O que acontece na sua orelha quando você usa cotonete? Faz mal?

O que acontece na sua orelha quando você usa cotonete? Faz mal?

Um hábito comum que pode causar irritação, dor e ouvido entupido. Quando a limpeza do ouvido deixa de ser cuidado e vira risco.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Você sai do banho, pega um cotonete quase no automático e faz aquele movimento que parece resolver tudo: limpar o ouvido por dentro. A sensação é de higiene, alívio e cuidado pessoal. Mas e se esse hábito tão comum estiver fazendo exatamente o contrário do que você imagina?

O uso do cotonete dentro do ouvido é uma daquelas práticas que atravessam gerações. Muita gente aprendeu em casa que a cera precisa ser retirada, como se fosse uma sujeira acumulada. O detalhe curioso é que o próprio corpo produz essa substância por um motivo muito inteligente. O cerume, popularmente chamado de cera de ouvido, não está ali por descuido. Ele funciona como uma espécie de escudo natural do canal auditivo.

A advertência costuma aparecer até nas embalagens das hastes flexíveis: o uso indevido pode causar danos, especialmente quando o produto é introduzido no canal do ouvido. Mesmo assim, o costume persiste, em parte porque a maioria das pessoas nunca foi ensinada a enxergar a cera como proteção.

O cerume ajuda a lubrificar, hidratar e limpar o canal auditivo. Ele também contribui para barrar poeira, partículas, microrganismos e pequenas impurezas que poderiam irritar a pele delicada da região. Em outras palavras, aquilo que muita gente tenta remover com insistência é uma ferramenta natural de defesa do ouvido.

A cera do ouvido não é sinal de falta de higiene. Em muitos casos, ela é justamente uma prova de que o corpo está fazendo seu trabalho de proteção.

O uso do cotonete dentro do ouvido é uma daquelas práticas que atravessam gerações. Muita gente aprendeu em casa que a cera precisa ser retirada, como se fosse uma sujeira acumulada.

O uso do cotonete dentro do ouvido é uma daquelas práticas que atravessam gerações. Muita gente aprendeu em casa que a cera precisa ser retirada, como se fosse uma sujeira acumulada

Cotonete no ouvido: por que a cera não é sujeira?

Para entender o problema, é preciso imaginar o canal auditivo como um corredor estreito, sensível e revestido por uma pele fina. Esse corredor tem um sistema próprio de limpeza. Aos poucos, movimentos naturais da mandíbula, como falar, mastigar e bocejar, ajudam a empurrar o cerume para fora. Quando chega à parte externa da orelha, ele pode ser removido com cuidado, sem necessidade de invadir o canal.

O problema começa quando o cotonete é usado como se fosse uma pequena ferramenta de escavação. Em vez de retirar a cera, ele pode empurrar parte do cerume para regiões mais profundas. Com o tempo, esse material pode se acumular e formar uma obstrução, causando sensação de ouvido tampado, redução temporária da audição, desconforto e até dor. O Manual MSD explica que tentativas de limpeza com cotonetes podem empurrar o cerume para dentro do meato acústico, favorecendo obstrução ou impactação.

Essa é uma ironia curiosa: a pessoa usa o cotonete para “desentupir” ou limpar melhor, mas pode acabar criando justamente o entupimento que queria evitar. Quando a cera fica compactada, a remoção pode exigir avaliação profissional, principalmente se houver dor, perda auditiva, zumbido ou sensação persistente de pressão.

Além disso, o excesso de limpeza pode retirar a camada protetora do canal auditivo. Sem essa proteção, a pele fica mais vulnerável ao ressecamento, à coceira, a pequenas fissuras e à irritação. E quanto mais coça, maior a vontade de mexer. Assim, um hábito aparentemente inofensivo pode virar um ciclo de incômodo.

O que acontece quando o cotonete empurra a cera?

Quando o cotonete entra no canal auditivo, ele não tem como “puxar” toda a cera de maneira eficiente. A ponta de algodão pode até sair com algum resíduo visível, o que dá a impressão de limpeza. Mas parte do cerume pode ser empurrada para o fundo, ficando mais próxima do tímpano.

Essa cera compactada pode funcionar como uma rolha. Em algumas pessoas, o ouvido parece abafado, como se houvesse água presa depois do banho ou da piscina. Em outras, surgem zumbidos, coceira, dor leve ou sensação de pressão. Quando a obstrução é maior, a audição pode ficar temporariamente prejudicada.

Também existe o risco de microlesões. O canal auditivo é delicado, e o atrito repetido pode causar pequenas abrasões na pele. Essas microfissuras podem facilitar a entrada de bactérias e favorecer infecções, como a otite externa. O Manual MSD aponta que tentativas de limpar o canal com cotonete podem causar microabrasões e empurrar detritos e cerume mais profundamente, criando condições que favorecem infecção bacteriana.

Outro risco, menos comum, mas mais grave, é atingir o tímpano. A introdução de objetos no ouvido, incluindo cotonetes, aparece entre as causas possíveis de perfuração traumática da membrana timpânica. Esse tipo de lesão pode causar dor súbita, sangramento, perda auditiva, zumbido e vertigem, exigindo avaliação médica.

Como limpar a orelha sem usar cotonete do jeito errado?

A orientação mais segura é simples: a limpeza deve ficar na parte externa da orelha. Depois do banho, uma toalha limpa e macia costuma ser suficiente para remover o excesso de umidade e resíduos que aparecem do lado de fora. O cotonete, se usado, deve ficar restrito às dobras externas da orelha, sem ser introduzido no canal auditivo.

Isso não significa que ninguém terá acúmulo de cerume. Algumas pessoas produzem mais cera do que outras. Outras têm canais auditivos mais estreitos, usam aparelhos auditivos, fones intra-auriculares com frequência ou apresentam tendência a obstruções. Nesses casos, a sensação de ouvido tampado pode aparecer mesmo sem uso de cotonete.

A diferença é que tentar resolver sozinho, empurrando hastes, grampos, tampas de caneta ou qualquer objeto para dentro do ouvido, pode piorar o quadro. Quando há suspeita de cera impactada, o ideal é procurar um profissional de saúde, especialmente um otorrinolaringologista. O médico pode avaliar o canal auditivo com equipamento adequado e indicar a melhor forma de remoção.

Em alguns casos, podem ser usados produtos para amolecer a cera, mas isso deve ser feito com orientação, principalmente se houver histórico de perfuração no tímpano, dor, secreção, cirurgia no ouvido ou infecção. O uso inadequado de soluções caseiras também pode irritar a pele do canal auditivo.

O ouvido não precisa ser “limpo por dentro” todos os dias. Na maioria das vezes, ele já tem um sistema natural de limpeza funcionando em silêncio.

O ouvido não precisa ser “limpo por dentro” todos os dias. Na maioria das vezes, ele já tem um sistema natural de limpeza funcionando em silêncio

Quando procurar um médico por causa do ouvido?

Alguns sinais merecem atenção. Dor forte, perda de audição repentina, secreção, sangramento, tontura, zumbido intenso ou sensação persistente de ouvido entupido não devem ser ignorados. Esses sintomas podem ter causas diferentes, desde cera impactada até infecções ou lesões no tímpano.

Também é importante buscar atendimento se a pessoa tentou limpar o ouvido e, logo depois, passou a sentir dor, abafamento ou tontura. Nesses casos, insistir com mais cotonete pode agravar a situação. O ouvido precisa ser examinado para que o problema seja identificado corretamente.

O ouvido não precisa ser “limpo por dentro” todos os dias. Na maioria das vezes, ele já tem um sistema natural de limpeza funcionando em silêncio.

A grande curiosidade é que o cotonete não é exatamente o vilão da história. O problema está no modo como ele é usado. Para limpar maquiagem borrada, alcançar pequenas áreas externas da orelha ou aplicar produtos em regiões superficiais, ele pode ser útil. O risco aparece quando a haste flexível vira ferramenta de limpeza profunda do canal auditivo.

No fim, o que parece um gesto simples de higiene revela uma lição interessante sobre o corpo humano. Nem tudo que vemos como sujeira precisa ser eliminado. Às vezes, aquilo que incomoda visualmente tem uma função invisível, silenciosa e essencial.

A cera do ouvido é um bom exemplo disso. Ela protege, lubrifica e ajuda a manter o canal auditivo saudável. Por isso, antes de pegar o cotonete e tentar “limpar tudo”, vale lembrar: o ouvido não é um túnel que precisa ser escavado. Ele é uma estrutura sensível, inteligente e muito mais autossuficiente do que parece.

Reportar um erro

Encontrou um erro neste conteúdo? Descreva o problema abaixo e nossa equipe verificará.

Reportar-erro

Compartilhar

Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

Saiba mais

Veja também