Publicidade de bets terá alerta semelhante ao de cigarros e bebidas

Publicidade de bets terá alerta semelhante ao de cigarros e bebidas

O recado do governo é que a publicidade de bets não pode vender emoção esportiva como se fosse promessa de renda.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Você está assistindo a um jogo decisivo, o narrador aumenta o tom de voz, a tela mostra estatísticas, odds, bônus e promessas de chance imperdível. Em poucos segundos, a emoção do esporte se mistura com a vontade de apostar. Foi exatamente esse ambiente, cada vez mais comum nas transmissões esportivas, redes sociais e vídeos de influenciadores, que entrou na mira do governo.

A publicidade de bets no Brasil vai passar a ter novas regras, com advertências obrigatórias do Ministério da Fazenda. A ideia lembra o modelo usado em propagandas de produtos sensíveis, como cigarros e bebidas alcoólicas: antes de vender a experiência, o anúncio precisa deixar claro o risco.

Entre as frases previstas estão alertas como “Apostar faz você perder dinheiro”, “Apostar pode causar dependência” e “Aposta não é investimento”. A mudança tenta atacar um dos pontos mais criticados do mercado de apostas online: a forma como parte das campanhas vende a aposta como oportunidade financeira, entretenimento inofensivo ou caminho rápido para resolver problemas de dinheiro.

O governo também quer impedir práticas que induzam o consumidor ao erro. Isso inclui criar senso de urgência, exibir ganhos como isca, usar históricos de premiação para sugerir que vencer é mais fácil do que parece e apresentar apostas como solução para famílias endividadas.

A nova regra tenta deixar uma mensagem clara: aposta não é investimento, não é salário extra e não deve ser vendida como saída financeira.

O recado do governo é que a publicidade de bets não pode vender emoção esportiva como se fosse promessa de renda.

O recado do governo é que a publicidade de bets não pode vender emoção esportiva como se fosse promessa de renda

Publicidade de bets: o que muda nas propagandas?

A principal mudança é a obrigatoriedade de advertência em toda publicidade de bets. Isso significa que anúncios em TV, rádio, internet, redes sociais, transmissões esportivas, plataformas digitais e campanhas com influenciadores terão que trazer mensagens explícitas sobre os riscos das apostas.

Na prática, a propaganda deixa de ser apenas uma chamada para apostar e passa a carregar também um aviso institucional. O objetivo é reduzir a sensação de que apostar é uma atividade sem consequências. Afinal, a aposta online envolve perda de dinheiro, risco de dependência e impacto financeiro real.

Outro ponto importante é a proibição de apresentar bets como investimento. Essa vedação é essencial porque, nos últimos anos, muitas campanhas passaram a usar uma linguagem parecida com a do mercado financeiro. Termos como “estratégia”, “renda extra”, “gestão de banca” e “oportunidade” ajudaram a criar uma zona confusa entre aposta, entretenimento e promessa de ganho.

A nova regra também mira a urgência artificial. Frases que pressionam o usuário a apostar imediatamente, aproveitar um bônus antes que acabe ou entrar em uma rodada “imperdível” podem ser enquadradas como práticas problemáticas. A lógica é simples: quanto mais emocional e apressada a decisão, maior a chance de o consumidor agir sem avaliar o risco.

Por que os alertas lembram cigarro e bebida?

A comparação com cigarro e bebida aparece porque o governo quer aproximar a publicidade de bets de um modelo de comunicação com advertência obrigatória. Em produtos associados a riscos de saúde ou dependência, o anúncio não pode apenas seduzir. Ele também precisa informar.

No caso das apostas, o risco não é físico da mesma forma que no cigarro, mas pode ser psicológico, financeiro e familiar. O jogo problemático pode levar a endividamento, ansiedade, isolamento, conflitos domésticos e perda de controle sobre o próprio dinheiro.

Por isso, as frases escolhidas são diretas. Não dizem apenas “aposte com moderação”. Elas afirmam que apostar pode causar dependência, faz perder dinheiro e não deve ser tratado como investimento. É uma comunicação mais dura, justamente para quebrar a ideia de que a aposta é sempre uma brincadeira leve.

Essa mudança também responde a uma preocupação social crescente. O avanço das bets no Brasil foi muito rápido. Em pouco tempo, marcas de apostas passaram a aparecer em camisas de times, placas de estádio, transmissões, podcasts, vídeos curtos, lives e perfis de influenciadores. A presença ficou tão intensa que, para muita gente, esporte e aposta passaram a parecer quase inseparáveis.

Influenciadores e comentaristas entram na mira

As novas regras também miram a atuação de comentaristas, especialistas, narradores e influenciadores. O governo quer impedir que pessoas com autoridade pública ou técnica usem essa credibilidade para induzir o público a apostar em determinado resultado, mercado ou plataforma.

Isso é especialmente relevante em transmissões esportivas. Quando um comentarista diz que uma aposta parece “boa”, “segura” ou “óbvia”, o público pode interpretar aquilo como uma recomendação com respaldo técnico. O problema é que apostas sempre envolvem risco, mesmo quando baseadas em estatísticas, histórico de times ou análise de desempenho.

A regra tenta separar informação de incentivo. Um especialista pode comentar sobre o jogo, analisar escalações, desempenho, tática e probabilidade esportiva. O que não pode é transformar essa análise em estímulo comercial para que o espectador aposte dinheiro.

Influenciadores também entram nesse cenário. Se uma empresa contratar um criador de conteúdo e a publicidade for irregular, a responsabilização pode atingir a própria bet. Além disso, o conteúdo pode ser derrubado. A medida tenta evitar que marcas terceirizem mensagens abusivas para perfis pessoais, usando linguagem informal para contornar restrições.

A nova regra tenta deixar uma mensagem clara: aposta não é investimento, não é salário extra e não deve ser vendida como saída financeira.

A nova regra tenta deixar uma mensagem clara: aposta não é investimento, não é salário extra e não deve ser vendida como saída financeira

Quais punições podem ser aplicadas?

As penalidades anunciadas incluem multas que podem chegar a 20% do faturamento da empresa de apostas, suspensão da autorização por até 180 dias e, em casos graves de reincidência, cassação da autorização para operar no mercado brasileiro.

Também há previsão de punições no campo do direito do consumidor para quem veicular publicidade irregular. Segundo as informações divulgadas, multas relacionadas a publicidade abusiva podem chegar ao teto previsto para esse tipo de infração.

Outro eixo da fiscalização envolve bets ilegais. Empresas sem autorização continuam proibidas de anunciar, e veículos de comunicação não podem veicular publicidade de plataformas irregulares. O governo informou que já derrubou dezenas de milhares de sites, aplicativos e plataformas ilegais, além de perfis de influenciadores ligados a esse mercado.

O recado do governo é que a publicidade de bets não pode vender emoção esportiva como se fosse promessa de renda.

A mudança acontece em um momento em que o Brasil ainda tenta organizar um mercado que cresceu muito antes de estar plenamente regulado. As apostas de quota fixa foram autorizadas no país em 2018, mas passaram anos funcionando em um ambiente com regras incompletas. Depois, o Congresso aprovou uma legislação mais ampla, e o Ministério da Fazenda criou estruturas específicas para autorizar, fiscalizar e sancionar o setor.

Esse histórico ajuda a entender por que a publicidade se tornou um problema central. Quando as bets se popularizaram, elas ocuparam rapidamente espaços de visibilidade. Times, campeonatos, narradores, influenciadores e criadores de conteúdo passaram a fazer parte da engrenagem. Para o consumidor, muitas vezes ficou difícil separar entretenimento, torcida, conselho técnico e propaganda.

As novas regras tentam colocar freio justamente nessa mistura. Aposta pode continuar sendo oferecida por empresas autorizadas, mas com limites mais claros sobre como ela pode ser anunciada. O objetivo é reduzir mensagens que normalizam o risco, romantizam ganhos ou estimulam o jogo em pessoas vulneráveis.

A publicidade de bets, portanto, entra em uma nova fase no Brasil. Não basta aparecer, patrocinar e prometer emoção. Agora, os anúncios também terão que avisar que apostar envolve perda, dependência e não deve ser confundido com investimento.

No fim, a discussão vai além das empresas de apostas. Ela fala sobre como a sociedade lida com produtos que podem causar dano quando promovidos sem cuidado. O esporte continuará existindo sem aposta. A diversão também. Mas, se a propaganda insiste em transformar cada lance em uma oportunidade financeira, o alerta precisa aparecer com a mesma força da promessa.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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