uma blusa de R$ 100 não necessariamente chegará ao consumidor pelo mesmo valor anunciado na plataforma. O preço final ainda poderá incluir ICMS, frete, seguro, variação cambial e outras despesas relacionadas à operação.

A melhor forma de evitar surpresas é observar o detalhamento apresentado antes da confirmação da compra. Plataformas participantes do Remessa Conforme costumam informar o valor do produto e dos tributos no momento do pagamento. Quando essa informação não aparece com clareza, o consumidor deve redobrar a atenção.

O fim do imposto federal reduz o custo de muitas encomendas, mas não transforma as compras internacionais em operações totalmente isentas.

A taxa das blusinhas acabou definitivamente?

Ainda não. A aprovação pela Câmara representa um avanço decisivo, mas o processo legislativo precisa ser concluído. Segundo o Congresso Nacional, a Medida Provisória 1.357 perde a validade em 8 de setembro de 2026 caso sua análise não seja finalizada.

O Senado pode aprovar o texto da Câmara sem alterações, rejeitá-lo ou modificar alguns pontos. Se houver mudanças, a proposta poderá precisar de uma nova análise dos deputados. Depois da aprovação parlamentar definitiva, o texto segue para as etapas seguintes de transformação em lei, incluindo a análise presidencial quando necessária.

Enquanto a medida provisória estiver em vigor, a autorização para zerar o imposto federal continua produzindo efeitos. Entretanto, a consolidação das regras depende da conclusão da tramitação. Por isso, manchetes afirmando que a taxa das blusinhas já desapareceu para sempre simplificam uma situação ainda em andamento.

A própria Câmara dos Deputados explica que a medida permite zerar o tributo federal sobre compras de até US$ 50, mas precisa do aval do Congresso para permanecer válida.

A Câmara aprovou o fim da taxa das blusinhas, mas isso não significa que todas as compras internacionais ficarão completamente livres de impostos.

A Câmara aprovou o fim da taxa das blusinhas, mas isso não significa que todas as compras internacionais ficarão completamente livres de impostos

Por que a medida divide consumidores e varejistas?

Para muitos consumidores, o fim da taxa das blusinhas representa a possibilidade de voltar a comprar produtos baratos no exterior sem o acréscimo de 20% do imposto federal. A mudança pode beneficiar principalmente quem procura itens que são mais caros, raros ou difíceis de encontrar no mercado brasileiro.

O comércio nacional, por outro lado, afirma que a diferença tributária cria uma competição desigual. Empresas instaladas no Brasil precisam cumprir obrigações trabalhistas, ambientais e fiscais, manter estoques locais e arcar com custos logísticos internos. Para representantes do setor, permitir que pequenos produtos estrangeiros entrem sem o imposto federal pode favorecer plataformas internacionais.

A discussão também envolve a indústria. Quando o produto importado chega mais barato, fabricantes brasileiros podem enfrentar maior pressão para reduzir preços. Essa competição pode beneficiar o consumidor em alguns casos, mas também pode afetar empresas e empregos se ocorrer sem condições consideradas equilibradas.

Já as plataformas internacionais argumentam que o acesso a produtos de baixo custo amplia as opções de consumo e atende pessoas que não encontram os mesmos itens no mercado nacional. Para elas, o preço menor nem sempre está ligado apenas à tributação, mas também à escala de produção, à variedade de fornecedores e à estrutura digital das vendas.

Entre o carrinho virtual do consumidor e o estoque de uma loja brasileira, existe uma disputa econômica muito maior do que uma simples blusa. A taxa das blusinhas se tornou símbolo de um debate sobre arrecadação, concorrência, acesso ao consumo e proteção da produção nacional.

A aprovação na Câmara indica que o Brasil pode manter a isenção federal para encomendas de até US$ 50. Ainda assim, o resultado definitivo depende do Senado e das próximas etapas legislativas. Até lá, vale acompanhar não apenas as manchetes, mas também os detalhes, especialmente porque o ICMS continuará aparecendo no preço final de muitas compras.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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