Dirigir com sono pode ser tão perigoso quanto dirigir sob efeito de álcool

Dirigir com sono pode ser tão perigoso quanto dirigir sob efeito de álcool

Dirigir com sono pode ser um perigo invisível. Não existe bafômetro do sono, mas há formas de reconhecer o perigo.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Você entra no carro cedo demais, ainda com a cabeça pesada, os olhos ardendo e aquela sensação de que o corpo está acordado, mas o cérebro ficou na cama. Liga o motor, abre a janela, aumenta o volume da música e tenta convencer a si mesmo de que dá para chegar. Afinal, é só mais um trajeto.

Mas é justamente aí que mora o perigo. Dirigir com sono pode ser muito mais arriscado do que muita gente imagina. A sonolência ao volante não aparece de uma vez, como um aviso luminoso no painel. Ela chega aos poucos: uma piscada mais longa, um bocejo insistente, uma pequena saída da faixa, uma reação atrasada. Quando o motorista percebe, talvez já tenha passado do limite seguro.

Um estudo feito por pesquisadores australianos, publicado na revista Nature and Science of Sleep, analisou evidências de dezenas de pesquisas de laboratório e de campo para entender quanto sono uma pessoa precisa ter antes de dirigir com segurança. A conclusão chama atenção: dormir menos de 4 a 5 horas nas 24 horas anteriores praticamente dobra o risco de acidente.

Esse risco é comparável ao observado em motoristas com 0,05% de álcool no sangue. Em outras palavras, a falta de sono pode afetar o motorista de forma parecida com a bebida, prejudicando atenção, reflexos, tomada de decisão e capacidade de reagir a imprevistos.

O motorista cansado pode até se sentir no controle, mas o cérebro privado de sono reage mais devagar do que ele imagina.

Dormir bem antes de viajar é parte da direção defensiva. Assim como revisar pneus, freios e faróis, o motorista também precisa revisar o próprio estado físico

Dormir bem antes de viajar é parte da direção defensiva. Assim como revisar pneus, freios e faróis, o motorista também precisa revisar o próprio estado físico

Dirigir com sono dobra o risco de acidente?

Segundo a revisão científica, sim. Dirigir com sono aumenta de forma importante a chance de acidente, especialmente quando a pessoa dormiu pouco nas últimas 24 horas. E o risco cresce conforme a quantidade de sono diminui. Alguns estudos avaliados indicam que motoristas que dormiram de zero a quatro horas na noite anterior podem ter risco muito maior de se envolver em uma batida.

Isso acontece porque dirigir exige atenção constante. O motorista precisa controlar velocidade, distância, sinalização, pedestres, retrovisores, mudanças de faixa, buracos, motos, caminhões, semáforos, curvas e decisões rápidas. Tudo isso depende de um cérebro alerta.

Quando a pessoa dorme pouco, o cérebro perde eficiência. A atenção fica instável, os reflexos atrasam, a memória de curto prazo falha e a capacidade de avaliar riscos diminui. O motorista pode não perceber a redução de desempenho porque o cansaço também afeta a autocrítica. Ele acha que está “dando conta”, mas já está mais lento.

O perigo é ainda maior em viagens longas, estradas monótonas, períodos da madrugada, começo da manhã e fim da tarde, horários em que o corpo naturalmente pode sentir mais sono. Nessas condições, uma piscada prolongada pode ser suficiente para o carro percorrer dezenas de metros sem controle real.

Por que sono e álcool parecem tanto no trânsito?

Sono e álcool afetam o trânsito por caminhos diferentes, mas o resultado pode ser parecido. Os dois reduzem a vigilância, pioram a tomada de decisão e atrasam as respostas do corpo. O motorista demora mais para frear, percebe mais tarde um obstáculo e pode calcular mal distância e velocidade.

No caso do álcool, o risco é amplamente conhecido. Campanhas de trânsito, leis mais rígidas e fiscalização tornaram comum a ideia de que beber e dirigir não combinam. Já a sonolência ainda é subestimada. Muita gente não se sente irresponsável por dirigir cansada, porque dormir pouco parece algo normal na rotina moderna.

Pais de recém-nascidos, trabalhadores de turno, profissionais de plantão, estudantes, motoristas de aplicativo, caminhoneiros e pessoas com distúrbios do sono podem enfrentar esse risco com frequência. Nem sempre a privação de sono é uma escolha, mas o volante não faz essa distinção.

O corpo cansado cobra a conta do mesmo jeito.

Como saber se você está cansado demais para dirigir?

O problema da sonolência ao volante é que não existe um “bafômetro do sono” simples na beira da estrada. Ninguém mede com precisão, em segundos, quantas horas você dormiu ou quanto sua atenção está comprometida. Por isso, reconhecer os sinais é essencial.

Bocejar repetidamente, piscar mais devagar, sentir os olhos pesados, ter dificuldade de manter a cabeça erguida, perder trechos recentes do caminho, errar saídas, invadir a faixa ao lado ou passar por cima de marcas sonoras na pista são alertas importantes.

Outro sinal perigoso é tentar se manter acordado com truques improvisados. Aumentar o rádio, abrir a janela, ligar o ar frio ou tomar café pode dar uma sensação temporária de alerta, mas não resolve a causa do problema. Se o cérebro precisa dormir, ele pode vencer a disputa em algum momento.

A melhor resposta é parar em um local seguro e descansar. Em viagens longas, o ideal é planejar pausas, dividir a direção quando possível e evitar sair para a estrada depois de uma noite mal dormida.

Se você está lutando para ficar acordado, já passou da hora de parar de dirigir.

O motorista cansado pode até se sentir no controle, mas o cérebro privado de sono reage mais devagar do que ele imagina.

O motorista cansado pode até se sentir no controle, mas o cérebro privado de sono reage mais devagar do que ele imagina

O que fazer antes de pegar a estrada?

A primeira medida é simples: avaliar o sono antes de ligar o carro. Se você dormiu menos de 5 horas nas últimas 24 horas, especialmente antes de uma viagem longa, o risco aumenta bastante. Nesse caso, vale adiar o deslocamento, pedir carona, usar transporte por aplicativo, ônibus, táxi ou dividir a direção com alguém descansado.

Também ajuda evitar dirigir nos horários em que o corpo costuma sentir mais sono, como de madrugada e no começo da manhã. Para quem trabalha em turno noturno ou sai de plantão, esse cuidado é ainda mais importante. O fim do expediente pode dar sensação de alívio, mas o trajeto de volta para casa pode ser um dos momentos mais perigosos.

Dormir bem antes de viajar é parte da direção defensiva. Assim como revisar pneus, freios e faróis, o motorista também precisa revisar o próprio estado físico. Não adianta o carro estar em ordem se quem dirige está sem condição de reagir.

No Brasil, a legislação não tem uma regra específica que diga quantas horas de sono o motorista precisa ter antes de dirigir. Ainda assim, o Código de Trânsito exige atenção e cuidados indispensáveis à segurança. Também há previsão de infração para quem entrega a direção a alguém que não esteja em condições físicas ou psíquicas de conduzir com segurança.

Na prática, porém, a principal decisão continua nas mãos do motorista. E essa decisão precisa ser tomada antes de o cansaço virar acidente.

O sono é uma necessidade biológica, não uma fraqueza. Ninguém vence o sono na força de vontade por muito tempo. O cérebro pode entrar em microcochilos, pequenos apagões de poucos segundos, sem que a pessoa perceba. Em alta velocidade, poucos segundos bastam para atravessar uma pista, bater em outro veículo ou sair da estrada.

Por isso, dirigir com sono deveria ser levado tão a sério quanto dirigir depois de beber. Nos dois casos, o motorista coloca a própria vida e a vida de outras pessoas em risco.

A pressa, o compromisso, o trabalho e a vontade de chegar não valem mais do que a segurança. Se o corpo está pedindo descanso, talvez a decisão mais responsável seja simples: não dirigir agora.

Porque, no trânsito, dormir pouco não é apenas cansaço. Pode ser um risco invisível viajando no banco do motorista.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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