Artista italiano vendeu escultura invisível por cerca de 18 mil dólares

Artista italiano vendeu escultura invisível por cerca de 18 mil dólares

Comprador recebeu certificado e instruções para expor o vazio. Venda reacendeu a discussão sobre quem determina o valor da arte.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine entrar em uma galeria, aproximar-se de um espaço vazio e ouvir que existe ali uma obra de arte avaliada em milhares de dólares. Não há mármore, bronze, madeira ou qualquer material que possa ser tocado. Mesmo assim, o trabalho tem nome, autor, certificado de autenticidade e instruções para ser exibido.

A cena parece uma brincadeira sobre os exageros do mercado artístico, mas aconteceu de verdade. Em maio de 2021, o artista italiano Salvatore Garau vendeu uma escultura invisível por 15 mil euros, valor equivalente, na época, a aproximadamente US$ 18.300.

A obra recebeu o nome de Io Sono, expressão italiana que significa “Eu Sou”. Colocada em leilão pela casa italiana Art-Rite, ela superou a estimativa inicial, situada entre 6 mil e 9 mil euros, depois de receber diferentes lances.

O comprador não levou para casa uma caixa vazia nem uma estrutura transparente. Recebeu um certificado assinado pelo artista e a orientação de reservar uma área de aproximadamente 1,5 metro por 1,5 metro para a exposição da peça. Dentro desse espaço, não deveria haver nenhum objeto.

Se não existe matéria para ser observada, onde termina o vazio e começa a obra de arte?

Talvez o mais importante em uma escultura invisível não seja aquilo que falta, mas tudo o que o vazio nos obriga a imaginar.

Talvez o mais importante em uma escultura invisível não seja aquilo que falta, mas tudo o que o vazio nos obriga a imaginar

Como funciona uma escultura invisível?

Salvatore Garau descreve seus trabalhos como esculturas imateriais. Elas não possuem uma forma física tradicional, mas ocupam um espaço determinado e existem como ideia, imaginação e experiência. Para o artista, a ausência de matéria não significa necessariamente a inexistência da obra.

Garau argumenta que o vazio não é completamente vazio. O espaço possui partículas, energia e possibilidades, mesmo quando não conseguimos enxergar algo em seu interior. Em entrevistas, ele chegou a mencionar o princípio da incerteza de Heisenberg para sustentar poeticamente sua visão de que o “nada” também teria peso e presença.

Isso não significa que a escultura invisível seja uma demonstração científica desse princípio. A referência à física funciona principalmente como parte do discurso artístico e filosófico de Garau. Seu objetivo é transformar uma região vazia em um lugar carregado de significado.

Segundo o artista, a obra também depende da imaginação do espectador. Como não existe uma forma visível, cada pessoa pode construir uma imagem mental diferente. Uma escultura convencional oferece contornos definidos, mas Io Sono transfere ao público a responsabilidade de imaginar aquilo que estaria naquele espaço.

O que o comprador realmente recebeu?

A parte física da negociação foi o certificado de autenticidade. O documento registra a autoria, o nome da peça e as orientações necessárias para sua apresentação. No mercado de arte conceitual, certificados desse tipo podem ser fundamentais para comprovar a propriedade e diferenciar uma obra autêntica de uma simples imitação.

É justamente o certificado que permite ao comprador afirmar que possui Io Sono. Qualquer pessoa pode deixar um espaço vazio dentro de casa, mas apenas o proprietário do documento adquirido no leilão detém a obra reconhecida e assinada por Garau.

A situação pode parecer estranha, mas não está tão distante de outros mecanismos do mercado artístico. O valor de uma obra nem sempre está limitado ao custo da tinta, da tela ou da pedra utilizada. Autoria, contexto histórico, raridade, trajetória do artista e reconhecimento institucional também influenciam o preço.

No caso da escultura invisível, o objeto físico desaparece quase totalmente. O que permanece é a combinação entre conceito, autoria, documentação e participação do público.

Escultura invisível é arte ou apenas provocação?

A venda provocou reações intensas. Algumas pessoas consideraram a proposta uma crítica inteligente à comercialização da arte. Outras enxergaram a negociação como prova de que o mercado artístico seria capaz de atribuir preços elevados até mesmo ao nada.

As duas interpretações podem coexistir. A obra levanta uma pergunta desconfortável: quando alguém compra arte, está adquirindo apenas um objeto ou também uma história, uma ideia e o reconhecimento associado ao nome do artista?

Talvez o mais importante em uma escultura invisível não seja aquilo que falta, mas tudo o que o vazio nos obriga a imaginar.

Garau já apresentou outras criações imateriais. Em Milão, Buddha in Contemplation foi demarcada por um quadrado de fita no chão. Em Nova York, Afrodite Piange, cujo título pode ser traduzido como “Afrodite chora”, foi representada por um círculo diante da Bolsa de Valores.

Essas intervenções transformam espaços comuns em locais de contemplação. Quem passa por eles pode não encontrar um objeto, mas recebe a informação de que ali existe uma obra. A partir desse momento, o ambiente deixa de ser percebido da mesma maneira.

No caso da escultura invisível, o objeto físico desaparece quase totalmente. O que permanece é a combinação entre conceito, autoria, documentação e participação do público.

No caso da escultura invisível, o objeto físico desaparece quase totalmente. O que permanece é a combinação entre conceito, autoria, documentação e participação do público

Arte imaterial não começou com Salvatore Garau

Embora a história de Garau tenha viralizado, a ideia de produzir arte sem um objeto tradicional é mais antiga. Em 1958, o francês Yves Klein apresentou a exposição conhecida como Le Vide, ou “O Vazio”, na Galeria Iris Clert, em Paris.

O público encontrou uma galeria praticamente vazia, com paredes brancas e uma vitrine sem objetos. O espaço, a expectativa dos visitantes e a experiência de entrar no ambiente formavam o trabalho. A exposição é considerada um episódio importante na história da arte imaterial.

Klein também criou as chamadas “Zonas de Sensibilidade Pictórica Imaterial”. Os compradores recebiam recibos em troca do pagamento. Em determinadas situações, o artista realizava um ritual no qual parte do ouro recebido era lançada no rio Sena, enquanto o colecionador queimava o comprovante.

Décadas depois, artistas conceituais continuaram questionando a necessidade de uma obra ser permanente, física ou visualmente atraente. Performances, sons, instruções, ações temporárias e experiências passaram a ocupar museus e galerias.

A arte conceitual desloca a atenção do objeto para a ideia. Em vez de perguntar apenas “como isso foi feito?”, ela também nos obriga a perguntar “por que isso foi proposto?” e “o que acontece quando aceitamos olhar para esse trabalho como arte?”.

A escultura invisível de Salvatore Garau pertence a essa tradição, embora tenha ganhado repercussão especial por causa do preço. Os US$ 18.300 transformaram a história em uma curiosidade mundial, mas também contribuíram para esconder a reflexão existente por trás da proposta.

Não é necessário gostar de Io Sono para reconhecer que ela provoca uma reação. Irritação, riso, fascínio e desconfiança fazem parte da experiência. Mesmo sem possuir matéria, a obra produz discussões, notícias e interpretações.

Talvez esse seja seu maior paradoxo. A escultura invisível não pode ser vista, tocada ou fotografada diretamente, mas continua ocupando um espaço bastante concreto na imaginação coletiva. Garau pode ter vendido o vazio, porém as perguntas deixadas por ele estão longe de ser vazias.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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