Imagine aquela cena clássica de boteco brasileiro. Uma porção de torresmo chega à mesa ainda estalando, dourada e crocante, acompanhada de limão e conversa animada. O aroma é irresistível. Agora imagine alguém olhando para aquela travessa e dizendo que aquilo ali pode ter mais proteína que suplementos como whey protein.
Parece exagero? Pois essa comparação viralizou nas redes sociais e levantou uma dúvida curiosa: será que o torresmo tem mais proteína mesmo?
A resposta não é tão simples quanto parece. O torresmo realmente possui proteína e até colágeno. Mas quando olhamos mais de perto para o que a ciência diz sobre nutrição, o cenário fica um pouco diferente.

Parece exagero? Pois essa comparação viralizou nas redes sociais
O torresmo tem mais proteína mesmo?
Do ponto de vista estritamente numérico, o torresmo até impressiona. Em média, 100 gramas de torresmo podem conter cerca de 30 gramas de proteína. Esse valor pode parecer alto e, em alguns casos, chega a se aproximar de certas quantidades encontradas em alimentos proteicos.
Grande parte dessa proteína vem do colágeno presente na pele do porco, que é a matéria-prima principal do torresmo.
No entanto, essa informação isolada não conta toda a história nutricional do alimento.
Ter proteína em um alimento não significa que ele seja automaticamente uma boa fonte nutricional para consumo frequente.
O problema é que a mesma porção que fornece proteína também costuma trazer cerca de 35 gramas de gordura, além de quantidades significativas de sódio.
Ou seja, apesar de ser verdade que torresmo tem mais proteína em termos absolutos do que muita gente imagina, essa proteína vem acompanhada de um pacote calórico e gorduroso bastante elevado.
Por que comparar torresmo com whey pode ser enganoso?
Suplementos como whey protein foram desenvolvidos especificamente para fornecer proteína de forma concentrada e com poucos outros nutrientes associados.
Em geral, o whey oferece:
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Alta concentração de proteína
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Baixo teor de gordura
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Pouco sódio
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Perfil completo de aminoácidos essenciais
Já o torresmo segue uma lógica completamente diferente. Ele é um alimento tradicional da culinária brasileira, feito a partir da pele suína frita, e não foi pensado como suplemento alimentar.
A proteína presente nele também possui perfil de aminoácidos diferente, com menor quantidade de aminoácidos essenciais importantes para recuperação muscular.
Isso significa que, mesmo que torresmo tenha mais proteína do que parece, sua utilidade nutricional para quem busca ganho muscular ou recuperação física não se compara à de suplementos proteicos.

O torresmo não precisa ser tratado como vilão absoluto
E o colágeno do torresmo faz bem para a pele?
Outra comparação comum nas redes sociais envolve o colágeno. Como o torresmo é feito da pele do porco, muitas pessoas assumem que ele poderia ajudar diretamente na saúde da pele ou das articulações.
A realidade é um pouco mais complexa.
Quando ingerimos colágeno, o organismo não o utiliza diretamente. O corpo primeiro quebra essa proteína em aminoácidos durante o processo digestivo.
Depois disso, ele decide onde utilizar esses aminoácidos conforme as necessidades metabólicas do momento.
O corpo não direciona automaticamente o colágeno ingerido para pele ou articulações.
Ou seja, comer torresmo não garante nenhum benefício específico para a pele ou para produção de colágeno no organismo.
Então o torresmo é saudável ou não?
A resposta mais equilibrada é que o torresmo não precisa ser tratado como vilão absoluto, mas também não pode ser visto como alimento funcional.
Ele é um petisco tradicional, saboroso e culturalmente importante em muitas regiões do Brasil. Consumido ocasionalmente, dentro de uma alimentação equilibrada, dificilmente será um problema para pessoas saudáveis.
O cuidado surge quando ele passa a fazer parte da rotina alimentar com frequência.
O motivo principal está na combinação de fatores como:
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Gorduras saturadas
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Alta densidade calórica
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Quantidade elevada de sódio
Esses elementos, quando consumidos em excesso, podem contribuir para aumento de colesterol e maior risco cardiovascular ao longo do tempo.
Afinal, torresmo tem mais proteína?
A conclusão é curiosa.
Sim, torresmo tem mais proteína do que muitas pessoas imaginam. Mas isso não significa que ele seja uma boa alternativa para substituir suplementos ou fontes de proteína mais equilibradas.
Ele continua sendo, acima de tudo, um petisco tradicional da culinária brasileira, que pode aparecer na mesa de vez em quando para matar a vontade.
Só não vale transformar a porção de boteco em estratégia nutricional.
Porque quando o assunto é saúde, contexto sempre importa mais do que números isolados.