Imagine caminhar por uma praça enquanto pombos aparentemente comuns circulam no céu. Agora imagine descobrir que alguns deles não são tão comuns assim. Eles podem estar recebendo comandos diretos no cérebro, seguindo rotas traçadas por operadores a quilômetros de distância. Parece ficção científica, mas já é realidade na Rússia.
Um projeto de tecnologia chamou a atenção do mundo após revelar que cientistas apoiados pelo governo russo desenvolveram aves controladas por implantes neurais. A empresa responsável, Neiry, afirma ter criado os chamados biodrones PJN-1, pombos equipados com chips cerebrais capazes de seguir trajetórias precisas enviadas remotamente pelos operadores.
O anúncio ganhou destaque internacional após ser associado ao governo do presidente Vladimir Putin, que tem investido em novas tecnologias de vigilância e automação.
Pombos que obedecem a comandos cerebrais
Na prática, aves comuns passam por uma cirurgia onde recebem eletrodos posicionados a poucos milímetros das regiões responsáveis por orientação e motivação. Após o procedimento, a ave passa a carregar uma pequena mochila com GPS, painéis solares e o módulo de recepção dos sinais.
Os estímulos enviados fazem com que o animal simplesmente “acredite” que deseja voar para a direção escolhida pelo controlador.
“Qualquer animal se torna controlável remotamente após a cirurgia”, destaca a empresa.
Segundo os pesquisadores, esses pombos são capazes de percorrer 500 quilômetros por dia, ultrapassando a marca de 3 mil quilômetros em uma semana.
A expansão do projeto para novas espécies
A Neiry não pretende parar nos pombos. O plano é testar diferentes aves, cada uma com objetivos estratégicos:
• Corvo para carregar cargas mais pesadas
• Gaivota para patrulhas costeiras
• Albatroz para operações oceânicas de longa distância
A empresa não divulga números sobre a mortalidade das aves ao longo das cirurgias, afirmando apenas que busca 100 por cento de sobrevivência nos procedimentos.
Discrição quase perfeita
Uma das partes mais curiosas do projeto é que um observador casual dificilmente reconheceria um biodrone. A aparência é de um pombo comum, exceto por um fino fio neural saindo da cabeça e a discreta mochila nas costas.
“O risco de queda é igual ao de uma ave comum”, garante a empresa.
Essas aves poderiam se misturar facilmente em centros urbanos, carregando sensores, microtransmissores ou câmeras sem levantar qualquer suspeita. Especialistas alertam que isso abre espaço para operações de espionagem invisíveis.
Aplicações civis e militares
Os biodrones são descritos pela Neiry como ferramentas para:
• monitoramento industrial e ambiental
• operações de busca e resgate
• vigilância de áreas sensíveis
Mas há ainda outra possibilidade, apontada por analistas internacionais: o uso militar. Em um cenário de conflito, como a guerra na Ucrânia, aves controladas remotamente poderiam realizar vigilância sem serem detectadas como equipamentos tecnológicos.
Financiamento e histórico tecnológico
A Neiry tem apoio de entidades estratégicas do governo russo, como a Iniciativa Nacional de Tecnologia (NTI) e fundos associados ao RDIF, ligado ao executivo russo e ao aliado de Putin, Kirill Dmitriev.
A companhia também faz parte do polo de inovação Skolkovo, conhecido como o Vale do Silício russo.
Não é a primeira controvérsia envolvendo a empresa. A Neiry já chamou atenção por implantar chips cerebrais em vacas, afirmando que buscava aumentar a produção de leite.
Uma tradição renovada
A tecnologia pode parecer futurista, mas a Rússia tem um histórico no uso de animais em operações militares. Desde a era soviética, golfinhos foram treinados para patrulhar bases, detectar invasores e até manipular minas subaquáticas.
Agora, com a criação dos biodrones, o país parece inaugurar uma nova fase: uma em que aves voam como se estivessem apenas vivendo seu dia comum, mas carregam uma tecnologia que mistura biologia, engenharia e controle remoto.
A fronteira entre natureza e máquina nunca esteve tão tênue.