Água com gás prejudica os dentes? Desgasta o esmalte? Novo estudo responde

Água com gás prejudica os dentes? Desgasta o esmalte? Novo estudo responde

A água com gás pura pode ser uma alternativa de menor risco, mas versões saborizadas exigem atenção ao rótulo.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

O som da garrafa sendo aberta, as pequenas bolhas subindo pelo copo e a sensação refrescante na boca transformaram a água com gás em uma alternativa popular para quem deseja abandonar o refrigerante. Mas uma dúvida costuma acompanhar cada gole: toda essa acidez pode desgastar os dentes?

A preocupação não surgiu do nada. Quando o dióxido de carbono é dissolvido na água, forma-se uma pequena quantidade de ácido carbônico, responsável por deixar a bebida um pouco mais ácida que a água comum. Como substâncias ácidas podem contribuir para a erosão do esmalte, muita gente passou a acreditar que a água com gás seria tão prejudicial quanto um refrigerante.

Uma pesquisa preliminar apresentada no NUTRITION 2026, encontro anual da American Society for Nutrition, ajuda a colocar essa comparação em perspectiva. O estudo acompanhou 20 adultos e mostrou que a água com gás sem açúcar produziu uma alteração breve no pH da saliva. O efeito foi consideravelmente menor e menos duradouro do que o provocado pelo refrigerante açucarado. tados não significam que qualquer bebida gaseificada possa ser consumida sem atenção. Água com gás pura, refrigerante, bebida energética e água aromatizada podem ter ingredientes, níveis de acidez e efeitos muito diferentes.

Ainda assim, para quem está substituindo o refrigerante tradicional por água com gás sem açúcar, a pesquisa traz uma notícia animadora.

A presença de bolhas não transforma automaticamente a água com gás em uma bebida tão prejudicial aos dentes quanto o refrigerante.

consumir a bebida junto das refeições pode ser uma escolha mais cuidadosa do que mantê-la ao lado da mesa e beber continuamente durante várias horas

consumir a bebida junto das refeições pode ser uma escolha mais cuidadosa do que mantê-la ao lado da mesa e beber continuamente durante várias horas

O que o estudo descobriu sobre a água com gás?

Os pesquisadores compararam quatro bebidas: refrigerante açucarado, água com gás comum, água com gás enriquecida com cálcio e água mineral sem gás. Todos os 20 participantes experimentaram as quatro opções, o que permitiu observar como a boca de uma mesma pessoa reagia a cada bebida. e medir apenas o pH do líquido dentro da garrafa, a equipe analisou o pH da saliva após o consumo. Essa escolha é importante porque a boca não funciona como um recipiente parado. A saliva ajuda a diluir, neutralizar e remover ácidos, além de participar da proteção e da remineralização dos dentes.

O refrigerante provocou a maior e mais prolongada redução no pH salivar. Mesmo depois de 20 minutos, a acidez da boca continuava significativamente maior do que a observada após o consumo de água comum. om gás pura também reduziu o pH, mas a alteração foi temporária e apareceu principalmente na medição realizada dois minutos após o consumo. Na versão enriquecida com cálcio, a queda foi observada após cinco minutos. Nos dois casos, o pH havia retornado para valores próximos dos iniciais dentro de 20 minutos. e dentário pode começar a perder minerais quando o ambiente ao seu redor fica suficientemente ácido. O valor de 5,5 é frequentemente utilizado como uma referência aproximada para a desmineralização, embora o potencial erosivo real também dependa da concentração de cálcio e fosfato, do tempo de exposição e de outras características da bebida. o experimento, a mudança provocada pelas águas gaseificadas não levou o pH salivar abaixo do nível usado pelos pesquisadores como referência para danos ao esmalte. Isso sugere que beber água com gás sem açúcar ocasionalmente representa um risco bem menor do que consumir refrigerante açucarado.

A pesquisa, entretanto, não acompanhou diretamente a perda de esmalte. Ela avaliou mudanças de curto prazo no pH da saliva. Também não mostrou o que acontece quando uma pessoa bebe vários copos lentamente durante muitas horas, todos os dias e por vários anos.

Por que o refrigerante prejudica mais os dentes?

A diferença não está apenas nas bolhas. Refrigerantes geralmente combinam elevada acidez com açúcar, criando duas formas de agressão à saúde bucal.

A acidez da própria bebida pode contribuir para a erosão dentária, processo químico no qual minerais são removidos da superfície dos dentes. Já o açúcar serve de alimento para bactérias da placa bacteriana, que produzem novos ácidos e favorecem o desenvolvimento de cáries. cárie, portanto, não são exatamente a mesma coisa. Na erosão, o esmalte é desgastado por ácidos que podem vir de alimentos, bebidas ou do próprio organismo, como acontece em casos de refluxo. Na cárie, bactérias metabolizam açúcares e liberam ácidos que atacam os dentes.

A água com gás pura não contém açúcar para alimentar essas bactérias. Ela ainda é levemente ácida por causa da carbonatação, mas não reúne a mesma combinação encontrada nos refrigerantes tradicionais.

Um estudo anterior realizado com dentes extraídos encontrou um potencial de dissolução ligeiramente maior nas águas minerais gaseificadas do que nas águas sem gás. Mesmo assim, os níveis permaneceram baixos e foram aproximadamente cem vezes menores que os observados nos refrigerantes usados para comparação. ação Americana de Odontologia também considera que a água com gás pura é, em geral, adequada para os dentes. O cenário muda quando a bebida recebe açúcar, ácido cítrico, suco de frutas ou aromatizantes ácidos. Essas versões podem ter um potencial erosivo maior, mesmo quando aparecem no rótulo como produtos sem açúcar. so que colocar todas as bebidas gaseificadas na mesma categoria pode produzir conclusões equivocadas. A água carbonatada pura não é equivalente a um refrigerante de cola, uma bebida energética ou uma água saborizada com limão.

Como beber água com gás sem prejudicar os dentes?

A mensagem central do novo estudo não é que a água com gás seja completamente neutra. A conclusão é que sua versão pura e sem açúcar parece representar uma alternativa de menor risco quando comparada aos refrigerantes açucarados.

A frequência de consumo também importa. Beber um copo durante uma refeição é diferente de passar o dia inteiro dando pequenos goles. Cada novo contato com uma bebida ácida prolonga o período em que a superfície dos dentes fica exposta.

Por isso, consumir a bebida junto das refeições pode ser uma escolha mais cuidadosa do que mantê-la ao lado da mesa e beber continuamente durante várias horas. A produção de saliva costuma aumentar durante a alimentação, ajudando a neutralizar os ácidos.

Também vale conferir a lista de ingredientes. Quanto mais simples for a composição, menor a possibilidade de existirem açúcares ou ácidos adicionados. Uma água com gás pura normalmente apresenta apenas água mineral e dióxido de carbono.

Versões com sabores de frutas podem conter ácido cítrico, sucos, açúcar ou outros componentes que aumentam o potencial erosivo. Mesmo expressões como “zero açúcar” e “natural” não garantem que a bebida tenha baixa acidez.

Depois de consumir uma bebida ácida, enxaguar a boca com água comum pode ajudar a reduzir o contato dos ácidos com os dentes. A Associação Americana de Odontologia recomenda evitar a escovação imediatamente após esse tipo de consumo, dando tempo para que a saliva participe da neutralização do ambiente bucal. or substituto para o refrigerante continua sendo a água, mas a água com gás pura pode facilitar essa troca sem reproduzir o mesmo nível de risco.

A presença de bolhas não transforma automaticamente a água com gás em uma bebida tão prejudicial aos dentes quanto o refrigerante.

A presença de bolhas não transforma automaticamente a água com gás em uma bebida tão prejudicial aos dentes quanto o refrigerante

Água com gás exige algum cuidado especial?

Pessoas que já apresentam erosão dentária, sensibilidade, boca seca ou exposição frequente a ácidos podem precisar de cuidados individualizados. O refluxo gastroesofágico, por exemplo, também pode levar ácido até a boca e contribuir para o desgaste do esmalte. asos, a avaliação de um dentista é importante para identificar a origem do problema. Reduzir apenas a água com gás pode não resolver uma erosão causada principalmente por refluxo, alimentação muito ácida, consumo de bebidas energéticas ou diminuição da produção de saliva.

Manter uma boa higiene bucal também continua sendo essencial. A recomendação de trocar o refrigerante por água com gás não substitui a escovação com creme dental fluoretado, o uso adequado do fio dental e as consultas periódicas.

Outro ponto importante é que a água gaseificada não deve necessariamente substituir toda a água comum consumida durante o dia. Dependendo do produto e da região, a água mineral engarrafada pode não oferecer a mesma quantidade de flúor presente em sistemas públicos de abastecimento com fluoretação. O flúor ajuda a fortalecer e remineralizar o esmalte enfraquecido. studo deve ser interpretado como uma peça adicional em uma investigação ainda em andamento. Foram avaliadas somente 20 pessoas, as medições duraram poucos minutos e os resultados foram apresentados em um congresso científico. Eles ainda não haviam passado pelo processo completo de revisão por pares de um periódico no momento da divulgação. isadores pretendem investigar os efeitos de longo prazo e avaliar outras mudanças no ambiente da boca que podem influenciar dentes e gengivas. Esses estudos serão necessários para entender como diferentes marcas, composições e hábitos de consumo interferem na saúde bucal ao longo dos anos. , o veredito mais equilibrado é simples: a água com gás pura, sem açúcar e sem ácidos adicionados, não parece representar um grande perigo para os dentes quando consumida com moderação. Ela provoca uma alteração breve na acidez da boca, mas seu impacto é muito menor que o do refrigerante açucarado.

As bolhas, portanto, não são as grandes vilãs dessa história. O que realmente merece atenção é a composição da bebida, a frequência com que ela entra em contato com os dentes e os demais hábitos de saúde bucal.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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