Quando se fala em liderança política, a maioria das pessoas imagina presidentes, primeiros-ministros ou reis. Mas no Irã, a estrutura de poder é diferente.
Muito diferente.
Após a morte de Ali Khamenei, líder supremo iraniano desde 1989, uma pergunta voltou a circular nas redes sociais e nos noticiários do mundo inteiro: afinal, o que é exatamente um aiatolá? E ele é a mesma coisa que o presidente do Irã?
A resposta ajuda a entender não apenas a política iraniana, mas também uma das estruturas de poder mais incomuns do planeta.

Afinal, o que é exatamente um aiatolá? E ele é a mesma coisa que o presidente do Irã?
O que significa ser um aiatolá?
A palavra aiatolá tem origem árabe e significa literalmente “sinal de Deus”. Trata-se de um título religioso concedido a clérigos do islamismo xiita que atingem um nível extremamente alto de conhecimento em teologia e direito islâmico.
Para receber esse título, o religioso passa décadas estudando textos sagrados, filosofia islâmica e interpretação da sharia, o conjunto de leis religiosas do Islã.
Ou seja, originalmente, ser um aiatolá não é um cargo político.
É um reconhecimento espiritual e acadêmico dentro da hierarquia religiosa xiita.
Hoje, existem milhares de religiosos com esse título no mundo islâmico, principalmente no Irã e no Iraque. No entanto, apenas alguns deles possuem influência suficiente para se tornar figuras políticas relevantes.
No Irã, religião e política se misturam de forma única. Um líder religioso pode exercer o maior poder do Estado.
Essa estrutura nasceu após um evento histórico que mudou completamente o país.
Como surgiu o líder supremo do Irã?
Para entender por que um aiatolá pode governar o Irã, é preciso voltar a 1979, ano da Revolução Islâmica.
Até então, o país era governado pelo xá Mohammad Reza Pahlavi, um monarca aliado do Ocidente. A revolução liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini derrubou a monarquia e instaurou um novo sistema político chamado República Islâmica do Irã.
Esse modelo mistura dois elementos:
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instituições políticas modernas, como eleições e Parlamento
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autoridade religiosa baseada no clero xiita
A Constituição criada após a revolução estabeleceu o cargo de líder supremo, que obrigatoriamente deve ser ocupado por um aiatolá.
Desde então, apenas dois homens ocuparam esse posto.
Primeiro Khomeini, que liderou a revolução. Depois, Ali Khamenei, que assumiu em 1989 e permaneceu no poder por quase quatro décadas.

Primeiro Khomeini, que liderou a revolução. Depois, Ali Khamenei, que assumiu em 1989 e permaneceu no poder por quase quatro décadas
Quem tem mais poder: o presidente ou o aiatolá?
Muita gente imagina que o presidente seja o chefe máximo do país. No Irã, porém, não é assim.
O líder supremo é a autoridade máxima da República Islâmica. Ele possui poderes muito mais amplos que o presidente.
Entre suas atribuições estão:
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comandar as Forças Armadas
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definir as diretrizes estratégicas do país
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nomear chefes do Judiciário
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controlar a mídia estatal
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declarar guerra ou paz
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vetar decisões do governo
Isso significa que nenhuma decisão importante pode contrariar o líder supremo.
O presidente, por sua vez, exerce um papel mais administrativo.
Ele é eleito diretamente pela população para um mandato de quatro anos e pode ser reeleito uma vez. Seu trabalho envolve a gestão do governo, economia, ministérios e relações internacionais.
Mas suas decisões precisam respeitar as diretrizes estabelecidas pela liderança religiosa.
Em termos simples, o presidente administra o país. O líder supremo define o rumo do Estado.

O líder supremo é a autoridade máxima da República Islâmica. Ele possui poderes muito mais amplos que o presidente
Quem escolhe o líder supremo?
Outra característica curiosa do sistema iraniano é a forma como esse líder é escolhido.
A responsabilidade cabe à Assembleia dos Peritos, um órgão composto por 88 clérigos eleitos pela população.
Esse grupo possui duas funções principais:
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escolher o líder supremo
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supervisionar sua atuação
Em teoria, a Assembleia também poderia destituir o líder se considerasse que ele não cumpre suas funções religiosas ou políticas.
Na prática, porém, isso nunca aconteceu.

Alireza Arafi, o aiatolá que assume a chefia do conselho interino do Irã
Outros órgãos que influenciam o poder
Além da Assembleia dos Peritos, o sistema político iraniano possui outra instituição extremamente poderosa: o Conselho dos Guardiães.
Esse conselho é formado por 12 membros, entre religiosos e juristas. Sua função é analisar se as leis aprovadas pelo Parlamento estão de acordo com a Constituição e com a lei islâmica.
Parte dos integrantes é indicada diretamente pelo líder supremo, o que reforça sua influência sobre todo o sistema político.
Esse modelo cria uma estrutura complexa em que religião, política e direito se entrelaçam constantemente.
O que acontece agora após a morte de Khamenei?
Com a morte de Ali Khamenei, o Irã entra em um período delicado de transição política.
De acordo com a Constituição, um conselho temporário assume as funções do líder supremo até que um novo nome seja escolhido.
Esse grupo inclui:
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o presidente do país
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o chefe do Judiciário
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um clérigo indicado pelo Conselho dos Guardiães
Enquanto isso, a Assembleia dos Peritos inicia o processo para definir quem será o próximo líder supremo.
Entre os nomes citados por analistas políticos estão figuras importantes do establishment religioso e político iraniano, incluindo familiares de antigos líderes e autoridades influentes do regime.
Um sistema político único no mundo
O modelo iraniano é frequentemente descrito como uma teocracia republicana.
Isso significa que o país possui eleições e instituições políticas modernas, mas o poder final está concentrado em uma autoridade religiosa.
Esse arranjo faz do Irã um caso quase único no mundo contemporâneo.
E agora, com a morte de Khamenei e o início da disputa por sucessão, essa estrutura volta a chamar atenção internacional.
A escolha do próximo líder supremo poderá influenciar não apenas o futuro do Irã, mas também o equilíbrio político de todo o Oriente Médio.