Imagine uma geração que cresceu ouvindo sobre os perigos do cigarro, mas que agora troca a fumaça pelo vapor — e acredita estar mais segura. Essa é a realidade que preocupa a Organização Mundial da Saúde (OMS), que acaba de divulgar dados inéditos sobre o uso global de cigarros eletrônicos, os famosos vapes.
Segundo o relatório, 15 milhões de pessoas entre 13 e 15 anos já utilizam cigarros eletrônicos no mundo. É o primeiro levantamento global da OMS que revela a dimensão desse novo hábito, que rapidamente se tornou um problema de saúde pública.
O tabaco tradicional está caindo, mas o vape está subindo
A boa notícia é que o consumo de tabaco está diminuindo em escala global. A má notícia é que os vapes surgiram como uma nova porta de entrada para a dependência da nicotina, especialmente entre os mais jovens.
Atualmente, um em cada cinco adultos ainda é dependente do tabaco, mas o destaque do relatório vai mesmo para o crescimento explosivo dos cigarros eletrônicos entre adolescentes.
“A indústria do tabaco está reagindo com novos produtos de nicotina, direcionados agressivamente aos jovens”, alerta Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.
Como os vapes conquistaram os jovens
Com designs modernos, sabores adocicados e uma aparência “inofensiva”, os cigarros eletrônicos foram se infiltrando nas escolas e redes sociais.
O apelo tecnológico e o disfarce de que “fazem menos mal” criaram o terreno perfeito para uma nova geração de dependentes.
Segundo a OMS, 86 milhões de adultos também usam cigarros eletrônicos, e a maioria vive em países de alta renda, onde o produto é amplamente comercializado e menos regulamentado.
Mas o maior perigo está no grupo adolescente. Estudos mostram que quanto mais cedo o contato com a nicotina, maior é o risco de dependência duradoura e de problemas respiratórios e cardiovasculares a longo prazo.
Brasil é exemplo na luta contra o tabaco
Entre as boas notícias, o Brasil aparece como um dos países com melhor desempenho nas políticas de combate ao tabagismo.
Campanhas educativas, leis restritivas e aumento de impostos sobre o cigarro tradicional contribuíram para uma queda histórica no número de fumantes.
O número de mulheres que fumam, por exemplo, caiu de 277 milhões em 2010 para 206 milhões em 2024, segundo dados da OMS.
Atualmente, mais de 80% dos consumidores de tabaco no mundo são homens, mas o país segue como um exemplo de avanço.
“Milhões de pessoas estão deixando de usar, ou não estão começando a usar produtos de tabaco, graças aos esforços de controle”, afirma a OMS.
E o cenário mundial?
Mesmo com avanços, a Europa ainda lidera o ranking de consumo, com 24,1% dos adultos fumando.
Nas Américas, o índice é de 14%, mas há países sem dados atualizados — o que pode mascarar uma realidade ainda preocupante.
A tendência global aponta que, enquanto o cigarro tradicional perde espaço, o vape avança silenciosamente, impulsionado por campanhas de marketing e pelo fácil acesso em lojas e plataformas digitais.
Um desafio para os próximos anos
A OMS alerta que os governos precisam agir rápido para conter a expansão dos cigarros eletrônicos entre jovens.
A recomendação é clara: políticas de controle mais rígidas, proibição de publicidade voltada a menores de idade e educação sobre os riscos reais do vape.
O relatório conclui que o combate ao tabagismo evoluiu, mas a guerra está longe de terminar.
A diferença é que, agora, o inimigo é colorido, cheira a morango e cabe no bolso de um adolescente.
“O que parecia o fim do vício do cigarro pode ser apenas o começo de uma nova epidemia silenciosa”, adverte o relatório da OMS.