Você entra no supermercado para comprar pão, arroz e café… e, no mesmo corredor, encontra uma farmácia completa funcionando ali dentro. Parece uma mudança pequena na rotina, mas a decisão pode alterar a forma como milhões de brasileiros compram medicamentos.
A Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que permite a venda de remédios em supermercados. O texto já havia passado pelo Senado e agora segue para sanção presidencial. Se for sancionado, os supermercados poderão instalar farmácias ou drogarias em suas dependências, desde que cumpram regras específicas.
A proposta reacende um debate antigo no Brasil: ampliar o acesso a remédios significa facilitar a vida do consumidor ou aumentar os riscos da automedicação?

Os supermercados poderão instalar farmácias ou drogarias em suas dependências
Como funcionará a venda de remédios em supermercados?
O projeto não autoriza simplesmente colocar medicamentos nas gôndolas ao lado de biscoitos e produtos de limpeza. A regra determina que a farmácia instalada no supermercado deve funcionar em um espaço físico delimitado, exclusivo e separado das demais áreas.
Na prática, será como ter uma farmácia dentro do supermercado, mas com estrutura própria e independente.
O texto aprovado exige que esse ambiente seja claramente segregado das gôndolas comuns, garantindo que a atividade farmacêutica ocorra em área específica e adequada.
A ideia é ampliar o acesso aos medicamentos sem flexibilizar as exigências sanitárias já previstas na legislação.
Segundo o Conselho Federal de Farmácia, as garantias sanitárias foram mantidas no texto final aprovado.
Será obrigatório ter farmacêutico?
Sim. Um dos pontos centrais da proposta é a obrigatoriedade da presença de farmacêutico durante todo o horário de funcionamento da farmácia instalada para a venda de remédios em supermercados.
Isso significa que não será possível vender medicamentos sem supervisão profissional. A exigência é a mesma aplicada às farmácias tradicionais.
A presença do farmacêutico é considerada essencial para orientar consumidores, esclarecer dúvidas e evitar o uso inadequado de medicamentos.
Medicamentos controlados poderão ser vendidos?
Os medicamentos de uso controlado continuarão sujeitos a regras específicas. Eles só poderão ser entregues após o pagamento e mediante apresentação de receita, seguindo a legislação sanitária já vigente.
Não haverá liberação irrestrita de remédios controlados nas prateleiras.
O projeto mantém as restrições existentes para esse tipo de medicamento, buscando evitar abusos e garantir rastreabilidade.

Os medicamentos de uso controlado continuarão sujeitos a regras específicas
Por que o projeto divide opiniões?
A proposta é defendida por parlamentares e representantes do setor varejista como uma medida pró-consumidor. O argumento principal é que aumentar os pontos de venda pode estimular a concorrência e, consequentemente, reduzir preços.
Mais concorrência, em tese, significa mais opções e possibilidade de economia para quem precisa comprar medicamentos com frequência.
Por outro lado, críticos alertam para o risco de incentivar a automedicação, um problema recorrente no Brasil. Para esses parlamentares, transformar supermercados em pontos de venda de remédios pode reforçar a ideia de que medicamentos são produtos comuns de consumo.
A preocupação central é que a facilidade de acesso leve ao uso sem orientação adequada.
Pode haver redução nos preços?
A lógica econômica sugere que maior concorrência tende a pressionar preços para baixo. Se grandes redes de supermercados passarem a oferecer medicamentos, pode haver disputa direta com farmácias tradicionais.
No entanto, especialistas lembram que o preço dos medicamentos também depende de fatores como indústria farmacêutica, carga tributária, logística e regulação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
Portanto, embora exista potencial de redução de preços, o efeito real só poderá ser medido após a implementação da lei.
O que muda para o consumidor?
Caso o projeto seja sancionado, o consumidor poderá encontrar farmácias dentro de supermercados, o que pode trazer mais comodidade, especialmente em cidades menores ou regiões com menos estabelecimentos farmacêuticos.
A mudança pode facilitar o acesso em horários estendidos, já que muitos supermercados funcionam até mais tarde do que farmácias convencionais.
Por outro lado, será fundamental reforçar campanhas de conscientização sobre o uso responsável de medicamentos.
Medicamento não é produto comum de prateleira. É instrumento de saúde que exige orientação.
Próximos passos
O texto agora aguarda sanção presidencial. Se aprovado, os supermercados interessados deverão se adequar às exigências legais antes de iniciar a venda de medicamentos.
Isso inclui estrutura física separada, contratação de farmacêutico e cumprimento integral das normas sanitárias.
A discussão vai além da economia. Ela envolve saúde pública, comportamento do consumidor e regulação de mercado.
Se sancionada, a nova regra pode mudar a experiência de compra dos brasileiros. Mas o debate sobre acesso versus responsabilidade certamente continuará.