Tomografia mostra que múmias no Egito já tinham dor nas costas

Tomografia mostra que múmias no Egito já tinham dor nas costas

Dor nas costas acompanha a humanidade há milênios e exames revelam dores crônicas em sacerdotes egípcios.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Dores nas costas costumam ser apontadas como um mal típico da vida moderna, consequência de cadeiras ruins, telas demais e pouco movimento. Mas e se esse incômodo fosse, na verdade, um velho conhecido da humanidade? Exames de tomografia feitos em múmias egípcias mostram que o sofrimento físico acompanha o ser humano há milênios, atravessando impérios, religiões e avanços tecnológicos.

Um estudo recente analisou corpos mumificados com mais de dois mil anos e revelou algo surpreendentemente familiar: desgaste nas articulações, lesões na coluna e sinais claros de dor crônica. O passado, ao que tudo indica, também sentia dor nas costas.

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Exames de tomografia feitos em múmias egípcias mostram que já sofriam com dores nas costas


O que as tomografias revelaram sobre o corpo antigo?

As imagens obtidas por tomografia computadorizada mostraram que os sacerdotes analisados conviviam com limitações físicas importantes. Um deles apresentava lesões evidentes na região lombar, compatíveis com dores persistentes nas costas. O outro sofria com um desgaste severo no quadril, condição que provavelmente tornava tarefas simples, como caminhar ou se levantar, extremamente dolorosas.

Além disso, os exames revelaram problemas dentários e sinais de envelhecimento avançado, reforçando a ideia de que esses indivíduos passaram anos lidando com desconforto físico progressivo.

O envelhecimento do corpo humano parece seguir padrões semelhantes, independentemente da época em que se vive.

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As tomografias mostraram que os sacerdotes analisados conviviam com limitações físicas importantes


Dores crônicas e o fim da vida no Egito Antigo

As análises sugerem que essas limitações não surgiram apenas no fim da vida, mas acompanharam os sacerdotes por um longo período. Em um contexto sem analgésicos modernos, fisioterapia ou cirurgias ortopédicas, conviver com dor crônica significava adaptar rotinas, rituais e até a forma de se mover.

Esses achados ajudam os pesquisadores a reconstruir como era envelhecer no Egito Antigo, mostrando que a longevidade vinha acompanhada de desafios físicos muito parecidos com os atuais.

Traumas antigos e possíveis tentativas de tratamento

Em uma das múmias, a tomografia identificou fraturas antigas na região torácica que haviam cicatrizado antes da morte. Isso indica que o indivíduo sofreu um trauma significativo, mas sobreviveu por bastante tempo após o acidente.

Mais intrigante ainda foi a presença de pequenas perfurações na coluna vertebral, que podem indicar algum tipo de intervenção médica rudimentar. Embora essa hipótese ainda seja analisada com cautela, ela levanta a possibilidade de que práticas terapêuticas experimentais já fossem tentadas naquele período.

Mesmo sem tecnologia avançada, o ser humano sempre buscou formas de aliviar a dor.

Quem eram os sacerdotes analisados?

Somente depois de identificar os problemas físicos, os pesquisadores cruzaram os dados médicos com registros históricos. As múmias pertenciam a Nes-Min, que viveu por volta de 330 a.C., e Nes-Hor, datado de cerca de 190 a.C. Ambos exerciam funções sacerdotais, o que explica o cuidado com a mumificação e os objetos funerários encontrados.

Nes-Min, por exemplo, foi enterrado com uma vestimenta ritual em rede, adornada com contas coloridas e colares, sinal de status social elevado e importância religiosa. Esses detalhes ajudam a contextualizar quem eram essas pessoas além das dores que carregavam no corpo.

Tecnologia moderna aplicada a corpos milenares

O estudo foi conduzido por radiologistas da Keck Medicine da USC, nos Estados Unidos. As tomografias seguiram protocolos semelhantes aos usados atualmente em hospitais, permitindo observar não apenas ossos, mas também tecidos moles preservados, algo raro em estudos arqueológicos.

As imagens revelaram até contornos faciais, como pálpebras, lábios e orelhas, oferecendo uma reconstrução mais humana e detalhada desses indivíduos. Todo o processo foi feito sem remover bandagens ou danificar os corpos, que permaneceram em suas bases originais dentro dos sarcófagos.

Modelos 3D ajudam a preservar e contar histórias

Com os dados obtidos, os pesquisadores criaram modelos digitais tridimensionais completos. A partir deles, foram produzidas impressões 3D de crânios, colunas, quadris e até objetos funerários.

Essa estratégia permite que cientistas e o público estudem réplicas exatas, sem risco aos materiais originais, ampliando o alcance educacional das descobertas. Os resultados farão parte da exposição “Múmias do Mundo”, no California Science Center.

Para a antropóloga Diane Perlov, esse tipo de abordagem muda a forma como olhamos para o passado. Quando identificamos a origem da dor em uma coluna ou em um quadril, essas múmias deixam de ser apenas relíquias e passam a ser reconhecidas como pessoas reais.

No fim das contas, a tecnologia moderna está revelando algo simples e profundo: mesmo separados por milênios, nossos corpos continuam enfrentando desafios muito parecidos.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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