Benito di Paula: curiosidades sobre o artista que fez o piano sambar

Benito di Paula: curiosidades sobre o artista que fez o piano sambar

Uma pensão de italianos, um personagem de quadrinhos e um piano ajudam a contar a trajetória de um dos nomes mais populares do samba.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine um personagem de quadrinhos americano desembarcando no Brasil para conhecer o Carnaval, ouvir grandes compositores e descobrir a torcida do Flamengo. Parece uma história improvável de animação, mas esse passeio aconteceu em uma canção. Ao transformar Charlie Brown em visitante imaginário, Benito di Paula criou um dos encontros mais curiosos entre a cultura pop internacional e o samba brasileiro.

O cantor, compositor e pianista morreu em São Paulo neste domingo, 18 de outubro de 2026, aos 84 anos. Segundo o UOL, ele estava internado no Hospital 9 de Julho e enfrentava um câncer de próstata havia cerca de um ano. Sua despedida deixa uma obra que merece ser revisitada também pelas histórias escondidas atrás dos sucessos.

Entre o nome de sonoridade italiana, o bigode marcante e o piano que acompanhava suas apresentações, existia um artista difícil de resumir. Ele transitava pelo samba, pelo romantismo e por referências latino-americanas, enquanto questionava as classificações que tentavam explicar sua música. E algumas das melhores curiosidades dessa trajetória começam bem antes da fama.

A carreira também passou pela televisão. Em 1975, Benito comandou “Brasil Som 75”, na TV Tupi, projeto que ganhou um disco com convidados

A carreira também passou pela televisão. Em 1975, Benito comandou “Brasil Som 75”, na TV Tupi, projeto que ganhou um disco com convidados

Como Uday Veloso se tornou Benito di Paula?

Apesar do nome artístico, Benito nasceu em Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro, em 28 de novembro de 1941. O Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira registra seu nome de nascimento como Uday Veloso. Antes da projeção nacional, ele cantou em casas noturnas do Rio, de Santos e de São Paulo.

A mudança de nome nasceu de uma conversa. Em entrevista à Trip, o músico contou que Alfredo Motta, proprietário de um hotel em sua cidade e incentivador de sua carreira, considerava “Uday” pouco sonoro para um artista. Entre sugestões e associações de palavras, surgiu Benito. O próprio cantor completou com “di Paula”, aproveitando a sonoridade italiana.

É uma pequena história que ajuda a entender a construção de uma identidade artística. O nome que parecia tão inseparável daquele homem ao piano foi uma escolha, elaborada quando ele ainda procurava seu espaço. Antes de se tornar familiar para milhões de ouvintes, precisou primeiro fazer sentido para o próprio músico.

O visual chamava atenção, mas o piano era parte da assinatura

Benito di Paula construiu uma presença que podia ser reconhecida antes mesmo da primeira nota. Bigode, cabelos longos em diferentes fases, colares, anéis e roupas elegantes compunham sua imagem. Na entrevista concedida à revista Trip em 2009, ele explicou seu gosto pelos adornos com uma pergunta:

“Por que não se enfeitar pra vida, né?”

O piano também ocupava um lugar central nessa personalidade. A Rádio Câmara destacou sua linguagem percussiva, desenvolvida na combinação do instrumento com a percussão. O acompanhamento participava do balanço das músicas, ajudando a criar uma sonoridade identificável.

Essa mistura ficou associada ao chamado samba-joia, classificação que o cantor rejeitava. Em entrevista ao Estado de Minas, publicada pelo portal Uai em 2013, ele destacou influências de bolero, chá-chá-chá e música cubana, além do samba de Ataulfo Alves. Para o pianista autodidata, sua trajetória reunia mais referências do que aquele rótulo permitia perceber.

O que Charlie Brown tem a ver com Benito di Paula?

O personagem da música era mesmo o menino criado por Charles M. Schulz, do universo de Peanuts, também conhecido pelas histórias de Snoopy. A inspiração surgiu da convivência do compositor com italianos em uma pensão paulistana. Ao vê-los se divertindo com os quadrinhos, Benito quis entender aquelas histórias e pediu ajuda com a tradução.

Da curiosidade nasceu uma ideia musical: apresentar o Brasil ao personagem. O compositor transformou referências brasileiras em um roteiro afetivo, reunindo lugares, manifestações culturais e artistas. Em vez de simplesmente citar uma figura estrangeira, fez dela uma espécie de convidado para uma visita imaginária.

O resultado é uma canção que funciona como um cartão de apresentação do país. Caetano Veloso, Vinicius de Moraes, Jorge Ben e Luiz Gonzaga aparecem nesse universo, ao lado do Carnaval e do futebol. Ouvir a música com atenção é perceber que o refrão conhecido faz parte de uma narrativa: alguém mostrando ao visitante aquilo que considera especial.

Outra composição, “Retalhos de Cetim”, conquistou frequentadores das casas noturnas de São Paulo antes de ampliar seu alcance nos discos. O sucesso também atravessou fronteiras: a música recebeu gravações da orquestra de Paul Mauriat e do guitarrista americano Charlie Byrd, além de interpretações brasileiras como a de Jair Rodrigues.

Essas versões revelam uma característica interessante de sua obra. Canções profundamente ligadas à interpretação de Benito encontraram espaço em outras vozes e instrumentos, permitindo que públicos diferentes descobrissem suas melodias.

Benito di Paula construiu uma presença que podia ser reconhecida antes mesmo da primeira nota. Bigode, cabelos longos em diferentes fases, colares, anéis e roupas elegantes compunham sua imagem

Benito di Paula construiu uma presença que podia ser reconhecida antes mesmo da primeira nota. Bigode, cabelos longos em diferentes fases, colares, anéis e roupas elegantes

Televisão, censura e encontros internacionais

A carreira também passou pela televisão. Em 1975, Benito comandou “Brasil Som 75”, na TV Tupi, projeto que ganhou um disco com convidados. Já seu LP de 1971 incluía “Apesar de Você”, de Chico Buarque, composição atingida pela censura da ditadura. São episódios que situam sua trajetória em momentos importantes da música e da comunicação brasileiras.

Os encontros internacionais renderam lembranças igualmente curiosas. À Trip, o cantor relatou que Ravi Shankar foi ouvi-lo no Bixiga depois de se apresentar no Teatro Municipal de São Paulo. Contou também que Stevie Wonder esteve entre os artistas que conheceram sua música de perto. São histórias narradas pelo próprio Benito, orgulhoso desses encontros.

O reconhecimento não o impediu de criticar o preconceito contra músicos considerados populares. Na entrevista ao Estado de Minas, publicada pelo Uai, defendeu que a classe social da plateia não deveria determinar o valor de um artista. Sua posição ajuda a entender por que resistia tanto às classificações usadas para diminuir seu trabalho.

A circulação de suas canções oferece outra resposta a esses julgamentos. “Do Jeito que a Vida Quer” encontrou novos ouvintes com o grupo Revelação, enquanto “Retalhos de Cetim” ganhou interpretações de Alcione e Paulinho Moska. O repertório continuou viajando entre artistas e gerações.

Revisitar Benito di Paula é descobrir que músicas aparentemente familiares ainda guardam surpresas. Uma conversa criou seu nome artístico; uma leitura compartilhada inspirou um sucesso; um samba de casas noturnas chegou a músicos estrangeiros. Na próxima vez que um desses refrões tocar, talvez valha prestar atenção também no piano e nas histórias que o acompanham.

Qual música de Benito di Paula faz parte da sua memória?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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