Durante décadas, ouvir música fora de casa significava escolher uma fita cassete, encaixá-la em um pequeno aparelho preso à cintura e apertar um botão mecânico. Não havia tela, playlist infinita ou algoritmo tentando adivinhar a próxima música. Para trocar de faixa, era preciso avançar a fita, esperar alguns segundos e torcer para parar no ponto certo.
Essa experiência, que parecia definitivamente substituída pelos CDs, arquivos MP3 e plataformas de streaming, está voltando. Agora, porém, os antigos toca-fitas portáteis retornam acompanhados por tecnologias atuais, como conexão Bluetooth, bateria recarregável e carregamento por USB-C.
O aparelho que ganhou repercussão recentemente é um toca-fitas portátil da Maxell, empresa japonesa historicamente ligada à fabricação de fitas cassete. Embora muita gente esteja chamando o produto de “novo Walkman”, não se trata, até o momento, de uma reedição oficial do clássico aparelho da Sony. “Walkman” acabou se tornando uma forma popular de se referir a esse tipo de equipamento, mas o lançamento atual pertence à Maxell.

A fita cassete está retornando com outra função. Ela aparece como uma reação à sensação de que tudo se tornou invisível, instantâneo e descartável
Um toca-fitas de verdade, mas adaptado ao presente
A proposta não é apenas criar um dispositivo com aparência retrô. O novo aparelho reproduz fitas cassete de verdade, utilizando botões físicos para iniciar, parar, avançar e rebobinar a gravação.
A diferença é que o usuário não precisa mais depender exclusivamente daqueles fones de ouvido com fio e espumas coloridas que marcaram os anos 1980 e 1990. O aparelho possui Bluetooth, permitindo que o som gravado na fita seja enviado para fones sem fio, caixas de som e outros equipamentos compatíveis.
Na versão japonesa MXCP-P100, a Maxell utiliza Bluetooth 5.4, saída tradicional de 3,5 milímetros e um volante mecânico de latão, componente responsável por ajudar a estabilizar o movimento da fita e reduzir variações na velocidade de reprodução. O aparelho pesa cerca de 210 gramas e possui um clipe traseiro que permite prendê-lo a uma bolsa ou à roupa.
A bateria interna também elimina a necessidade de carregar pilhas extras. O carregamento é feito por uma entrada USB-C e pode ser concluído em aproximadamente duas horas. Dependendo da versão e do mercado, a autonomia anunciada varia entre sete e onze horas de reprodução usando Bluetooth.
USB-C não significa reprodução de arquivos digitais
Apesar da presença de uma entrada USB-C, é importante esclarecer que ela serve principalmente para carregar a bateria. O aparelho não funciona como um reprodutor de arquivos MP3 por meio dessa conexão e não permite, no modelo atual, transferir músicas do computador para o toca-fitas.
O Bluetooth também funciona principalmente como uma saída de áudio. Isso significa que o som da fita pode ser enviado para um fone ou uma caixa Bluetooth. O aparelho atual não possui tela, aplicativos, conexão Wi-Fi ou acesso direto ao Spotify.
Portanto, a experiência continua centrada na fita cassete. A tecnologia moderna aparece para resolver algumas limitações práticas, como as pilhas descartáveis e a obrigatoriedade dos fones com fio, mas não transforma o equipamento em um celular ou reprodutor digital completo.
As fitas cassete também estão retornando
O lançamento de novos toca-fitas não aconteceria se não existisse novamente um público interessado nas próprias fitas. Embora o movimento ainda seja muito menor do que o renascimento dos discos de vinil, os cassetes voltaram a aparecer nas lojas, em edições especiais, lançamentos de artistas e coleções de fãs.
No Reino Unido, foram vendidas aproximadamente 164 mil fitas cassete em 2025, crescimento de 53% em comparação com o ano anterior. É um mercado pequeno diante dos 7,6 milhões de discos de vinil comercializados no mesmo período, mas o avanço mostra que o formato deixou de ser apenas uma lembrança guardada em caixas antigas.
O vinil continua muito à frente. Em 2025, as vendas britânicas de discos cresceram 13,3%, completando 18 anos consecutivos de expansão. A fita cassete, entretanto, começa a ocupar um espaço semelhante ao que o vinil ocupava nos primeiros anos de sua retomada: um produto de nicho, associado à coleção, à nostalgia e ao desejo de ter a música em um objeto físico.
Artistas atuais estão lançando álbuns em fita
Não são apenas bandas antigas relançando discos clássicos. Artistas contemporâneos estão colocando trabalhos novos no mercado em versões cassete.
Entre os álbuns mais vendidos nesse formato no Reino Unido em 2025 apareceram trabalhos de Robbie Williams, Dave, Central Cee, Sam Fender, Sabrina Carpenter, Mumford & Sons, Ed Sheeran, Jennie, Taylor Swift, Lady Gaga, Florence + The Machine e Wolf Alice.
A trilha sonora de Better Man, de Robbie Williams, vendeu cerca de 21,4 mil unidades em cassete no país. As fitas representaram quase metade das vendas combinadas que levaram o álbum ao primeiro lugar na parada britânica durante seu lançamento físico.
Essas edições costumam ser lançadas em quantidades limitadas, com diferentes cores, capas alternativas e embalagens colecionáveis. Muitas vezes, a fita não é comprada para substituir o Spotify, mas para funcionar como lembrança, objeto de decoração, item de coleção ou forma mais próxima de apoiar um artista.

Na versão japonesa MXCP-P100, a Maxell utiliza Bluetooth 5.4, saída tradicional de 3,5 milímetros e um volante mecânico de latão
Por que alguém voltaria a ouvir uma fita?
Do ponto de vista puramente técnico, o cassete dificilmente compete com a praticidade e a qualidade de uma plataforma digital. A fita pode apresentar ruídos, desgaste, oscilações de velocidade e perda de qualidade com o uso. Encontrar uma música específica também exige avançar ou rebobinar manualmente.
Mas são justamente essas limitações que ajudam a explicar parte do interesse.
Ouvir uma fita exige uma decisão mais consciente. É preciso escolher um álbum, colocá-lo no aparelho e acompanhar a sequência definida pelo artista. Não existe o mesmo impulso de pular uma música a cada poucos segundos ou abandonar o disco para procurar outra coisa.
Além disso, a fita possui textura, capa, encarte e identidade visual. Ela pode ser segurada, emprestada, autografada, colecionada e guardada. Para pessoas que cresceram nos anos 1980 e 1990, existe o componente da memória afetiva. Para parte do público mais jovem, existe a curiosidade de experimentar uma tecnologia que não fez parte de sua infância. Artistas como Taylor Swift, Olivia Rodrigo e Kacey Musgraves estão entre os nomes que ajudaram a apresentar o formato a uma nova geração.
Também há o retorno da cultura das mixtapes. Antes das playlists digitais, as pessoas gravavam seleções musicais em fitas e entregavam para amigos, namorados ou familiares. Cada música precisava ser escolhida e gravada em tempo real, transformando a sequência em uma mensagem pessoal.
Próximos modelos poderão ter Spotify e cartão de memória?
A possibilidade existe, mas ainda deve ser tratada como uma expectativa, não como uma função confirmada para o atual toca-fitas portátil da Maxell.
Adicionar um cartão microSD seria relativamente simples e permitiria que o aparelho também reproduzisse arquivos MP3. Uma conexão USB capaz de ler pendrives ou digitalizar fitas também seria uma evolução possível. Existem, inclusive, aparelhos maiores da própria Maxell que já combinam cassete, CD, Bluetooth, memória USB e cartão microSD, permitindo reproduzir arquivos digitais e gravar o conteúdo das fitas em mídias modernas.
O acesso direto ao Spotify seria mais complexo. Para isso, o aparelho precisaria de conexão Wi-Fi, sistema operacional, capacidade de autenticação, atualizações de software e alguma forma de controlar a navegação entre artistas, álbuns e playlists. Uma tela provavelmente também seria necessária.
Uma solução mais simples para futuros modelos seria transformar o Bluetooth em uma conexão de duas vias. Assim, além de enviar o som da fita para um fone sem fio, o aparelho poderia receber músicas de um celular e funcionar como uma pequena central de áudio. Outra possibilidade seria combinar o compartimento de cassete com memória interna, cartão microSD e controles para arquivos digitais.
Essas tecnologias já existem separadamente. O desafio será integrá-las sem eliminar justamente aquilo que torna o produto atraente: a simplicidade de colocar uma fita, apertar um botão e ouvir música.
O retorno não significa o fim do streaming
O renascimento do toca-fitas não representa uma ameaça real ao Spotify, ao YouTube Music ou às outras plataformas digitais. O streaming continuará sendo a principal maneira de ouvir música pela facilidade, pelo enorme catálogo disponível e pela possibilidade de acessar praticamente qualquer gravação em poucos segundos.
A fita cassete está retornando com outra função. Ela aparece como uma reação à sensação de que tudo se tornou invisível, instantâneo e descartável. Enquanto uma música digital existe dentro de um aplicativo e pode desaparecer do catálogo, a fita permanece fisicamente com seu proprietário.
Por isso, o novo toca-fitas da Maxell representa mais do que a recuperação de uma tecnologia antiga. Ele mostra como produtos considerados ultrapassados podem ganhar uma segunda vida quando recebem pequenas adaptações ao presente.
O usuário continua colocando a fita, apertando botões mecânicos, virando o lado quando o álbum termina e ouvindo as pequenas imperfeições da gravação. Ao mesmo tempo, pode usar um fone Bluetooth e recarregar o aparelho com o mesmo cabo USB-C utilizado em outros eletrônicos.
O passado não está voltando exatamente como era. Ele está reaparecendo conectado ao presente — com o barulho da fita girando, mas sem o fio do fone enrolado no bolso.