Usar celular no banheiro aumenta em 46% o risco de hemorroidas

Usar celular no banheiro aumenta em 46% o risco de hemorroidas

Usar celular no banheiro: por que médicos recomendam evitar. Entenda por que ficar sentado no vaso por muito tempo faz mal.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Você entra no banheiro “só rapidinho”, leva o celular junto, abre uma rede social e, quando percebe, já se passaram dez, quinze ou até vinte minutos. A cena é tão comum que quase parece parte da rotina moderna. O banheiro virou uma espécie de sala de espera particular, onde mensagens, vídeos curtos, notícias e memes disputam atenção enquanto o corpo tenta fazer algo simples: evacuar.

Mas esse hábito aparentemente inofensivo pode ter um lado menos divertido. Um estudo publicado na revista científica PLOS One apontou que usar celular no banheiro está associado a um aumento de 46% no risco de hemorroidas. A explicação não está exatamente no aparelho em si, mas no tempo extra que ele faz muita gente passar sentada no vaso sanitário.

A pesquisa ouviu 125 adultos durante uma colonoscopia preventiva. Entre os usuários de smartphone, metade relatou permanecer no vaso sanitário por mais tempo do que o necessário justamente por causa do celular. Segundo Trisha Pasricha, gastroenterologista da Escola de Medicina de Harvard e pesquisadora chefe do estudo, esse comportamento aumenta a pressão sobre estruturas delicadas da região anal e do assoalho pélvico.

O dado chama atenção porque mexe com um costume cada vez mais normalizado. Antes, muita gente levava jornal ou revista para o banheiro. Hoje, o celular concentra tudo: conversa, vídeo, trabalho, entretenimento, compras, notícias e redes sociais. A diferença é que os aplicativos atuais são desenhados para prender nossa atenção por muito mais tempo.

O problema não é apenas levar o celular ao banheiro, mas esquecer por que você foi ao banheiro.

Um estudo publicado na revista científica PLOS One apontou que usar celular no banheiro está associado a um aumento de 46% no risco de hemorroidas

Um estudo publicado na revista científica PLOS One apontou que usar celular no banheiro está associado a um aumento de 46% no risco de hemorroidas

Usar celular no banheiro aumenta mesmo o risco?

Para entender a relação entre usar celular no banheiro e hemorroidas, é preciso olhar para a posição do corpo. Sentar em uma cadeira comum oferece apoio ao assoalho pélvico. Já o vaso sanitário tem uma abertura no centro e não dá o mesmo suporte. Quando a pessoa fica muito tempo nessa posição, há aumento de pressão sobre os músculos do assoalho pélvico, o tecido conjuntivo ao redor das hemorroidas e as próprias hemorroidas.

E aqui vale uma curiosidade importante: todo mundo tem hemorroidas. Elas são estruturas vasculares normais, localizadas na região do reto e do ânus, que ajudam no funcionamento dessa área do corpo. O problema começa quando essas estruturas aumentam de tamanho, inflamam ou ficam doloridas por causa de pressão, esforço repetido ou constipação.

Os sintomas podem incluir coceira, ardência, desconforto, dor e sangramento. Em muitos casos, o quadro é tratável, mas ainda existe muito constrangimento em falar sobre o assunto. Por vergonha, muitas pessoas só procuram ajuda quando o problema já está mais avançado.

A pesquisa não afirma que o celular sozinho “causa” hemorroidas em todos os casos. O que ela mostra é uma associação importante: quem usa o aparelho no vaso tende a ficar mais tempo sentado, e esse tempo extra pode aumentar o risco. Especialistas também lembram que alimentação pobre em fibras, constipação, esforço para evacuar, gravidez e idade avançada são fatores conhecidos relacionados ao problema.

Quem usa o aparelho no vaso tende a ficar mais tempo sentado, e esse tempo extra pode aumentar o risco

Quem usa o aparelho no vaso tende a ficar mais tempo sentado, e esse tempo extra pode aumentar o risco

Por que o tempo no vaso faz tanta diferença?

O vaso sanitário foi feito para uma função rápida. Quando ele vira um lugar de navegação infinita, o corpo paga a conta. Ficar sentado por longos períodos aumenta a pressão na região anal e pode favorecer o inchaço das hemorroidas. Se a pessoa ainda faz força para evacuar, o impacto pode ser maior.

A recomendação citada por especialistas é simples: não passar de cinco minutos sentado no vaso. Se não conseguiu evacuar nesse tempo, o ideal é levantar, se movimentar e tentar novamente mais tarde. Essa orientação pode parecer estranha para quem está acostumado a transformar o banheiro em momento de pausa, mas faz sentido do ponto de vista fisiológico.

A gastroenterologista Trisha Pasricha sugeriu até uma regra curiosa para quem não consegue largar o celular de vez: a “regra dos dois TikToks”. Depois de assistir a dois vídeos, a pessoa deve se perguntar por que ainda está sentada ali. A ideia é usar o próprio hábito digital como um lembrete de limite, antes que a distração vire permanência prolongada.

Além disso, a postura também importa. Quando os joelhos ficam um pouco mais altos que os quadris, por exemplo com o uso de um banquinho sob os pés, o reto fica em uma posição mais favorável para a passagem das fezes. Isso pode reduzir o esforço e facilitar a evacuação. Não é uma solução mágica, mas pode ajudar bastante quem costuma ter dificuldade.

Como reduzir os riscos sem complicar a rotina?

A primeira medida é a mais óbvia e talvez a mais difícil: evitar usar celular no banheiro. Deixar o aparelho fora do cômodo reduz a chance de perder a noção do tempo. O banheiro deixa de ser um espaço de rolagem infinita e volta a ser o que deveria ser: um lugar de passagem rápida.

Outra atitude essencial é cuidar da alimentação. As fibras ajudam a amolecer as fezes e reduzem o esforço na hora de evacuar. Elas estão presentes em frutas, verduras, legumes, leguminosas e alimentos integrais. Beber água ao longo do dia também é importante, porque fibra sem hidratação pode não funcionar tão bem.

Movimentar o corpo é outro ponto relevante. O sedentarismo pode contribuir para constipação e piora do trânsito intestinal. Caminhadas, exercícios leves e uma rotina menos parada ajudam o intestino a trabalhar melhor. Não se trata de transformar a vida em um manual rígido de saúde, mas de entender que pequenos hábitos se somam.

Em muitos casos, proteger a saúde intestinal começa com uma decisão simples: não transformar o vaso sanitário em poltrona de rede social.

Se houver dor persistente, sangramento, coceira intensa, caroços, desconforto frequente ou dificuldade para evacuar, o ideal é procurar avaliação médica

Se houver dor persistente, sangramento, coceira intensa, caroços, desconforto frequente ou dificuldade para evacuar, o ideal é procurar avaliação médica

Quando procurar ajuda médica?

Mesmo sendo comuns, hemorroidas não devem ser ignoradas. Se houver dor persistente, sangramento, coceira intensa, caroços, desconforto frequente ou dificuldade para evacuar, o ideal é procurar avaliação médica. Sangramento anal, especialmente, precisa ser investigado, porque pode ter outras causas além de hemorroidas.

O tabu ainda atrapalha muita gente. Falar sobre intestino, fezes e região anal continua sendo desconfortável para muitas pessoas, mas médicos lidam com isso todos os dias. Quanto mais cedo o problema é avaliado, maiores as chances de tratamento simples e melhora rápida.

O estudo também chama atenção para uma mudança de comportamento entre os mais jovens. Especialistas observam que casos de hemorroidas têm aparecido cada vez mais cedo, e os smartphones podem ter participação nisso. Em países como a Alemanha, pesquisas indicam que mais da metade dos adultos leva o celular para o banheiro, e entre jovens de 25 a 34 anos esse número passa de 80%.

No fim, usar celular no banheiro virou um símbolo curioso da vida moderna. O aparelho nos acompanha em quase todos os lugares, inclusive onde talvez ele não devesse estar. A questão não é demonizar a tecnologia, mas perceber quando ela começa a interferir até nos hábitos mais básicos do corpo.

Talvez a melhor dica seja simples: se for ao banheiro, vá ao banheiro. Sem feed infinito, sem vídeos em sequência, sem responder mensagens como se estivesse no escritório. Seu intestino provavelmente agradece.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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