Imagine se a mesma tecnologia que ajudou a salvar milhões de vidas durante a pandemia pudesse também prolongar a vida de pacientes com câncer. Pois é exatamente isso que uma nova descoberta científica está começando a revelar.
Um estudo realizado por pesquisadores do MD Anderson Cancer Center e da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, analisou os registros de mais de mil pacientes com câncer de pulmão e melanoma, um tipo agressivo de câncer de pele, que já estavam em tratamento com imunoterapia. O resultado surpreendeu até os próprios cientistas.
Pacientes vacinados contra a Covid-19 viveram quase o dobro do tempo, em média, em comparação aos que não haviam recebido a vacina.
A pesquisa, publicada na revista Nature, mostra que as vacinas de mRNA (a mesma tecnologia usada nos imunizantes contra a Covid) podem despertar o sistema imunológico de forma tão intensa que o corpo passa a reconhecer e atacar também as células cancerígenas.
Como isso é possível?
As vacinas de mRNA ensinam o corpo a identificar e combater ameaças sem precisar de um vírus real.
Essa tecnologia envia instruções genéticas para que nossas células produzam pequenas partes inofensivas do vírus, o suficiente para o sistema imune “memorizar” o invasor e reagir rapidamente no futuro.
No caso do câncer, os cientistas acreditam que essa ativação geral do sistema imunológico ajuda as células de defesa, conhecidas como linfócitos T, a reconhecerem também os tumores.
O resultado é um efeito colateral benéfico: uma resposta mais forte e duradoura contra a doença.
“O RNA é uma molécula tão antiga quanto a própria vida. Quando ele entra no corpo, as células soam o alarme. É como um grito de emergência biológica”, explicou o pesquisador Elias Sayour, um dos autores do estudo.
Quase o dobro de tempo de vida
Entre os pacientes com câncer de pulmão, aqueles que receberam a vacina dentro de 100 dias após o início da imunoterapia viveram, em média, 37 meses, contra 20 meses dos não vacinados.
Nos casos de melanoma, o efeito também foi notável, com aumento significativo na sobrevida dos pacientes.
Os pesquisadores acreditam que esse efeito ocorre porque o mRNA funciona como um “sinal de alerta” que intensifica o poder da imunoterapia, um tipo de tratamento que estimula o sistema imune a atacar o câncer.
Uma nova era pode estar começando
Embora os resultados ainda precisem ser confirmados em novos testes clínicos, a descoberta abre caminho para algo que antes parecia ficção científica: uma vacina universal contra o câncer.
“Não estamos dizendo que esta é a cura para o câncer”, afirmou o médico Adam Grippin, principal autor do estudo.
“Mas é uma ferramenta que pode transformar a forma como tratamos a doença e salvar muitas vidas.”
Hoje, mais de 150 estudos clínicos com vacinas de mRNA estão em andamento em todo o mundo, metade deles voltados para diferentes tipos de câncer. Se as próximas etapas confirmarem os resultados, poderemos estar diante de uma das maiores revoluções médicas do século.
Curiosidade: o mRNA é o futuro da medicina?
O mRNA, sigla para ácido ribonucleico mensageiro, não é algo novo. Pesquisadores estudam essa tecnologia há mais de 20 anos.
Ela é considerada promissora porque é adaptável, rápida e barata de produzir.
Depois da pandemia, essa técnica mostrou ser capaz de ir muito além dos vírus e agora pode estar prestes a mudar também o futuro da oncologia.
A mesma molécula que ensinou o corpo a combater o coronavírus pode, no futuro, ensinar a humanidade a vencer o câncer.