Declaração de Mel Gibson impulsiona ivermectina para tratar câncer nos EUA

Declaração de Mel Gibson impulsiona ivermectina para tratar câncer nos EUA

Prescrição de ivermectina dispara nos EUA após fala de Mel Gibson. Entenda o que a ciência sabe sobre o assunto.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine receber o diagnóstico de uma doença grave e, no meio do medo, da urgência e da esperança, encontrar nas redes sociais um vídeo prometendo uma solução simples. Um remédio conhecido, barato, fácil de encontrar e apresentado como uma possível “cura” para algo tão complexo quanto o câncer. A promessa parece tentadora. Mas é justamente nesse ponto que a ciência pede calma.

A ivermectina voltou ao centro de uma polêmica internacional depois que um estudo apontou aumento nas prescrições do medicamento nos Estados Unidos para uso relacionado ao câncer. O crescimento ocorreu após o ator Mel Gibson afirmar, em uma entrevista, que três amigos teriam se recuperado de câncer em estágio avançado depois de usarem a substância. A fala viralizou, reacendeu debates nas redes sociais e levantou um alerta entre oncologistas e pesquisadores.

O levantamento, publicado na revista científica JAMA Network Open, foi conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA. Segundo o estudo, as prescrições de ivermectina e de medicamentos da classe dos benzimidazólicos, como o fenbendazol, mais que dobraram nos meses seguintes à declaração do ator. Entre pessoas com câncer, o aumento foi ainda maior, chegando a mais de 2,5 vezes em comparação com o mesmo período do ano anterior.

A questão central, porém, não é apenas o aumento das prescrições. O ponto mais delicado é que não existem ensaios clínicos comprovando que a ivermectina seja segura ou eficaz para tratar câncer em humanos. Embora alguns estudos laboratoriais e testes em animais tenham investigado possíveis efeitos anticancerígenos, isso não significa que o medicamento funcione em pacientes reais, dentro da complexidade do corpo humano.

Uma substância parecer promissora em laboratório não significa que ela seja um tratamento comprovado para seres humanos.

No Brasil, a ivermectina é aprovada pela Anvisa para o tratamento de algumas infecções parasitárias. Já o fenbendazol, também citado nesse debate, é um antiparasitário de uso veterinário. Essa diferença é importante porque mostra como um medicamento pode ter uma indicação legítima em um contexto e, ao mesmo tempo, ser arriscado quando usado para outra finalidade sem comprovação adequada.

Uma substância parecer promissora em laboratório não significa que ela seja um tratamento comprovado para seres humanos.

Uma substância parecer promissora em laboratório não significa que ela seja um tratamento comprovado para seres humanos

Ivermectina e câncer: por que o alerta é tão sério?

Quando um assunto de saúde viraliza, muitas vezes ele ganha uma aparência de verdade antes mesmo de passar pelo filtro da ciência. Um relato pessoal, uma entrevista famosa ou um vídeo emocionante podem parecer convincentes, principalmente quando falam de cura, superação e esperança. Mas, em medicina, a pergunta principal não é se uma história parece impressionante. A pergunta é: existem estudos clínicos bem conduzidos mostrando segurança e eficácia?

A oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, explicou que estudos feitos em células de laboratório ou em animais representam apenas uma etapa inicial da pesquisa científica. Eles servem para levantar hipóteses, observar mecanismos e indicar caminhos possíveis. No entanto, não são suficientes para afirmar que uma substância funciona em seres humanos. Muitas moléculas que parecem promissoras no começo da pesquisa nunca chegam a se transformar em tratamentos aprovados.

Esse detalhe é essencial para entender a polêmica envolvendo a ivermectina. O corpo humano não é uma placa de laboratório. Um medicamento pode agir de uma forma em células isoladas e se comportar de maneira completamente diferente dentro de um organismo vivo, com fígado, rins, sistema imunológico, metabolismo, interações medicamentosas e diferentes tipos de tumor.

Além disso, o câncer não é uma doença única. Existem muitos tipos de câncer, com causas, comportamentos, mutações e respostas terapêuticas diferentes. Um tumor de mama, um câncer de pulmão, uma leucemia e um melanoma não seguem exatamente a mesma lógica biológica. Por isso, tratamentos oncológicos precisam ser testados com rigor, em fases, com acompanhamento de efeitos colaterais, comparação com terapias existentes e análise de sobrevida.

A preocupação dos especialistas aumenta quando pacientes passam a considerar a ivermectina ou outras substâncias sem comprovação como alternativa aos tratamentos convencionais. Em oncologia, atrasar uma cirurgia, interromper quimioterapia, abandonar imunoterapia ou adiar radioterapia pode mudar completamente o curso da doença.

O crescimento ocorreu após o ator Mel Gibson afirmar, em uma entrevista, que três amigos teriam se recuperado de câncer usando a substância

O crescimento ocorreu após o ator Mel Gibson afirmar, em uma entrevista, que três amigos teriam se recuperado de câncer usando a substância

O perigo das promessas simples para doenças complexas

A internet transformou o acesso à informação, mas também abriu espaço para uma avalanche de promessas médicas sem base científica. Em poucos minutos, um vídeo pode atravessar países, ganhar legendas, cortes, comentários emocionados e chegar a pacientes fragilizados. O problema é que, quando o assunto é câncer, uma decisão tomada com base em desinformação pode ter consequências graves.

Segundo os especialistas citados no estudo, um dos maiores riscos é o paciente atrasar ou abandonar terapias que já tiveram eficácia demonstrada. O pesquisador John N. Mafi, autor sênior do estudo e professor associado de medicina na UCLA, afirmou que o aumento de prescrições após um único podcast levanta preocupação justamente porque pacientes podem estar pulando tratamentos comprovados em favor de algo cuja eficácia não foi demonstrada.

A ivermectina, nesse contexto, vira mais do que um remédio. Ela se torna um símbolo de um fenômeno maior: a busca por atalhos em situações de medo. E é compreensível que uma pessoa doente queira tentar tudo. O ponto é que “tentar tudo” sem orientação pode significar misturar medicamentos, usar doses inadequadas, sofrer efeitos colaterais, criar uma falsa sensação de segurança e perder tempo precioso.

Em oncologia, tempo, sequência e precisão do tratamento podem fazer diferença direta na sobrevida e na qualidade de vida do paciente.

A fala da oncologista Clarissa Baldotto reforça esse ponto. Ela destaca que o papel do profissional de saúde não deve ser ridicularizar ou julgar o paciente que chega com dúvidas sobre conteúdos vistos nas redes sociais. A melhor resposta, segundo ela, é acolher, explicar a diferença entre hipótese científica e evidência clínica, avaliar riscos e orientar com informação qualificada.

Como saber se uma promessa de cura merece desconfiança?

Uma das formas mais importantes de proteção é aprender a reconhecer sinais de alerta. Promessas de cura rápida, relatos isolados sem respaldo científico, teorias conspiratórias contra a medicina, tratamentos “secretos” ou recomendações feitas por pessoas sem formação na área da saúde devem acender uma luz vermelha.

No caso da ivermectina, o debate fica ainda mais sensível porque o medicamento já é conhecido por grande parte da população. Quando uma substância familiar aparece associada a uma nova promessa, muitas pessoas tendem a baixar a guarda. Afinal, se é um remédio usado para outras finalidades, pode parecer inofensivo. Mas uso conhecido não significa uso seguro em qualquer situação.

Também é importante diferenciar pesquisa científica de conclusão clínica. Um estudo inicial pode investigar se uma substância interfere em determinado mecanismo celular. Isso não quer dizer que ela cure uma doença. Para que um tratamento seja considerado seguro e eficaz, ele precisa passar por etapas rigorosas, com testes em humanos, avaliação de dose, comparação com outros tratamentos, monitoramento de efeitos adversos e revisão por especialistas.

Quando o assunto envolve câncer, medicamentos e tratamentos, a recomendação mais segura é conversar com a equipe médica responsável pelo caso

Quando o assunto envolve câncer, medicamentos e tratamentos, a recomendação mais segura é conversar com a equipe médica responsável pelo caso

Onde buscar informação confiável sobre ivermectina e saúde?

Quando o assunto envolve câncer, medicamentos e tratamentos, a recomendação mais segura é conversar com a equipe médica responsável pelo caso. Cada paciente tem uma história, um tipo de tumor, um estágio da doença, exames específicos e possíveis limitações de saúde. O que parece uma dica geral na internet pode ser perigoso para uma pessoa em tratamento.

Fontes confiáveis costumam vir de sociedades médicas, hospitais de referência, universidades, órgãos regulatórios e publicações científicas revisadas por pares. Mesmo assim, é importante lembrar que nem todo estudo isolado muda a prática médica. A ciência avança por acúmulo de evidências, não por frases de impacto.

A ivermectina pode ter seu papel legítimo no tratamento de infecções parasitárias, conforme as indicações aprovadas. Mas isso é muito diferente de apresentá-la como tratamento contra o câncer. Até o momento, segundo os especialistas citados no levantamento, não há comprovação clínica de que ela seja segura ou eficaz para essa finalidade em humanos.

O caso mostra como celebridades, podcasts e redes sociais podem influenciar comportamentos de saúde em larga escala. Uma fala viral pode mudar a procura por medicamentos, pressionar médicos, confundir pacientes e alimentar expectativas perigosas. Por isso, a curiosidade precisa caminhar junto com responsabilidade.

No fim, a grande lição não é apenas sobre ivermectina. É sobre como lidamos com informação médica em tempos de viralização. Quando uma promessa parece simples demais para resolver uma doença complexa demais, talvez a melhor atitude seja desconfiar, perguntar, pesquisar em fontes sérias e conversar com quem realmente entende do assunto.

A esperança é fundamental no tratamento de qualquer doença. Mas esperança, quando guiada pela ciência, protege. Quando guiada por boatos, pode colocar vidas em risco.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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