Imagine um país onde algumas regiões enfrentam calor sufocante e seca prolongada enquanto outras lidam com temporais, enchentes e risco de deslizamentos. Agora acrescente a essa equação mosquitos se reproduzindo com mais facilidade, cidades sob pressão e hospitais atentos ao aumento de doenças relacionadas ao clima.
Esse é o cenário que começa a preocupar especialistas diante da possibilidade de um novo El Niño no Brasil, com chance de evoluir para uma versão mais intensa do fenômeno, com as consequências do Super El Niño.
O El Niño acontece quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal, alterando padrões de chuva, temperatura e ventos em várias partes do planeta. No Brasil, seus efeitos costumam ser bem diferentes dependendo da região: seca no Norte e Nordeste, mais chuva no Sul e parte do Sudeste, além de calor extremo em diversas áreas.
O problema é que, em um planeta já mais quente por causa das mudanças climáticas, as consequências do Super El Niño podem ir muito além de um simples verão mais abafado. Elas podem afetar a saúde, a segurança alimentar, a qualidade da água, a circulação de doenças e até a saúde mental de populações atingidas por desastres.
O Super El Niño não é apenas um fenômeno climático. Ele pode funcionar como um amplificador de problemas que o Brasil já enfrenta todos os anos.

O El Niño acontece quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal, alterando padrões de chuva, temperatura e ventos em várias partes do planeta
Quais são as principais consequências do Super El Niño?
As consequências do Super El Niño começam pelo desequilíbrio no regime de chuvas. Em algumas regiões, a chuva pode desaparecer por longos períodos, comprometendo rios, reservatórios, plantações e abastecimento. Em outras, a água pode vir de uma vez só, em forma de temporais intensos, enchentes e deslizamentos.
No Sul e em parte do Sudeste, o fenômeno costuma favorecer chuvas mais fortes. Isso aumenta o risco de alagamentos urbanos, queda de árvores, interrupções de energia, desmoronamentos e contaminação da água. Depois de enchentes, doenças como leptospirose, hepatite e infecções gastrointestinais podem surgir com mais frequência, principalmente quando a população entra em contato com água misturada a esgoto, lixo e urina de ratos.
No Norte e Nordeste, a preocupação é outra. A tendência pode ser de seca mais prolongada, queda no nível dos rios e piora na qualidade da água. Quando há menos água nos rios e reservatórios, mas o despejo de resíduos continua, a concentração de poluentes aumenta. Isso favorece doenças do trato digestivo, dificulta o transporte em áreas ribeirinhas e impacta atividades essenciais como pesca e abastecimento.
Por que a dengue preocupa tanto?
Entre todas as consequências do Super El Niño, uma das mais preocupantes para a saúde pública é o possível aumento das arboviroses, grupo que inclui dengue, zika, chikungunya e febre Oropouche.
O motivo é simples: calor, chuva irregular e água parada formam um ambiente perfeito para mosquitos transmissores, especialmente o Aedes aegypti. Períodos de seca podem levar as pessoas a armazenar água em recipientes. Depois, quando vêm as chuvas, qualquer descuido vira criadouro.
O Brasil já enfrentou, em 2024, a maior epidemia de dengue de sua história após um ciclo de El Niño. Agora, especialistas observam com atenção o avanço do sorotipo 3 da dengue, que circulou pouco nas últimas décadas. Como grande parte da população não tem imunidade contra esse sorotipo, a combinação entre calor intenso, mosquito em expansão e baixa proteção imunológica pode ser perigosa.
Além disso, o aquecimento global permite que o mosquito sobreviva em regiões antes menos favoráveis, como áreas mais frias do Sul do Brasil. Isso amplia o mapa de risco e torna o controle ainda mais desafiador.

Entre todas as consequências do Super El Niño, uma das mais preocupantes para a saúde pública é o possível aumento das arboviroses, grupo que inclui dengue, zika e chikungunya
Como o Super El Niño pode afetar a saúde?
O calor extremo é uma das faces mais diretas do fenômeno. Em dias muito quentes, o corpo precisa fazer esforço extra para manter a temperatura interna equilibrada. Isso aumenta a perda de líquidos, favorece desidratação e pode tornar o sangue mais espesso, elevando riscos cardiovasculares em pessoas vulneráveis.
Crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores expostos ao sol e pessoas em situação de rua estão entre os grupos mais sensíveis. Tontura, confusão mental, fraqueza, exaustão e desidratação são sinais de alerta que não devem ser ignorados.
Mas o El Niño também pode provocar contrastes bruscos. Em algumas regiões, ondas de calor podem ser seguidas por quedas repentinas de temperatura. Esse vai e vem climático sobrecarrega o organismo e pode agravar problemas respiratórios e cardiovasculares.
As consequências do Super El Niño mostram que clima e saúde não são assuntos separados. O que acontece no céu pode terminar nos hospitais.
Queimadas, fumaça e poluição também entram na conta
Em áreas afetadas pela seca, outro risco importante é o aumento das queimadas. A fumaça libera material particulado, um poluente capaz de irritar os pulmões, piorar asma, bronquite e doenças cardiovasculares.
Na Amazônia e em outras regiões vulneráveis, a combinação entre seca, calor e fogo pode gerar impactos enormes. Além de afetar a biodiversidade, a fumaça pode viajar longas distâncias e piorar a qualidade do ar em cidades muito distantes do foco original das queimadas.
O resultado é um efeito em cadeia: menos chuva, mais fogo, mais fumaça, mais problemas respiratórios e maior pressão sobre os serviços de saúde.
Como se proteger dos efeitos do fenômeno?
A proteção depende do tipo de risco. Durante ondas de calor, a recomendação é beber água com frequência, evitar exposição ao sol nos horários mais críticos, usar roupas leves e priorizar alimentos ricos em água, como frutas e verduras. Bebidas alcoólicas, excesso de cafeína e líquidos muito açucarados podem piorar a desidratação.
Em períodos de fumaça, o ideal é reduzir atividades ao ar livre e manter portas e janelas fechadas quando possível. Pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas devem ter atenção redobrada.
Durante chuvas fortes, enchentes e alagamentos, é essencial seguir alertas da Defesa Civil, evitar áreas inundadas, não atravessar correntezas e ficar longe de fios caídos. Quem mora em áreas de risco deve manter documentos e medicamentos em local acessível para uma possível evacuação.
Contra arboviroses, a principal medida continua sendo eliminar água parada. Caixas d’água, vasos, calhas, pneus, garrafas e recipientes esquecidos no quintal podem virar criadouros. A vacinação contra dengue também é uma ferramenta importante dentro dos públicos indicados pelo sistema de saúde.
O possível retorno do El Niño, especialmente se vier em formato mais intenso, ainda depende de confirmação sobre força e duração. Mas a mensagem dos especialistas é clara: o Brasil precisa se preparar antes que os extremos aconteçam.
Porque quando o clima muda, não muda apenas a previsão do tempo. Muda a rotina das cidades, a saúde da população e a capacidade do país de responder a riscos cada vez mais frequentes.