Crianças que jogam videogame têm melhor desempenho cognitivo, diz estudo

Crianças que jogam videogame têm melhor desempenho cognitivo, diz estudo

Crianças que jogam videogame foram melhor em testes mentais. Estudo comparou crianças gamers com aquelas que nunca jogaram.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Durante muito tempo, o videogame foi tratado quase como um vilão dentro de casa. Bastava uma criança passar algumas horas diante da tela para surgir aquela pergunta clássica dos pais: “isso não vai fazer mal para o cérebro?”. A preocupação faz sentido, especialmente em uma época em que telas estão por todos os lados. Mas um estudo científico trouxe uma informação que pode mudar um pouco essa conversa.

Pesquisadores analisaram dados de quase 2 mil crianças, com idades entre 9 e 10 anos, e encontraram um resultado curioso: crianças que jogam videogame por três horas ou mais por dia tiveram melhor desempenho em tarefas cognitivas quando comparadas a crianças que nunca jogaram. O estudo foi publicado na revista científica Jama Network Open e conduzido por pesquisadores da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos.

A pesquisa usou dados do Estudo de Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente, conhecido pela sigla ABCD, uma das maiores iniciativas de acompanhamento do desenvolvimento cerebral infantil nos Estados Unidos. O objetivo era observar como diferentes hábitos e experiências podem se relacionar com o cérebro em formação.

E, sim, o resultado chama atenção. As crianças gamers foram mais rápidas e precisas em testes ligados à memória e ao controle de impulsos. Além disso, apresentaram maior atividade cerebral em regiões associadas à atenção e à memória. Mas antes de transformar o videogame em “vitamina para o cérebro”, é preciso entender o que o estudo realmente mostra.

crianças que jogam videogame por três horas ou mais por dia tiveram melhor desempenho em tarefas cognitivas quando comparadas a crianças que nunca jogaram

Crianças que jogam videogame por três horas ou mais por dia tiveram melhor desempenho em tarefas cognitivas quando comparadas a crianças que nunca jogaram

Crianças que jogam videogame têm melhor desempenho cognitivo?

A resposta mais cuidadosa é: neste estudo, sim, crianças que jogam videogame tiveram melhor desempenho em determinadas tarefas cognitivas. Mas isso não significa, automaticamente, que o videogame seja a causa direta dessa melhora.

Os pesquisadores dividiram as crianças em dois grupos principais. De um lado, estavam aquelas que jogavam videogame por três horas ou mais por dia. Do outro, crianças que nunca jogaram. Depois, elas realizaram tarefas pensadas para medir habilidades como controle do comportamento impulsivo e memorização de informações.

As crianças que jogavam videogame foram mais rápidas e precisas nessas atividades. Em exames de atividade cerebral, também apresentaram maior ativação em áreas ligadas à atenção e à memória. Esse detalhe é importante porque sugere que o cérebro dessas crianças pode estar trabalhando de maneira diferente durante certos tipos de desafio mental.

O estudo não prova que o videogame melhora o cérebro, mas mostra uma associação interessante entre jogar e ter melhor desempenho em algumas tarefas cognitivas.

O próprio autor principal da pesquisa, Bader Chaarani, professor assistente de psiquiatria da Universidade de Vermont, destacou que ainda não é possível afirmar que jogar videogame regularmente causa desempenho neurocognitivo superior. Mesmo assim, ele considerou a descoberta encorajadora e defendeu que o tema continue sendo investigado à medida que essas crianças crescem.

Essa cautela é essencial. Em ciência, encontrar uma relação entre duas coisas não significa provar que uma causa a outra. Pode ser que determinados jogos estimulem atenção, reação rápida e memória de trabalho. Mas também pode ser que crianças com certas habilidades cognitivas se interessem mais por videogames. Ou ainda que outros fatores, como ambiente familiar, rotina, acesso à tecnologia e tipo de jogo, influenciem os resultados.

O que o estudo mediu no cérebro das crianças?

A pesquisa avaliou tarefas relacionadas ao controle de impulsos e à memória. O controle de impulsos é a capacidade de segurar uma resposta automática e escolher uma ação mais adequada. Em outras palavras, é aquilo que ajuda uma criança a não apertar qualquer botão sem pensar, não responder antes da hora ou conseguir mudar de estratégia quando uma regra muda.

Já a memória analisada no estudo está ligada à capacidade de guardar e manipular informações por um curto período. Essa habilidade aparece em várias situações do cotidiano, como lembrar uma sequência, acompanhar instruções, resolver problemas ou tomar decisões rápidas.

Em muitos videogames, especialmente os de ação, aventura, estratégia ou quebra-cabeça, a criança precisa observar o cenário, reagir a estímulos, tomar decisões, lembrar padrões e ajustar o comportamento em tempo real. Isso pode explicar por que pesquisadores se interessam tanto pela relação entre jogos digitais e cognição.

Mas há um ponto importante: o estudo não detalhou quais tipos de videogame as crianças jogavam. Jogos de ação, esportes, tiro, aventura, raciocínio, construção ou quebra-cabeças podem exigir habilidades muito diferentes. Por isso, não dá para colocar todos os games no mesmo pacote.

A pesquisa avaliou tarefas relacionadas ao controle de impulsos e à memória. O controle de impulsos é a capacidade de segurar uma resposta automática e escolher uma ação mais adequada

A pesquisa avaliou tarefas relacionadas ao controle de impulsos e à memória. O controle de impulsos é a capacidade de segurar uma resposta automática e escolher uma ação mais adequada

Videogame pode ser bom ou ruim para as crianças?

A resposta depende de uma palavra que os pais conhecem bem: equilíbrio. O estudo não significa que crianças devam passar tempo ilimitado jogando videogame. Também não significa que qualquer jogo, em qualquer contexto, seja benéfico. O que ele mostra é que o tema é mais complexo do que a velha ideia de que videogame “só atrapalha”.

Os jogos digitais podem envolver atenção, memória, coordenação motora, tomada de decisão e resolução de problemas. Em alguns casos, também estimulam criatividade, cooperação e raciocínio estratégico. Por outro lado, excesso de tela pode prejudicar sono, atividade física, convivência social, desempenho escolar e saúde emocional, especialmente quando não há acompanhamento adulto.

O segredo está menos em demonizar o videogame e mais em entender como, quando, quanto e o que a criança está jogando. Um jogo desafiador, adequado à idade e inserido em uma rotina equilibrada pode ter efeitos bem diferentes de horas seguidas de jogo sem pausa, sem supervisão e sem limites.

Por que os pais ainda devem colocar limites?

Mesmo com resultados positivos em algumas tarefas cognitivas, os próprios pesquisadores reforçam que as descobertas não devem ser interpretadas como autorização para tempo ilimitado de videogame. Crianças precisam dormir bem, brincar fora das telas, conviver com outras pessoas, estudar, se movimentar e ter momentos de tédio criativo, aquele espaço em que a imaginação trabalha sem estímulo digital constante.

Também é importante observar o comportamento da criança. Se o videogame começa a gerar irritação intensa, isolamento, queda no rendimento escolar, dificuldade para dormir ou perda de interesse por outras atividades, vale rever a rotina. O problema, muitas vezes, não é o jogo em si, mas a forma como ele ocupa espaço demais na vida da criança.

O videogame pode ser parte de uma infância saudável, desde que não substitua tudo aquilo que também faz uma criança crescer.

Outro ponto fundamental é a escolha dos jogos. Pais e responsáveis devem observar classificação indicativa, conteúdo, interação online, compras dentro do jogo e tempo de uso. Nem todo game é adequado para toda idade. E nem todo ambiente online é seguro para crianças.

No fim, a pesquisa ajuda a abrir uma conversa mais inteligente sobre o tema. Em vez de tratar crianças que jogam videogame como se estivessem automaticamente desperdiçando tempo, talvez seja melhor perguntar: que jogo é esse? O que ele exige da criança? Como ele entra na rotina? Existe equilíbrio?

A ciência ainda precisa investigar muito sobre os efeitos dos games no desenvolvimento infantil. Mas uma coisa já parece clara: o videogame não cabe mais em explicações simples. Ele pode ser entretenimento, desafio mental, espaço social, ferramenta de aprendizagem e, em alguns casos, até um campo interessante para entender como o cérebro infantil responde a estímulos complexos.

Como quase tudo na infância, a diferença está no cuidado, no contexto e na medida certa.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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