Descoberta de açúcar no espaço ajuda a explicar como a vida surgiu na Terra

Descoberta de açúcar no espaço ajuda a explicar como a vida surgiu na Terra

Açúcar no espaço revela pistas sobre DNA e RNA. Radiotelescópios na Espanha captaram a assinatura química da molécula interestelar.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine uma nuvem gigantesca de gás e poeira perdida perto do centro da Via Láctea. Um lugar frio, escuro, distante cerca de 26 mil anos-luz da Terra, onde não existem florestas, frutas, oceanos ou qualquer coisa parecida com a vida como conhecemos. Agora imagine que, nesse ambiente extremo, cientistas encontraram uma molécula de açúcar.

Parece ficção científica, mas é química espacial.

Pesquisadores detectaram pela primeira vez um açúcar no espaço interestelar, a região entre sistemas estelares preenchida por gás, poeira e moléculas dispersas. A molécula encontrada é a eritrulose, um tipo de açúcar de quatro carbonos que, na Terra, aparece em pequenas quantidades em frutas como framboesas e também é usado em produtos de bronzeamento artificial.

A descoberta foi publicada na revista científica Nature Astronomy e chama atenção porque os açúcares são peças importantes da vida. Eles fornecem energia às células, participam de estruturas biológicas e estão ligados à formação de moléculas fundamentais como RNA e DNA. Encontrar açúcar no espaço não significa encontrar vida, mas mostra que parte dos ingredientes químicos associados à vida pode surgir muito antes da formação de planetas.

O açúcar no espaço não é uma prova de alienígenas. É uma pista de que a química necessária para a vida pode começar entre as estrelas.

A descoberta não responde como a vida começou, mas mostra que o Universo pode fabricar parte das peças antes mesmo de existir um planeta para recebê-las.

A descoberta não responde como a vida começou, mas mostra que o Universo pode fabricar parte das peças antes mesmo de existir um planeta para recebê-las

Açúcar no espaço: o que exatamente foi encontrado?

A molécula identificada foi a eritrulose, conhecida em inglês como erythrulose. Ela é um monossacarídeo do tipo cetose, formado por quatro átomos de carbono, oito de hidrogênio e quatro de oxigênio. Em termos simples, é um açúcar pequeno, mas mais complexo do que outras moléculas parecidas já observadas no espaço.

Antes dessa descoberta, astrônomos já haviam encontrado compostos relacionados a açúcares, como o glicolaldeído, que muitas vezes aparece em discussões sobre química prebiótica. A diferença é que a eritrulose é considerada um açúcar propriamente dito, o que torna o achado especialmente importante.

O sinal foi detectado na nuvem molecular G+0.693-0.027, localizada perto do centro da Via Láctea. Essas nuvens funcionam como grandes reservatórios de gás e poeira onde moléculas podem se formar, se quebrar e se recombinar ao longo de milhares ou milhões de anos. Em regiões assim, a química acontece em condições muito diferentes das encontradas na Terra.

A eritrulose não foi “vista” como uma imagem. Ela foi identificada por sua assinatura molecular. Cada molécula emite ou absorve radiação em frequências específicas, quase como se tivesse uma impressão digital própria. Ao comparar os sinais captados no espaço com medições feitas em laboratório, os pesquisadores conseguiram associar o padrão observado à eritrulose.

Como os cientistas detectaram essa molécula?

A equipe usou dois radiotelescópios na Espanha: o Yebes 40m e o IRAM 30m. Esses instrumentos são grandes antenas capazes de captar ondas de rádio emitidas por moléculas em regiões distantes do espaço. A técnica exige paciência, sensibilidade e muita comparação com dados laboratoriais.

Funciona assim: quando moléculas giram, vibram ou mudam de estado energético, elas deixam sinais em frequências específicas. Esses sinais viajam pelo espaço e podem ser captados por radiotelescópios. Depois, os cientistas analisam os espectros e procuram padrões compatíveis com moléculas conhecidas.

No caso da eritrulose, o desafio era enorme porque o espaço interestelar é quimicamente rico. Muitas moléculas diferentes podem emitir sinais próximos, e os pesquisadores precisam separar ruído, sobreposição e coincidências. Por isso, a identificação passou por revisões e comparações antes de ser aceita.

O estudo também propõe uma possível origem para a molécula. A eritrulose poderia se formar na superfície de grãos de poeira interestelar cobertos por gelo, a partir de reações envolvendo compostos como glicolaldeído e etilenoglicol. Mesmo em temperaturas extremamente baixas, a radiação, raios cósmicos e processos químicos lentos podem favorecer a criação de moléculas orgânicas complexas.

O que açúcar no espaço tem a ver com a vida?

A grande pergunta por trás da descoberta é antiga: os ingredientes da vida surgiram apenas na Terra ou parte deles veio do espaço?

Durante muito tempo, a origem das moléculas orgânicas essenciais foi imaginada principalmente em ambientes terrestres primitivos, como oceanos, fontes hidrotermais, lagoas rasas ou regiões vulcânicas. Mas, nas últimas décadas, a ciência encontrou compostos orgânicos em meteoritos, cometas e asteroides, incluindo amostras do asteroide Bennu trazidas pela missão OSIRIS-REx, da NASA.

Isso fortaleceu uma hipótese fascinante: talvez a Terra jovem tenha recebido uma parte importante de seus ingredientes químicos por meio de impactos de rochas espaciais. Cometas, poeira cósmica e meteoritos poderiam ter carregado moléculas orgânicas para cá durante os primeiros capítulos da história do planeta.

A detecção de açúcar no espaço interestelar amplia essa ideia. Se açúcares podem se formar antes mesmo de estrelas e planetas nascerem, então esses compostos podem ser incorporados aos materiais que formam sistemas planetários. Depois, podem chegar a mundos jovens por impactos, poeira ou corpos menores.

Isso não significa que a vida seja inevitável. Ter ingredientes não é o mesmo que ter receita pronta. A vida depende de uma combinação complexa de ambiente, energia, água líquida, estabilidade química e muitos processos ainda não totalmente compreendidos.

O açúcar no espaço não é uma prova de alienígenas. É uma pista de que a química necessária para a vida pode começar entre as estrelas.

O açúcar no espaço não é uma prova de alienígenas. É uma pista de que a química necessária para a vida pode começar entre as estrelas

Isso aumenta a chance de vida fora da Terra?

A descoberta não prova que exista vida fora da Terra. Mas torna o cenário mais interessante. Se moléculas associadas à química da vida podem surgir no espaço interestelar, então outros sistemas planetários também podem receber compostos orgânicos importantes desde o começo.

A eritrulose, especificamente, não é o açúcar central do DNA ou do RNA. Mas ela pode participar de caminhos químicos que levam a moléculas biologicamente relevantes. Alguns açúcares menores ou relacionados podem estar ligados à formação de ribose, componente do RNA, uma das moléculas mais importantes nas teorias sobre a origem da vida.

É por isso que os cientistas querem procurar outros açúcares no espaço. A próxima grande pergunta é se moléculas ainda mais diretamente relacionadas ao RNA e ao DNA também podem ser encontradas em nuvens interestelares. Caso isso aconteça, a ideia de que a química prebiótica começa antes dos planetas ganharia ainda mais força.

A descoberta não responde como a vida começou, mas mostra que o Universo pode fabricar parte das peças antes mesmo de existir um planeta para recebê-las.

O achado também ajuda a mudar a maneira como olhamos para a Via Láctea. O espaço entre as estrelas já foi imaginado como um vazio quase absoluto. Hoje, sabemos que ele é um ambiente ativo, cheio de moléculas, poeira, radiação e reações químicas. Não é um laboratório confortável, mas é um laboratório gigantesco.

Em vez de pensar na origem da vida como algo exclusivamente terrestre, a ciência começa a enxergar um processo mais amplo. Talvez parte da química que permitiu o surgimento da vida na Terra tenha sido preparada em nuvens distantes, muito antes do nosso planeta existir.

Isso torna a descoberta poética e desconcertante. Um açúcar encontrado em framboesas e bronzeadores artificiais também pode existir em uma nuvem gelada perto do centro da galáxia. Uma molécula associada ao metabolismo e à biologia pode nascer em grãos de poeira interestelar. O que parece cotidiano aqui na Terra pode ter raízes químicas muito mais antigas e cósmicas.

No fim, o açúcar no espaço não adoça o Universo no sentido literal. Mas adoça uma pergunta que a humanidade faz há séculos: de onde vieram os ingredientes que tornaram a vida possível?

A resposta ainda não está completa. Mas agora ela parece começar um pouco mais longe, entre estrelas, poeira e sinais de rádio captados por antenas gigantes.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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