Das florestas amazônicas às estradas do interior, o Folclore brasileiro possui um gigantesco universo de criaturas e histórias populares. Imagine caminhar sozinho por uma estrada de terra e ouvir um assobio. Primeiro, ele parece distante. Depois, fica mais baixo, quase como se alguém estivesse ao seu lado. Em algumas versões de uma velha história brasileira, isso seria motivo para se preocupar: quando o assobio do Saci parece longe, ele pode estar perto. E quando parece perto, talvez esteja longe.
Em outra parte do país, o perigo poderia surgir de dentro de um rio, assumir a aparência de um homem elegante vestido de branco e desaparecer antes do amanhecer. Em uma floresta, pegadas poderiam apontar para uma direção enquanto a criatura responsável por elas caminhava exatamente para o lado oposto.
Saci, Curupira, Iara e Boto são alguns dos habitantes mais famosos desse gigantesco universo imaginário. Mas o folclore brasileiro é muito maior do que a coleção de personagens que costumamos conhecer durante a infância. Ele reúne histórias, costumes, festas, músicas, crenças, brincadeiras, comidas, expressões e maneiras de compreender o mundo transmitidas entre gerações.
E existe uma data dedicada justamente a esse patrimônio. Em 22 de agosto é celebrado o Dia do Folclore, uma oportunidade para descobrir algumas histórias surpreendentes escondidas por trás das nossas próprias tradições.

As histórias que antes circulavam em cozinhas, fazendas, rodas de conversa e encontros familiares passaram pelo rádio, literatura, quadrinhos e televisão
Por que o Dia do Folclore Brasileiro é em 22 de agosto?
Curiosamente, a origem da data começa longe do Brasil. Em 22 de agosto de 1846, o antiquário inglês William John Thoms publicou uma carta na revista londrina The Athenaeum. Ele procurava uma expressão para substituir termos utilizados até então para falar das tradições e costumes populares.
Thoms combinou duas palavras inglesas: folk, relacionada a povo, e lore, relacionada a conhecimento ou saber. Surgia assim o termo folklore, que poderia ser entendido aproximadamente como “saber do povo”.
Mais de um século depois, o Brasil transformou a data em comemoração oficial. O Decreto nº 56.747, de 17 de agosto de 1965, estabeleceu que o Dia do Folclore seria celebrado anualmente em 22 de agosto em todo o território nacional.
Mas há uma questão importante: folclore não significa simplesmente histórias antigas ou criaturas sobrenaturais.
O folclore funciona como uma memória coletiva: cada geração recebe histórias e costumes, transforma parte deles e os entrega novamente à geração seguinte.
Curupira, Saci e Iara têm histórias mais complexas do que parecem
O Curupira é um ótimo exemplo. Há registros escritos sobre essa entidade desde o período colonial. O jesuíta José de Anchieta já mencionava relatos relacionados ao Curupira no século XVI, mostrando como a figura possui raízes muito anteriores às representações modernas dos livros infantis e da televisão.
Sua característica mais conhecida é também uma ideia brilhante para uma criatura da floresta: os pés apontam para trás. Quem tenta persegui-lo seguindo suas pegadas acaba caminhando na direção errada.
Mas o Curupira não era assustador simplesmente por ser assustador. Em muitas tradições, ele protege a mata e os animais, punindo caçadores e pessoas que exploram a natureza irresponsavelmente. Muito antes de conceitos modernos de preservação ambiental se popularizarem, o imaginário popular já possuía uma entidade sobrenatural que impunha limites à exploração da floresta.
O Saci revela outro aspecto fascinante do folclore brasileiro: a mistura cultural.
A figura que conhecemos atualmente não surgiu pronta. Ao longo do tempo, elementos indígenas, africanos e europeus foram incorporados à personagem. Até a famosa carapuça vermelha encontra paralelos em antigas tradições europeias envolvendo seres sobrenaturais.
Talvez seja justamente por isso que procurar uma única versão “original” do Saci seja tão complicado. A transformação faz parte da história do personagem.
Algo semelhante aconteceu com a Iara. A imagem da bela mulher com cauda de peixe que encanta homens com sua voz parece, à primeira vista, uma tradição indígena preservada intacta durante séculos. A história é mais complexa. Existiam entidades aquáticas nas cosmologias indígenas, mas a representação moderna da Iara também recebeu influências do imaginário europeu e de tradições relacionadas às águas.
Nosso folclore nunca ficou parado.
As lendas do folclore brasileiro tinham funções sociais?
Provavelmente você já ouviu falar do Boto-cor-de-rosa: durante uma festa, um homem desconhecido, bonito e vestido de branco aparece, seduz uma jovem e desaparece misteriosamente antes do amanhecer.
Algum tempo depois, a mulher descobre que está grávida.
Quem era o pai?
Segundo a lenda, era o Boto.
A expressão popular “filho do boto” chegou a ser utilizada em situações nas quais a identidade do pai não era conhecida ou revelada. A história mostra como narrativas fantásticas também podiam oferecer explicações simbólicas para acontecimentos bastante concretos da vida social.

Em 22 de agosto é celebrado o Dia do Folclore, uma oportunidade para descobrir algumas histórias surpreendentes escondidas por trás das nossas próprias tradições
Os monstros também ajudavam a estabelecer regras
Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes do folclore brasileiro. Muitas criaturas aparecem justamente quando alguém ultrapassa determinado limite.
O Curupira pune quem destrói a mata. Outras entidades habitam rios, florestas, estradas e lugares considerados perigosos. Histórias assustadoras também podiam ensinar crianças a evitar determinados locais ou comportamentos.
O medo, portanto, podia funcionar como mecanismo de transmissão cultural.
Era uma espécie de sistema de segurança construído com histórias. Em vez de uma placa dizendo “não entre”, havia algo potencialmente mais convincente:
“Não vá até lá porque tem uma coisa lá dentro.”
E o universo sobrenatural brasileiro vai muito além dos personagens nacionalmente famosos. Existem histórias sobre Matinta Pereira, Mapinguari, Caboclo-d’Água, Anhangá, Cobra Norato, Mãe do Ouro, Corpo-Seco, Cabeça de Cuia e Pisadeira, entre inúmeras outras entidades.
O mais curioso é que uma mesma criatura pode mudar completamente conforme a região. Antes de livros, televisão e internet criarem versões amplamente conhecidas, as histórias viajavam principalmente pela oralidade.
Uma pessoa contava. Outra acrescentava alguma coisa. Alguém esquecia um detalhe. O rio mudava de nome, a floresta passava a ser outra e a criatura ganhava novas características.
Depois de algumas gerações, existiam várias versões da mesma história.
Por isso, procurar uma versão absolutamente “correta” de determinadas lendas pode ser um erro. A própria transformação faz parte do funcionamento do folclore.
E nem a internet acabou com esse processo.
As histórias que antes circulavam em cozinhas, fazendas, rodas de conversa e encontros familiares passaram pelo rádio, literatura, quadrinhos e televisão. Hoje, podem viajar pelo WhatsApp, Instagram ou TikTok.
Isso não significa que qualquer história viral seja automaticamente folclore. Mas o mecanismo é familiar: alguém conta, outra pessoa modifica, milhares repetem e, aos poucos, uma narrativa passa a pertencer ao imaginário coletivo.
No fundo, criaturas fantásticas podem falar sobre questões extremamente humanas: medo, desejo, natureza, sexo, perigo, morte, humor e regras sociais. O folclore brasileiro é também uma maneira de entender como diferentes povos que formaram o país interpretaram aquilo que existia ao redor deles.
Neste Dia do Folclore, talvez exista uma experiência melhor do que simplesmente reler as histórias famosas.
Pergunte à pessoa mais velha da sua família:
“Que história assustava você quando era criança?”
Talvez a resposta seja Saci, Curupira ou Mula-sem-cabeça. Mas existe também a possibilidade de aparecer uma criatura que você nunca ouviu mencionar.
E talvez seja justamente assim que o folclore sobrevive há séculos: alguém contou uma história, outra pessoa resolveu escutar e, algum tempo depois, contou novamente.