O aroma lembra frutas, o aparelho cabe no bolso e a nuvem desaparece em segundos. Sem cinzeiro ou cheiro de tabaco queimado, o vape pode transmitir uma impressão de leveza. Mas o que parece suave para o olfato não é necessariamente inofensivo para os pulmões.
Pesquisas recentes identificaram metais tóxicos em dispositivos descartáveis, menor capacidade de exercício entre usuários e possíveis alterações na resposta inflamatória pulmonar. Esses resultados ajudam a desmontar a ideia de que o cigarro eletrônico produz apenas um vapor sem consequências.
A dúvida aparece quase imediatamente: o vape é mais prejudicial que o cigarro convencional? A resposta exige observar o que cada estudo mediu. Encontrar maior emissão de uma substância ou determinada alteração biológica não comprova, sozinho, que todos os dispositivos provoquem mais doenças ou mortes que o tabaco queimado.
Essa distinção permite comunicar os riscos com precisão. Quem nunca fumou não tem motivo para começar. Para quem já fuma, as descobertas devem incentivar a busca por ajuda para abandonar o tabagismo, sem transmitir a mensagem equivocada de que continuar no cigarro seria uma escolha mais segura.

Por isso, a pergunta “qual é pior?” precisa vir acompanhada de outras: qual dispositivo, qual substância, qual frequência de uso e qual consequência está sendo avaliada?
O que os estudos revelam sobre vape e pulmões?
Em 2025, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis investigaram metais liberados por cigarros eletrônicos descartáveis. O trabalho, publicado na ACS Central Science, analisou sete tipos de dispositivos de três marcas e encontrou emissões preocupantes de chumbo, níquel e antimônio.
Segundo a divulgação da pesquisa pela UC Davis, um dos aparelhos produziu, na estimativa de consumo diário utilizada pelos pesquisadores, mais chumbo do que quase 20 maços de cigarros convencionais. Em alguns dispositivos, as emissões aumentavam conforme o equipamento era usado.
O número impressiona, mas seu significado precisa acompanhar a manchete: a comparação é sobre chumbo, não sobre um dano total equivalente a fumar 20 maços. O estudo mediu emissões e estimou riscos toxicológicos. Não acompanhou usuários durante anos para comparar a ocorrência de câncer, enfisema ou mortes.
Também não é possível estender o resultado de um aparelho a todos os produtos. Composição do líquido, materiais internos e condições de funcionamento podem modificar a exposição. Essa diversidade é justamente uma dificuldade para avaliar o universo dos cigarros eletrônicos como se fosse um único produto.
Uma emissão maior de determinada substância é um alerta importante. Ela não resume todos os riscos de um produto.
Menor fôlego mesmo entre jovens aparentemente saudáveis
Um estudo publicado na ERJ Open Research, em 2026, avaliou 75 adultos de 18 a 30 anos. Os participantes foram divididos em três grupos: 25 usuários de vape, 25 fumantes de cigarros convencionais e 25 pessoas que não utilizavam nenhum dos dois.
Durante testes em bicicleta, os pesquisadores observaram menor capacidade de exercício entre usuários de cigarros eletrônicos e fumantes, em comparação com o grupo de controle. Também foram identificadas alterações na função vascular e na eficiência da ventilação durante o esforço.
O resultado chama atenção porque os participantes eram jovens e considerados saudáveis. Uma avaliação em repouso pode não revelar todas as dificuldades que aparecem quando o organismo precisa aumentar a oferta de oxigênio durante uma atividade física.
Entretanto, o tamanho da amostra e o desenho da pesquisa impõem limites. Comparar grupos em um momento não mostra toda a evolução de cada participante nem estabelece, por si só, uma relação de causa e efeito. Desempenho semelhante em um teste também não significa risco idêntico de doenças ao longo da vida.
Outra investigação, publicada em 2025 na Frontiers in Immunology, examinou camundongos expostos ao aerossol de cigarro eletrônico. Após receberem um estímulo inflamatório bacteriano chamado LPS, os animais previamente expostos apresentaram maior inflamação e dano pulmonar.
O experimento sugere um possível mecanismo pelo qual o vape poderia agravar a resposta a uma agressão posterior. Mas foi realizado em animais, sob condições controladas, e não demonstrou que o produto seja mais prejudicial que o cigarro convencional em seres humanos.
Para quem já fuma, o vape é necessariamente pior?
Não é isso que as evidências apresentadas permitem concluir. O cigarro convencional envolve combustão e exposição a uma mistura de substâncias nocivas. Segundo o CDC, o aerossol dos cigarros eletrônicos geralmente contém menos compostos prejudiciais que a fumaça do cigarro, embora continue carregando agentes tóxicos e partículas capazes de alcançar regiões profundas dos pulmões.
O órgão reconhece um possível benefício para adultos fumantes não gestantes quando o cigarro eletrônico substitui completamente os produtos fumados. Isso não significa que o vape seja seguro, recomendado para todos ou adequado para quem nunca fumou.
Também é diferente de alternar os dois produtos. Acrescentar o dispositivo à rotina enquanto mantém o cigarro preserva a exposição à fumaça da combustão. O uso combinado não é uma forma eficaz de proteger a saúde.
Por isso, a pergunta “qual é pior?” precisa vir acompanhada de outras: qual dispositivo, qual substância, qual frequência de uso e qual consequência está sendo avaliada? Toxicidade de uma emissão, desempenho físico e risco de doença após décadas são questões relacionadas, mas não intercambiáveis.

A nuvem aromatizada pode transportar substâncias tóxicas, e seus efeitos não se limitam ao cheiro ou à sensação imediata
Parar de fumar e segurança são perguntas diferentes
A revisão Cochrane sobre cigarros eletrônicos para cessação do tabagismo encontrou evidência de alta certeza de que produtos com nicotina aumentam as taxas de abandono do cigarro em comparação com a terapia de reposição de nicotina.
Esse resultado trata da capacidade de ajudar pessoas a parar de fumar. Não demonstra ausência de riscos após décadas de uso. Os autores ressaltam a necessidade de pesquisas maiores e mais longas para avaliar efeitos indesejados, e os resultados com produtos regulados não podem ser automaticamente transferidos para qualquer dispositivo vendido informalmente.
Para quem deseja abandonar o cigarro no Brasil, o SUS oferece tratamento do tabagismo. Procurar uma Unidade Básica de Saúde permite conhecer o atendimento disponível, que pode combinar acompanhamento e medicamentos, conforme avaliação profissional.
O conjunto das pesquisas oferece motivos concretos para levar o vape a sério: a nuvem aromatizada pode transportar substâncias tóxicas, e seus efeitos não se limitam ao cheiro ou à sensação imediata. Ao mesmo tempo, informar corretamente exige preservar os limites de cada descoberta.
Para quem nunca fumou, evitar começar é a escolha mais protetora. Para quem já usa algum desses produtos, buscar apoio para interromper o consumo é mais útil do que transformar uma comparação incompleta em justificativa para continuar. A saúde pulmonar merece uma discussão que vá além da aparência do aparelho e do sabor da próxima tragada.