Por que adolescentes usam moletom mesmo no calor? A ciência explica

Por que adolescentes usam moletom mesmo no calor? A ciência explica

Por que jovens insistem no moletom em dias quentes? Especialistas alertam quando o uso excessivo pode indicar sofrimento emocional.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Você já deve ter visto a cena: sol forte, asfalto quente, gente abanando o rosto, todo mundo tentando usar a roupa mais leve possível. E, no meio desse calorão, lá está um adolescente de moletom, capuz, manga comprida e uma tranquilidade quase inexplicável. Para muitos adultos, a pergunta surge na hora: como essa pessoa não está derretendo?

A resposta, segundo especialistas, vai muito além de uma simples escolha de roupa. Quando adolescentes usam moletom mesmo no calor, o comportamento pode envolver conforto emocional, insegurança com o próprio corpo, identificação com grupos, estilo pessoal, sensação de proteção e até uma forma silenciosa de lidar com as pressões dessa fase da vida.

O fenômeno não acontece apenas no Brasil. O meteorologista e cientista climático Marshall Shepherd, professor da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, escreveu sobre a própria experiência com o filho adolescente, que usava moletom de manga comprida no verão quente da Geórgia. A curiosidade dele, como cientista acostumado a estudar calor, virou uma investigação sobre os possíveis motivos por trás desse hábito tão comum entre jovens.

No Brasil, psicólogos também apontam que o moletom pode funcionar como uma espécie de “cobertor de segurança emocional”. Em uma fase marcada por mudanças físicas, inseguranças, comparação social e busca por pertencimento, uma peça larga, macia e familiar pode oferecer mais do que proteção contra o frio. Pode oferecer sensação de abrigo.

Para muitos adolescentes, o moletom não é apenas uma roupa. É uma camada simbólica entre o corpo em transformação e o olhar do mundo.

Quando adolescentes usam moletom mesmo no calor, o comportamento pode envolver conforto emocional e outros fatores

Quando adolescentes usam moletom mesmo no calor, o comportamento pode envolver conforto emocional e outros fatores

Por que adolescentes usam moletom mesmo no calor?

A adolescência é uma fase de transição intensa. O corpo muda rápido, a percepção sobre si mesmo se transforma, o olhar dos colegas ganha peso e a opinião dos adultos nem sempre parece fazer sentido. Nesse período, a roupa deixa de ser apenas roupa. Ela passa a comunicar identidade, pertencimento, humor, estilo e até limites pessoais.

Por isso, quando adolescentes usam moletom mesmo no calor, a escolha pode estar ligada à sensação de controle. Em um momento da vida em que quase tudo parece mudar sem pedir licença, vestir uma peça ampla e confortável pode ser uma forma de recuperar alguma segurança. O moletom cobre, protege, esconde e, ao mesmo tempo, cria uma imagem reconhecível.

Psicólogos ouvidos sobre o tema explicam que muitos jovens se sentem desconfortáveis com as transformações corporais típicas da puberdade. Surgimento de pelos, alterações de peso, crescimento rápido, mudanças hormonais e comparação com colegas podem gerar vergonha ou insegurança. Nesse cenário, roupas largas ajudam alguns adolescentes a se sentirem menos expostos.

Essa explicação é especialmente importante em tempos de redes sociais. Antes, a comparação acontecia principalmente com colegas da escola, vizinhos ou amigos do bairro. Hoje, adolescentes se comparam com influenciadores, filtros, corpos editados, vídeos cuidadosamente produzidos e padrões muitas vezes irreais. A vitrine ficou maior, mais cruel e mais constante.

O moletom, nesse contexto, pode ser um jeito de diminuir a sensação de exposição. Ele não resolve a insegurança, mas pode oferecer uma espécie de conforto imediato. Para alguns jovens, é como dizer ao mundo: “não olhe tanto para mim”.

O moletom pode ser um “escudo emocional”?

Sim, pode. Especialistas usam justamente essa ideia para explicar por que a peça aparece tanto entre adolescentes, mesmo em dias quentes. O tecido macio, o capuz, o volume e a sensação de estar envolvido por uma camada extra podem lembrar o efeito de um cobertor. Não por acaso, há comparações com cobertores pesados, usados por algumas pessoas para reduzir ansiedade e promover sensação de segurança.

Isso não significa que todo adolescente de moletom esteja ansioso, triste ou inseguro. Muitas vezes, é apenas estilo, hábito ou preferência. Mas a roupa pode cumprir uma função emocional, principalmente quando o jovem está em uma fase de vulnerabilidade.

Marshall Shepherd também observou que os moletons podem oferecer mais do que conforto físico. Em sua pesquisa sobre o assunto, ele encontrou explicações que vão desde proteção contra radiação ultravioleta e mosquitos até bolsos extras, imagem corporal e conforto emocional. Ou seja, há uma mistura curiosa de razões práticas, psicológicas e sociais.

Outro detalhe é que muitos adolescentes passam o dia em ambientes com temperaturas muito diferentes. Na rua, está quente. Dentro da escola, do ônibus, do shopping ou de salas com ar-condicionado, pode estar frio. Para quem passa horas fora de casa, o moletom vira uma peça “coringa”, mesmo que pareça exagerado no sol do meio-dia.

Também existe o fator grupo. Em certas tribos urbanas, o moletom faz parte da identidade visual. Pode estar associado a estilos musicais, cultura gamer, skate, universo geek, estética streetwear ou simplesmente à vontade de parecer mais reservado. Para um adolescente, pertencer a um grupo pode ser tão importante quanto se vestir de acordo com a temperatura.

Psicólogos ouvidos sobre o tema explicam que muitos jovens se sentem desconfortáveis com as transformações corporais típicas da puberdade

Psicólogos ouvidos sobre o tema explicam que muitos jovens se sentem desconfortáveis com as transformações corporais típicas da puberdade

Quando o moletom no calor merece atenção?

Na maioria dos casos, adolescentes usam moletom mesmo no calor sem que isso represente um problema grave. Pode ser moda, costume, conforto, estilo ou uma tentativa normal de construir identidade. A adolescência é justamente o período em que o jovem testa formas de se apresentar ao mundo, muitas vezes em contraste com as expectativas dos adultos.

Mas há situações em que pais, responsáveis e educadores devem observar com mais cuidado. Se o uso constante do moletom aparece junto com isolamento excessivo, queda brusca de rendimento escolar, mudanças fortes de humor, irritabilidade intensa, tristeza persistente, recusa em sair de casa ou sinais de sofrimento emocional, vale abrir espaço para conversa.

Especialistas também alertam que, em casos mais delicados, roupas largas e de manga comprida podem ser usadas para esconder marcas de automutilação. Isso não deve gerar pânico nem vigilância agressiva, mas reforça a importância de manter diálogo aberto, sem humilhação, ironia ou broncas automáticas.

A pergunta mais importante talvez não seja “por que você está usando moletom nesse calor?”, mas “você está bem?”.

O jeito de abordar faz toda a diferença. Criticar, ridicularizar ou transformar a roupa em motivo de briga pode fechar ainda mais o adolescente. Uma conversa acolhedora, por outro lado, pode revelar se aquilo é apenas preferência estética ou se existe algum desconforto mais profundo por trás.

Como pais podem lidar sem transformar isso em conflito?

O primeiro passo é evitar tratar o comportamento como absurdo. Para o adulto, pode parecer ilógico usar moletom em pleno verão. Para o adolescente, porém, aquilo pode fazer sentido por motivos que ele nem sempre consegue explicar claramente. Às vezes, ele só se sente melhor assim.

Uma boa saída é perguntar com naturalidade, sem tom de acusação. Algo como: “Você não sente muito calor com esse moletom?” ou “Você gosta dele porque é confortável?” pode abrir mais portas do que frases como “tira isso agora” ou “você está ficando doido?”. O objetivo não é vencer uma disputa sobre roupa, mas entender o que aquela escolha representa.

Também é importante observar sinais físicos. Em dias de calor extremo, o uso de roupas pesadas pode aumentar o risco de mal-estar, desidratação e exaustão pelo calor. Se o adolescente insiste no moletom, vale combinar cuidados simples: beber água, evitar exposição prolongada ao sol, usar tecidos mais leves, preferir cores menos quentes e tirar a peça em ambientes muito abafados.

Outro ponto é reconhecer que nem todo comportamento adolescente precisa ser corrigido. Algumas escolhas fazem parte da construção da autonomia. O jovem está experimentando imagem, pertencimento, limites e personalidade. O moletom pode ser apenas uma dessas experiências.

Ainda assim, a roupa pode funcionar como pista. Se antes o adolescente se vestia de um jeito e, de repente, passa a esconder o corpo o tempo todo, evita contato social, demonstra vergonha intensa ou se mostra angustiado com a aparência, talvez exista algo além da moda. Nesses casos, escuta, acolhimento e, se necessário, ajuda profissional podem ser fundamentais.

No fim, o hábito de adolescentes usarem moletom mesmo no calor diz muito sobre essa fase da vida. Fala de corpo, identidade, grupo, insegurança, conforto e desejo de proteção. Para quem olha de fora, pode parecer apenas teimosia. Para quem vive por dentro, pode ser um jeito de atravessar um período cheio de mudanças.

Talvez o moletom seja, ao mesmo tempo, roupa, abrigo e linguagem. Uma peça simples que diz sem palavras: “estou tentando me sentir seguro enquanto descubro quem eu sou”.

E, convenhamos, se até adultos têm seus objetos de conforto, suas roupas favoritas e seus rituais para enfrentar o mundo, talvez os adolescentes estejam apenas fazendo isso de um jeito mais visível. Mesmo que seja de capuz, no calor de 38 graus.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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